Pré-visualização gratuita Capítulo 1- O Banquete dos Ossos
"Eu nasci desse jeito."
Errado!. Ninguém nasce desse jeito. A gente é moldada pelo que sobra depois que o incêndio apaga.
Antes, era como se eu carregasse o coração nas mãos, e oferecendo ele como um banquete para quem estivesse com fome. Mas no final…fui devorada, pedaço por pedaço, até sobrarem apenas os ossos.
"Lamento... eu não posso aceitar os teus sentimentos. Não gosto de ti deste jeito."
Era a típica frase e o carimbo no passaporte da minha rejeição. Vinha de quase todos que flertavam comigo justo quando eu me apaixonava. Eu tinha um coração bobo, desses que acreditam quando alguém diz “confia em mim”. E eu confiava. Confiava com a facilidade de quem nunca tinha sido traída e com a coragem de quem ainda não sabia que promessas podem ser armas.
Dizem que me tornei “vagabunda”. Sem querer me justificar, mas na verdade foram eles que me lapidaram assim.
A primeira vez que fui chamada de vagabunda foi num sussurro, por entre dentes, chorei até desidratar. A segunda foi no meio de uma discussão feia, eu só senti uma raiva que queimava a garganta. A terceira já foi sem medo — na frente de todo mundo, para quem quisesse ouvir. Mas no final… eu sorri.
Engraçado... porque a primeira pessoa que me rotulou assim foi a mesma que um dia jurou que me amava.
Sabem! Quando tu és sempre tratada por algo que você não é, acaba se tornando. Aprendi a sorrir com os olhos frios e entendi:
“Se o mundo exige que eu seja a vilã para não ser a vítima, vou lhes dar a melhor atuação de suas vidas”
Mas como cheguei a este ponto?
10 anos antes…
Aos 14 anos, dei o meu primeiro beijo no pátio da escola. O primeiro namoro é sempre aquele roteiro romântico de filme, até eu descobrir que eu era a "namorada da escola", enquanto existia a "do bairro" e a "de sei lá mais onde". Primeiro amor, primeiro término, primeira traição e primeira lição não aprendida.
Aos 15, comecei um novo namoro. Durou menos de um mês. Terminou do mesmo jeito que começou…como um sopro.
Aos 17, veio o beijo. O melhor deles. De língua, intenso, daqueles que nos filmes parecem nojentos, mas na prática deixam as pernas bambas, como se estivesses no paraíso. Foi inesperado, e logo com meu amigo de infância. O tipo de beijo que arrepiava todas as noites só de lembrar. Foi marcante, foi real... até ele ir morar pra outra cidade e acabar com o que restava da minha fé no "para sempre".
Aos 18, eu decidi que gostar de alguém dava trabalho demais. Fechei a vitrine. Mas a vida gosta de pregar peças.
Aos 19, eu estava sentada num banco de rua, olhando as estrelas, quando um cara apareceu do nada bem na minha frente.
Eu ainda não sabia, mas ele seria uma das peças que faltava para eu destruir a mulher que eu era e deixar a "vagabunda" assumir o controle.
Ele não disse uma palavra de imediato; apenas me cravou um daqueles olhares que de algum jeito ele parecia brilhar mais do que as estrelas. Um olhar que dizia: “Eu sei exatamente o que você precisa.”
Tentei ignorar, claro. Era o meu mecanismo de defesa padrão. Mas ele não aceitou o vácuo. Sentou-se ao meu lado sem pedir licença, sem dar explicações, como se aquele banco — e talvez eu também — fôssemos parte do território dele.
Ele começou a falar de coisas leves. Como em sã consciência, uma pessoa conversa com alguém sem saber o nome?. Ele era bem confiante . Mas cada palavra que saía da boca dele era como um pequeno choque elétrico. Eu sentia meu coração acelerar, uma atração física que eu não conseguia controlar. Estava prestes a me entregar ao momento, sem nem perceber que estava baixando a guarda.
E então, ele sorriu…
Riu de uma daquelas minhas piadas sem graça que eu usava para afastar as pessoas. E aquele sorriso , aquele seu jeito foi o que me fez ter uma pequena recaída . Eu não estava acostumada a ser olhada daquela forma — sem julgamentos, sem a tentativa de me moldar ou de me "possuir" como um troféu.
Ele se inclinou. O toque das mãos foi a gota d’água, naquele instante, senti algo se movendo dentro de mim e todas as palavras cruéis que já ouvi de outros, foram esquecidas. Foi uma esperança perigosa.
Eu não sabia o nome dele. Não sabia de onde ele era, mas sabia que aquela noite, e aquele estranho eram o início de uma nova história.
…