O expediente na fábrica tinha sido um deserto de dez horas. Quando finalmente cheguei a casa, o meu corpo pesava como se eu tivesse carregado o mundo nos ombros, e não apenas fardos de cabelo. O meu pequeno quarto estava abafado. Joguei o telemóvel em cima da colcha gasta e nem sequer olhei para o ecrã. A única coisa que eu queria era tirar o cheiro a produtos químicos da minha pele.
O banho foi longo. Deixei a água correr, tentando lavar não só o cansaço, mas a frustração de saber que amanhã seria exatamente igual a hoje.
Quando saí, enrolada na toalha, o ecrã do telemóvel iluminava o quarto escuro. Duas notificações de um nome que eu não lia há anos: James.
James (18:45): "Quanto tempo, Anália..."
James (19:30): "Estás viva? Como estão as coisas por aí?"
Sentei-me na beira da cama. O James era uma memória de um tempo em que as coisas pareciam mais simples, antes de ele emigrar e eu me perder nos meus próprios escombros. Hesitei por um segundo. A última coisa que eu queria era conversa fiada, mas havia uma solidão naquela luz azul do telemóvel que me fez digitar.
Eu: "Viva eu estou, James. Só estou cansada. O dia foi longo. E tu, como vais?"
Ele respondeu em segundos. Parecia que estava à espera do outro lado do mundo, por aquele sinal de vida.
Começámos a falar. Ele contou sobre o frio da Europa, sobre como a vida lá era rápida e como sentia falta do calor daí. Eu, por um momento, esqueci as minhas mãos calejadas e a conta da luz que estava prestes a vencer. Rimos de histórias antigas, de vizinhos comuns, de sonhos que tínhamos quando éramos miúdos.
Pela primeira vez em meses, o cansaço do dia não se fazia sentir. Senti-me apenas a Anália adolescente, sem preocupações nenhumas.
A conversa fluiu, leve e entorpecente, até que os meus olhos começaram a pesar. Adormeci com o telemóvel na mão, com um pequeno sorriso no rosto, sem saber que aquele "reviver" de amizade era apenas o James a preparar o terreno para me cobrar um preço que eu ainda não sabia se estava disposta a pagar.
O despertador tocou às 05:30, o som estridente rasgando o resto de um sonho que eu já não conseguia recordar. A minha mão tateou a mesa de cabeceira, procurando o telemóvel para silenciar o ruído, mas os meus dedos encontraram-no debaixo da almofada.
Abri um olho, a luz do ecrã ferindo a minha visão matinal. Antes mesmo de ver as horas, vi a notificação do banco.
O meu coração falhou uma batida.
Não era o meu salário da fábrica. Será que era um erro do sistema? Pensei!. Era um valor que eu levaria seis meses a poupar, centavo a centavo, sacrificando o almoço e o transporte. Estava lá, em dígitos frios e azuis, acompanhado por uma mensagem curta de James:
"Vi que estavas cansada ontem. Compra algo que te faça sorrir hoje. O resto do caminho para o teu sonho de Design é por minha conta. Só tens de confiar em mim."
Fiquei estática, sentada na beira da cama, com os pés tocando o chão frio. Parece que eu tinha contado toda minha vida ao James. O valor no ecrã brilhava como um talismã, mas o peso que senti no peito não era de alívio.
Olhei pra mim pelo espelho do guarda-roupa. E pensei : “a rapariga que ali estava precisava desesperadamente daquele dinheiro”.
Precisava de pagar a matrícula, precisava de pagar uma série de contas.
Mas como mulher adulta eu sabia que nada na vida é de graça.
No fundo o James não me tinha mandado um presente. Ele tinha me mandado um contrato.
Apertei o telemóvel contra o peito. A humilhação de aceitar era uma luta contra a euforia de ter, finalmente, uma saída.
Naquele momento, na minha mente, a fábrica de cabelos não era nada comparado com aquele dinheiro na minha conta, mas o mundo lá fora, as vezes é sempre mais perigoso.
Fui trabalhar, mas dessa vez estava super alegre. Nada iria estragar meu dia. É claro que eu deixei uma mensagem de agradecimento ao James.
No horário do almoço, estava tudo bem, até os meus olhos curiosos fixarem em uma publicidade de como ganhar mais dinheiro.
A publicidade apareceu entre um vídeo de decoração e outro no meu feed. Um homem num fato impecável, num escritório que parecia o meu sonho de Design de Interiores realizado. Ele falava de "liberdade financeira", de "fazer o dinheiro trabalhar para ti" e de Criptomoedas.
Então eu pensei: “O valor que o James me tinha enviado era suficiente para a matrícula, mas se eu o duplicasse... eu poderia pagar o curso inteiro, e talvez… ter um apartamento novo”. Aí eu fiz a maior borrada com o dinheiro que o James me deu.
Eu não investi tudo. Apenas metade. O "investimento de boas-vindas", como o golpista chamava no anúncio.
O ecrã da aplicação brilhava em verde. Em três dias, os meus reais valiam mais trinta por cento. Era fácil. Demasiado fácil. A euforia — aquele otimismo exagerado— é uma droga pior que o álcool; ela cega-nos para o óbvio.
Num impulso de coragem cega, transferi o resto. Tudo o que o James me deu e o pouco que eu tinha poupado do meu salário suado.
O gráfico, que antes era uma escada para o céu, começou a mudar. Entrei em pânico. Tentei retirar o dinheiro, mas a aplicação deu erro. "Manutenção do sistema", dizia a mensagem fria. Mandei um e-mail para o suporte. Ninguém respondeu. A voz do homem do anúncio começou a soar na minha cabeça, mas agora não parecia inspiradora; parecia um deboche.
A aplicação desapareceu. O site estava em baixo. O dinheiro que deveria ser a fundação da minha empresa de Design tinha evaporado em bits e códigos que eu não compreendia. Irônico ne?! Eu nem percebia o que estava fazendo.
Daí vieram as consequências… Já havia passado 14 dias.
O pânico não veio sozinho; trouxe as contas. O senhorio bateu-me à porta a cobrar a renda atrasada. A luz estava por um fio. E, para piorar, eu tinha pedido um pequeno empréstimo de emergência numa daquelas aplicações de crédito rápido para tentar recuperar a perda, achando que o mercado ia subir. Não subiu.
Eu estava sentada no chão da cozinha, no escuro para não gastar o resto da energia. O telemóvel não parava de vibrar. Eram notificações de cobrança, ameaças de juros e, no meio de tudo isso, nem conseguia mais mandar mensagem ao James.
Mas ele sempre insistia em mandar mensagem.
Eu olhei para o ecrã. A bateria estava a 2%. Naquele momento eu vi que o James era a única solução pra mim, se eu não respondesse, o mundo ia fechar-se sobre mim. Eu não tinha o curso e tinha dívidas que o meu trabalho na fábrica levaria anos a pagar.
O que eu podia fazer? Eu respondi o James.. a minha mensagem foi única é desesperadora:
Eu: “Estou encrencada James”
James: “O que houve?”
Eu: “Fiz me#da das grandes”
James: “Podes dizer, estou aqui pra ajudar em tudo“
Daí… eu contei tudo… ele prometeu ajudar. Mas teria um preço da qual eu me envergonharia pelo resto da minha vida.