Alguns momentos depois...
**Lavínia narrando**
Jogo o celular na cômoda e saio do quarto para falar com meu tio. Paro no corredor ao ouvir a discussão entre ele e minha mãe, que estão gritando:
— VOCÊ É IGUAL A ELE!
— NÃO ME ACUSE DE SER IGUAL AQUELE MONSTRO!
— Cecília, você está fazendo o mesmo que ele fazia: torturas, machucados, exigências e violência. Quer que ela cresça igual a nós? — ele começa a falar em tom normal.
— Por que não? Sou uma ótima líder da Camorra hoje.
— Fora disso, você não é nem um pouco sequelada, né? — Ando até as escadas, e eles me olham.
— Está tudo bem? — pergunto, e ele anda até mim, me abraçando.
— Tudo, querida. Só vim falar com sua mãe, mas já estou indo. O que acha de treinarmos amanhã na Camorra?
— Te encontro lá. Pronto para perder novamente?
— Que perder, pirralha! Eu só estava enferrujado aquele dia. Me respeita, menina.
— Amanhã você prova se é tudo isso mesmo. — Ele balança minha cabeça e me dá um beijo na testa antes de ir.
— Está tudo bem, mãe? — pergunto, e ela limpa a única lágrima que tinha saído.
— Estou bem. Vá para seu quarto, você tem aula amanhã — ela diz, se virando de costas.
Ando até ela, a abraçando, e dou um beijo em suas costas antes de sair para meu quarto.
**[...]**
Entro no carro, morrendo de sono, e minha mãe Cecília me entrega uma caixinha. Estranho e abro.
— É um presente de desculpa. Talvez eu tenha exagerado no seu castigo.
Vejo que é uma pulseira de prata e sorrio, colocando-a no meu punho.
— Ficou linda — ela diz, puxando minha cabeça para um beijo. — Agora vamos para a escola.
**[...]**
Caio no chão, suando, e dou risada do meu tio estar exausto em cinco minutos de luta. Me ergo já chutando, mas ele segura minhas pernas, fazendo cócegas.
— Isso é covardia... para, tio — digo entre gargalhadas, e ele me solta, fazendo gracinha.
— Cada um usa as armas que tem. Vamos lá, ainda estou bem — ele diz, pulando.
— Valendo tudo? — pergunto, e ele assente.
Sorrio, correndo até ele, escalando e sentando em seus ombros, impulsionando meu corpo para frente e o derrubando com tudo.
— Morri, SAI DE CIMA DE MIM! — Rolo para o lado, rindo, e ele respira alto.
— Está vivo? — me levanto, ajudando-o a se sentar, e ele respira cansado.
— Estou ficando velho, mas se contar isso à sua tia, eu mato você. A Mia adora me provocar.
— Mas está velho mesmo, olha os cabelos brancos — digo, fingindo ver, e ele se levanta correndo atrás de mim.
— Você vai ver o cabelo branco. VOLTA AQUI! — ele puxa um fio de cabelo.
— Você sabe que se puxar um branco, nascem dois no lugar, né?
— Para de jogar mandinga em mim. — Me sento no tatame, bebendo água, e logo ele vem atrás.
— Pulseira bonita — ele elogia, e olho para ela.
— Minha mãe me deu hoje. Acho que a consciência pesou.
— Ela pega pesado, né?
— Às vezes, mas diz que ajuda a gente a se formar.
— E a ter traumas. Ela está ficando igual ao nosso pai. A máfia faz isso — ele diz, triste, e quando não respondo, ele suspira, sorrindo. — Mas você gosta da Camorra, né?
— Sim, tem pessoas muito boas por trás de tudo isso. Eu cresci ali e gosto deles de verdade. Nem parece que são mafiosos, na verdade.
— Alguns são bons mesmo, mas nunca liguei para isso. Na época do meu pai, eu tinha muitos problemas e nem focava na máfia direito.
— Meu avô era muito r**m? Só sei de algumas histórias. Dizem que ele matou um homem, mas antes arrancou toda a pele dele enquanto ele gritava, jogando-o no ácido ainda vivo.
— Eu lembro disso. Foi porque um homem assobiou para sua avó Amélia na rua. Mas ele era muito r**m para toda a família Cordopatri.
Escutamos batidas na porta, e Matteo abre, enfiando a cabeça para dentro. Estamos na casa do meu tio, na sua academia particular. Ele evita ao máximo ir para a Camorra.
— Desculpa atrapalhar. Lavínia, podemos conversar? — Olho para meu tio, que faz sinal para eu levantar.
— Tudo bem, já terminamos. Vou tomar banho, e o Matteo te indica um banheiro depois.
Me levanto e o sigo pelo corredor até a piscina, onde nos sentamos na borda.
— Pode falar — começo, e olho para ele, que desvia com vergonha.
— Eu queria só ter certeza que me desculpou, porque por mensagem, né...
— Tá tudo bem. Estamos sem problemas, ok? — Seguro em seu braço enquanto falo, e ele sorri.
— Isso é muito bom. Sabe, eu passei a noite pesquisando e... — Arregalo os olhos, e ele se desconcerta. — Não... a noite toda não, só algum tempinho, sabe? Uns minutos, ou... Enfim, eu pesquisei uns filmes para assistirmos, e eu queria sua opinião.
Assinto enquanto ele pega o celular no bolso. Olho por alguns segundos para sua boca. Larga de ser trouxa, Lavínia. Até esses dias vocês estavam discutindo e ele te xingando.
— Aqui — ele mostra alguns filmes, e eu assinto, vendo os trailers. Sinto sua respiração em meu pescoço e olho para o lado, vendo que ele está mais próximo, me olhando.
— O quê? — ia perguntar, mas ele segura meu pescoço e acaba com nossa distância, me beijando.
Correspondo, meio assustada, mas em um momento apenas entro no embalo, esquecendo de tudo.
Nos afastamos sem ar, e quando ia falar algo, meu celular toca.
— É...
— Pode atender — ele diz, sorrindo sem graça e coçando a nuca.
Me levanto para atender um pouco longe, nunca sei o que minha mãe vai falar.
Ligação on:
— Filha, mandei o motorista te buscar na casa do seu tio. Precisamos de você aqui, então vá para a frente da casa — minha mãe Cecília diz.
— Tudo bem, mãe. Aconteceu algo?
— Nada de vida ou morte, mas ainda importante. Se despeça e venha.
— Mas eu ia tomar banho pós-treino.
— Em casa temos água e um chuveiro. Tchau — ela desliga rapidamente.
Ligação off.
Matteo já está de pé, e ando sem graça para perto dele. Damos ênfase de fala juntos e acabamos rindo disso.
— Você tem que ir, né?
— Sim, mas domingo a gente se vê no cinema, tá bom? — pergunto, e ele assente. — Tchau, Matteo.
Me aproximo para beijar sua bochecha, mas ele vira o rosto, transformando em um selinho.
Ignoro o fato, dando as costas e saindo, mas na porta ainda me viro, acenando.
Dou gritinhos bobos de adolescente, que podem parecer ridículos e realmente são na verdade. Mas a Lavínia pequena, até ter uns onze anos mais ou menos, sonhava com esse momento, e mesmo sendo vergonhoso, o pós-beijo foi incrível o restante.