Júlia Narrando
A água quente subindo pela banheira fazia um som contínuo, quase relaxante, se meu corpo não estivesse tão tenso e minha mente tão perdida. Eu tentava, de verdade, entender tudo que estava acontecendo, mas era como se eu tivesse sido jogada dentro de um furacão. Ontem eu tava jantando com a minha família, rindo, me despedindo... Hoje eu tava num lugar estranho, com um homem mais estranho ainda, e o corpo inteiro doía. Mas o que doía de verdade era a alma.
Quando ele falou que ia me deixar aqui com aquela mulher, a tal da tia Nina, eu senti um pânico subir rasgando o peitø. Eu não conhecia ela. Mas, pra ser sincera... eu também não conhecia ele.
— Relaxa aí... tia Nina é sangue bom. Vai cuidar de tu melhor que eu — ele disse, virando de costas.
Ele começou a tirar a camisa rasgada, que tava colada no corpo dele. O peitø largo, marcado... cicatriz pra todo lado. Era como ver um tanque de guerra de pé. Depois, ele tirou as botas, ficou só de calça. Meu coração disparou.
Fiquei paralisada. A mente gritou perigo, mas o corpo não reagiu. Se ele quisesse fazer alguma coisa comigo, já teria feito lá atrás. Ele me salvou. Me carregou. Dirigiu até aqui com a polícia na cola. Se ele fosse me machucar... teria feito antes.
Ele veio devagar, do jeito bruto dele. O olhar pesado, mas sem maldade. E aí falou, do jeito mais ogro do mundo:
— Com licença aí... tu precisa tirar essa roupa. Tá suja de sangue... vai infeccionar — ele disse, sem olhar muito.
Suas mãos grandes tocaram minha cintura com cuidado, mesmo que fossem mãos de quem claramente não sabia ser delicado. Ele me ajudou a tirar a blusa, depois a calça. Fiquei só de lingerie. Vi quando ele desviou o olhar, apertou a mandíbula. Respirou fundo.
A mão dele passou pelas minhas pernas com cuidado, como se tocasse vidro.
— Pørra... — ele murmurou baixo, como se brigasse com ele mesmo.
Me pegou no colo de novo. E dessa vez... eu não tremi. Não de medo, pelo menos. Me colocou dentro da banheira devagar. A água quente envolveu meu corpo como um abraço que eu nem sabia que precisava.
— Fica aí, de boa... já volto. — Falou e se sair, passou o olho por todo meu corpo.
E saiu, me deixando com o peito apertado e a cabeça girando.
Fiquei sozinha por alguns minutos. O silêncio era tão pesado quanto a dor no meu peito. A água quente envolvia meu corpo, mas não aquecia o que estava gelado por dentro. Cada vez que eu fechava os olhos, via flashes. As luzes, os gritos, o sangue… o cheiro da pólvora queimando, o som dos disparos, o barulho seco do corpo da minha mãe caindo no chão.
Pisquei forte, tentando afastar a lembrança, mas ela grudava como se fizesse parte da minha pele.
O barulho da porta me tirou do transe. A mulher que ele chamou de tia Nina entrou devagar, com um sorriso calmo.
— Tá bem, minha filha? — Assenti, ainda sem saber se tinha força na voz.
— E o grandão? — perguntei, numa tentativa de mostrar que ainda tava no presente.
— Quem, o Ferradura? — ela sorriu de leve, se aproximando. — Tomou um banho, saiu, mas deve voltar logo.
Suspirei, tentando aliviar a tensão no meu peito. Fechei os olhos por alguns segundos. O corpo já não doía como antes. Ainda machucado, claro, mas aliviado. Peguei o sabonete líquido ao lado da banheira e comecei a passar nos braços, no pescoço, no rosto. As partes cortadas arderam. A dor física me fez lembrar que eu ainda tava viva.
— Quer ajuda? — tia Nina perguntou, a voz doce mas firme.
Neguei com a cabeça. Ela respeitou meu espaço.
— Vou deixar uma roupa limpinha em cima da cama, e arrumei um negócio pra você comer, tá bom?
— Obrigada... — murmurei, sem coragem de encará-la.
Continuei espalhando o sabão pelo corpo, sentindo o ardor dos arranhões. A dor ali era menor que a que rasgava meu peitø.
— A gente nem se apresentou, né? — Ela falou ainda parada de frente para banheira.
Olhei pra ela, um pouco sem graça.
— Me desculpa... minha cabeça ainda tá lá no Paraná.
Ela sorriu, sentando na beirada da banheira.
— Não se preocupa, meu bem. Você não precisa pedir desculpa por nada. Meu nome é Antonina, mas todo mundo aqui na Mangueira me chama de Nina. Ferradura também, né, você viu.
— Meu nome é Júlia... e... a senhora é muito simpática. — Ela passou a mão nos meus cabelos molhados, com um carinho que me lembrou da minha mãe. Um nó subiu na garganta.
— Obrigada, Júlia... agora olha pra mim.
Me forcei a encará-la, mesmo com os olhos embaçados.
— É difícil, eu sei. Ninguém vai entender. Nem quem tava lá vai entender o que você tá sentindo. A dor da perda, da impotência... o medo. Tudo misturado. — Ela falou como se pudesse ver a minha dor.
— Eu não tive nem tempo de olhar pro rosto do meu pai. Ele pulou em cima dos meus irmãos... eu só lembro da minha mãe gritando e... — minha voz quebrou. — Eu não queria morrer. Pedi pra Deus, implorei... mas também não queria ser a única sobrevivente. — Ela segurou minhas mãos, firme.
— Ei... respira. Eu tô aqui. A gente vai te ajudar, tá bom? Agora você vai sair desse banho, vestir uma roupa limpinha e comer alguma coisa. E se quiser conversar, a gente vai conversar. — A voz dela é autoritária, mas tinha doçura. Isso me confortou de um jeito que eu nem sabia que precisava.
Me ajudou a levantar. As pernas estavam bambas, ainda doloridas. Ela jogou um roupão sobre mim, me ajudou a me enrolar. O toque dela era acolhedor, como um abraço silencioso.
Com a ajuda da tia Nina, fui até o quarto. As pernas ainda reclamavam, o corpo inteiro gritava cansaço, mas eu consegui andar. O quarto era rústico, a cara dele, mas limpo e arrumado. Uma roupa leve tava em cima da cama: short de algodão, blusinha, calcinha nova ainda com etiqueta. Tudo cheirava a sabão.
— Veste devagar, tá? Quando o corpo tá em choque, até respirar dói — ela disse, se afastando um pouco pra me dar privacidade, mas ficando por perto. — E come devagar também, minha filha. Sua mãe... ela... — a voz dela vacilou um pouco — deve ter sentido muita dor. Não é justo você passar por mais.
Concordei em silêncio, vestindo a roupa com cuidado. Quando terminei, ela se aproximou com uma toalha e começou a secar meus cabelos com delicadeza. Me senti criança de novo.
— Júlia... você estuda?
A pergunta me pegou de surpresa. Mas, pela primeira vez, me fez lembrar de quem eu era — não só do que tinha acontecido.
— Estudo sim... ou melhor, terminei o ensino médio no final do ano passado. Passei pra UFRJ... Tecnologia da Informação. Ia começar agora, nesse semestre.
— Ela parou o que tava fazendo por um segundo.
— Caramba, garota... parabéns. Isso é gigante. — A empolgação dela foi tão parecida com a da minha mãe que chegou a doer no peito.
— Era o meu sonho... estudar no Rio. Eu chegaria hoje à noite, sabe? Só que... não desse jeito. Não fugindo do inferno.
Nina respirou fundo, se abaixando pra ajeitar a barra do meu short com carinho.
— Às vezes a vida quebra a gente antes de mostrar o caminho certo. Mas cê chegou, entendeu? Tá viva. E isso já é um começo. — Balancei a cabeça concordando, segurando o choro.
— Obrigada, tia Nina. — Falei me sentindo grata pelas palavras dela.
— Que tia que nada... Me chama só de Nina. Família agora é aqui — ela disse, pendurando a toalha no cabideiro.
— Mas o "tia" é por respeito, não por ser estranha — falei, e ela abriu os braços com um sorriso.
— Então bora comer, pra você se sentir um pouco melhor — ela falou, e saímos juntas do quarto.
Continua....