Morgana narrando
Chegamos na casa das minhas tias e, ao olhar para minha mãe, não consegui esconder a empolgação.
— O que foi, mocinha? Nunca te vi tão animada para fazer compras — ela perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Só quero passar um tempo com você — respondi, tentando soar casual.
A ideia de minha mãe fazer compras com minhas tias e a Lavínia foi sutilmente plantada por mim, para que ela pensasse que foi ideia dela. Dessa forma, eu poderia ficar a sós com Lavínia.
Eu precisava conversar com ela. Achava que gostava dela, mas ainda não tinha certeza.
[...]
Finalmente, a Lavínia chegou em casa, e eu sorri, disfarçando quando minha mãe me olhou.
— Oi, gente. Desculpa, não sabia que teríamos visita — Lavínia disse, um pouco surpresa.
— Vai tomar banho, amor. Vamos fazer compras e você vai junto, uma noite das garotas — minha mãe disse, com entusiasmo.
— Tá bom — ela respondeu, estranhando a situação e subiu correndo.
— Você querendo fazer compras com a gente? Que bicho te mordeu, Morgana? Você sempre sai com suas amigas — minha tia Cecília perguntou, curiosa.
— Queria dar uma chance apenas — dei de ombros, tentando parecer desinteressada.
— Como a Lavínia está na escola? Vocês são amigas lá? — ela continuou, insistente.
— A gente conversa no horário do almoço, mas nossas aulas são diferentes, infelizmente — respondi, tentando encerrar o assunto.
[...]
Sorrio quando Lavínia desce, cheirosa e pronta para sair. As senhoras saem na frente, apressadas, e seguro a mão de Lavínia, que me olha assustada.
— Oi — ela diz baixinho.
— Oi. Você demorou. Foi bom o treino com meu pai?
— Foi legal, bem diferente do da camorra, mas legal.
— Você gosta mesmo da camorra?
— Sim — ela responde, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Você sairia por algo ou alguém?
— Acho que não. Camorra acima de tudo e todos, como minha mãe sempre diz.
Fico em silêncio, sem saber o que dizer, enquanto entramos no carro. Minha mãe e tias cantam uma música chiclete:
"Making my way downtown
Walking fast
Faces passed
And I'm home bound."
Elas cantam juntas enquanto tia Cecília dirige, e todos rimos.
— Agora vocês, pequenas — tia Alice diz, apontando para nós, e não resisto à animação.
— And I need you... — cutuco Lavínia com o cotovelo, que começa a cantar junto.
— And I miss you... And now I wonder... — ela canta, me fazendo sorrir.
As três malucas seguem cantando até o shopping.
[...]
Escolho um vestido qualquer quando vejo Lavínia ir em direção aos provadores. Ela se assusta, mas sorri quando esbarro nela.
— Desculpa — digo, segurando seu braço.
— Tudo bem. Você vai provar também? Aqui só tem um provador. Pode ir primeiro — ela diz gentilmente.
— Não, boba. A gente pode dividir. Que m*l tem, né? — digo, fingindo inocência e segurando sua mão, puxando-a para dentro.
Ela fica sem graça, e tranco a porta tirando minha blusa.
— É... Morgana? — ela olha para o teto.
— Pode olhar, quem nunca viu p****s, né? — digo rindo e começo a tirar minha calça.
— Tudo bem, quem nunca viu p****s, né? — ela responde, tirando sua blusa também, e dou risada.
Viro de costas para o espelho e experimento o vestido.
— O que acha, Lavínia? — pergunto, e ela me olha de cima a baixo.
— Ficou perfeito em você — ela responde, e eu me aproximo, vendo-a ficar sem graça.
— Perfeito para você ir a um encontro comigo? — ela pisca confusa e inclina a cabeça, me olhando melhor. Acho fofo.
— Oi?
— Um encontro — digo gesticulando — aquilo que as pessoas saem juntas, conversam, tiram fotos fofas, riem e se beijam.
— Se beijam? — ela pergunta, chocada.
— Sim, assim — me aproximo, colocando minha mão atrás de seu pescoço.
Aproximo meus lábios dos seus e, finalmente, a beijo. Invado sua boca devagar, e ela corresponde na mesma hora, me deixando feliz.
Desço uma mão para sua cintura, apertando-a contra mim, e com a outra puxo seus cabelos da nuca levemente, fazendo-a arfar entre o beijo.
Acabamos o beijo com falta de ar, mas nenhuma se afasta. Encosto minha testa na dela, sorrio ao ver suas bochechas vermelhas e faço carinho em seu rosto.
Ela sorri, encostando mais o rosto em minha mão.
— Então... um encontro?
— Sim, do jeito que você quiser. Pode escolher para onde iremos.
— Eu tenho que te contar algo... eu...
— Ficou com meu irmão? — pergunto, e ela assente. Não paro o carinho.
— Tudo bem — encosto a ponta do meu nariz no dela, fazendo um carinho de esquimó. Ela sorri.
— Eu não me importo de dividir você ou algo do tipo. O que importa é estar com você em algum momento, ok? Mas não vamos rotular ou exigir algo agora. Vamos focar no encontro. Você aceita?
— Sim, e já sei para onde — ela diz, sorrindo, e dou um selinho, me afastando.
Eu realmente não me importo dela gostar do meu irmão e estar saindo com ele. Não me importo em dividir e nem sou tão possessiva para querer ela só para mim.
— Então, para onde iremos? — pergunto, tirando o vestido e colocando minha própria roupa.
— Surpresa. Mas esse vestido está perfeito — ela fala, sorrindo para mim. — Vamos?
— Sim, nossas mães devem estar preocupadas — abro a porta do provador e saímos.
— E elas, como ficam com os encontros e...
— Fala sério — dou risada e explico para ela. — Nossas mães se apaixonaram pelos sequestradores que eram meu pai e sua mãe. E os pais das nossas mães também estão casados em um trisal bissexual. Eles são os próprios tabus e não vão julgar. Seria hipocrisia julgar.
— É verdade. Às vezes eu esqueço todo esse passado deles — ela diz rindo também.
— Do que estão rindo? — minha mãe pergunta, aparecendo com minhas tias, e ela me abraça.
— De nada. Vamos? Vou levar esse vestido.
— É lindo, filha.
— Eu também achei — Lavínia diz, e minha mãe assente.
[...]
Chegamos em casa cansadas. Já estava bem tarde, e eu estava morrendo de fome.
— Vamos, meu amor? — minha mãe pergunta, e assinto, indo me despedir.
Abraço minhas tias, e a Lavínia abraço um pouco mais forte.
— Tchau — ela diz, fazendo carinho em minha nuca.
— Tchau. Podemos sair no domingo? — pergunto baixo, e ela arregala os olhos. Entendo que já tem planos.
— Éer... — ela fica totalmente sem graça.
— Tudo bem. Você me avisa quando pode. Tchau, Lavi.
Beijo seu rosto e me viro, indo embora. Olha, eu não faço a menor ideia em que passo meu irmão está, mas estou focada no que eu quero.