Capítulo 05 Júlia

1369 Palavras
Júlia Narrando A água quente subindo pela banheira fazia um som contínuo, quase relaxante, se meu corpo não estivesse tão tenso e minha mente tão perdida. Eu tentava, de verdade, entender tudo que estava acontecendo, mas era como se eu tivesse sido jogada dentro de um furacão. Ontem eu tava jantando com a minha família, rindo, me despedindo... Hoje eu tava num lugar estranho, com um homem mais estranho ainda, e o corpo inteiro doía. Mas o que doía de verdade era a alma. Quando ele falou que ia me deixar aqui com aquela mulher, a tal da tia Nina, eu senti um pânico subir rasgando o peitø. Eu não conhecia ela. Mas, pra ser sincera... eu também não conhecia ele. — Relaxa aí... tia Nina é sangue bom. Vai cuidar de tu melhor que eu — ele disse, virando de costas. Ele começou a tirar a camisa rasgada, que tava colada no corpo dele. O peitø largo, marcado... cicatriz pra todo lado. Era como ver um tanque de guerra de pé. Depois, ele tirou as botas, ficou só de calça. Meu coração disparou. Fiquei paralisada. A mente gritou perigo, mas o corpo não reagiu. Se ele quisesse fazer alguma coisa comigo, já teria feito lá atrás. Ele me salvou. Me carregou. Dirigiu até aqui com a polícia na cola. Se ele fosse me machucar... teria feito antes. Ele veio devagar, do jeito bruto dele. O olhar pesado, mas sem maldade. E aí falou, do jeito mais ogro do mundo: — Com licença aí... tu precisa tirar essa roupa. Tá suja de sangue... vai infeccionar — ele disse, sem olhar muito. Suas mãos grandes tocaram minha cintura com cuidado, mesmo que fossem mãos de quem claramente não sabia ser delicado. Ele me ajudou a tirar a blusa, depois a calça. Fiquei só de lingerie. Vi quando ele desviou o olhar, apertou a mandíbula. Respirou fundo. A mão dele passou pelas minhas pernas com cuidado, como se tocasse vidro. — Pørra... — ele murmurou baixo, como se brigasse com ele mesmo. Me pegou no colo de novo. E dessa vez... eu não tremi. Não de medo, pelo menos. Me colocou dentro da banheira devagar. A água quente envolveu meu corpo como um abraço que eu nem sabia que precisava. — Fica aí, de boa... já volto. — Falou e se sair, passou o olho por todo meu corpo. E saiu, me deixando com o peito apertado e a cabeça girando. Fiquei sozinha por alguns minutos. O silêncio era tão pesado quanto a dor no meu peito. A água quente envolvia meu corpo, mas não aquecia o que estava gelado por dentro. Cada vez que eu fechava os olhos, via flashes. As luzes, os gritos, o sangue… o cheiro da pólvora queimando, o som dos disparos, o barulho seco do corpo da minha mãe caindo no chão. Pisquei forte, tentando afastar a lembrança, mas ela grudava como se fizesse parte da minha pele. O barulho da porta me tirou do transe. A mulher que ele chamou de tia Nina entrou devagar, com um sorriso calmo. — Tá bem, minha filha? — Assenti, ainda sem saber se tinha força na voz. — E o grandão? — perguntei, numa tentativa de mostrar que ainda tava no presente. — Quem, o Ferradura? — ela sorriu de leve, se aproximando. — Tomou um banho, saiu, mas deve voltar logo. Suspirei, tentando aliviar a tensão no meu peito. Fechei os olhos por alguns segundos. O corpo já não doía como antes. Ainda machucado, claro, mas aliviado. Peguei o sabonete líquido ao lado da banheira e comecei a passar nos braços, no pescoço, no rosto. As partes cortadas arderam. A dor física me fez lembrar que eu ainda tava viva. — Quer ajuda? — tia Nina perguntou, a voz doce mas firme. Neguei com a cabeça. Ela respeitou meu espaço. — Vou deixar uma roupa limpinha em cima da cama, e arrumei um negócio pra você comer, tá bom? — Obrigada... — murmurei, sem coragem de encará-la. Continuei espalhando o sabão pelo corpo, sentindo o ardor dos arranhões. A dor ali era menor que a que rasgava meu peitø. — A gente nem se apresentou, né? — Ela falou ainda parada de frente para banheira. Olhei pra ela, um pouco sem graça. — Me desculpa... minha cabeça ainda tá lá no Paraná. Ela sorriu, sentando na beirada da banheira. — Não se preocupa, meu bem. Você não precisa pedir desculpa por nada. Meu nome é Antonina, mas todo mundo aqui na Mangueira me chama de Nina. Ferradura também, né, você viu. — Meu nome é Júlia... e... a senhora é muito simpática. — Ela passou a mão nos meus cabelos molhados, com um carinho que me lembrou da minha mãe. Um nó subiu na garganta. — Obrigada, Júlia... agora olha pra mim. Me forcei a encará-la, mesmo com os olhos embaçados. — É difícil, eu sei. Ninguém vai entender. Nem quem tava lá vai entender o que você tá sentindo. A dor da perda, da impotência... o medo. Tudo misturado. — Ela falou como se pudesse ver a minha dor. — Eu não tive nem tempo de olhar pro rosto do meu pai. Ele pulou em cima dos meus irmãos... eu só lembro da minha mãe gritando e... — minha voz quebrou. — Eu não queria morrer. Pedi pra Deus, implorei... mas também não queria ser a única sobrevivente. — Ela segurou minhas mãos, firme. — Ei... respira. Eu tô aqui. A gente vai te ajudar, tá bom? Agora você vai sair desse banho, vestir uma roupa limpinha e comer alguma coisa. E se quiser conversar, a gente vai conversar. — A voz dela é autoritária, mas tinha doçura. Isso me confortou de um jeito que eu nem sabia que precisava. Me ajudou a levantar. As pernas estavam bambas, ainda doloridas. Ela jogou um roupão sobre mim, me ajudou a me enrolar. O toque dela era acolhedor, como um abraço silencioso. Com a ajuda da tia Nina, fui até o quarto. As pernas ainda reclamavam, o corpo inteiro gritava cansaço, mas eu consegui andar. O quarto era rústico, a cara dele, mas limpo e arrumado. Uma roupa leve tava em cima da cama: short de algodão, blusinha, calcinha nova ainda com etiqueta. Tudo cheirava a sabão. — Veste devagar, tá? Quando o corpo tá em choque, até respirar dói — ela disse, se afastando um pouco pra me dar privacidade, mas ficando por perto. — E come devagar também, minha filha. Sua mãe... ela... — a voz dela vacilou um pouco — deve ter sentido muita dor. Não é justo você passar por mais. Concordei em silêncio, vestindo a roupa com cuidado. Quando terminei, ela se aproximou com uma toalha e começou a secar meus cabelos com delicadeza. Me senti criança de novo. — Júlia... você estuda? A pergunta me pegou de surpresa. Mas, pela primeira vez, me fez lembrar de quem eu era — não só do que tinha acontecido. — Estudo sim... ou melhor, terminei o ensino médio no final do ano passado. Passei pra UFRJ... Tecnologia da Informação. Ia começar agora, nesse semestre. — Ela parou o que tava fazendo por um segundo. — Caramba, garota... parabéns. Isso é gigante. — A empolgação dela foi tão parecida com a da minha mãe que chegou a doer no peito. — Era o meu sonho... estudar no Rio. Eu chegaria hoje à noite, sabe? Só que... não desse jeito. Não fugindo do inferno. Nina respirou fundo, se abaixando pra ajeitar a barra do meu short com carinho. — Às vezes a vida quebra a gente antes de mostrar o caminho certo. Mas cê chegou, entendeu? Tá viva. E isso já é um começo. — Balancei a cabeça concordando, segurando o choro. — Obrigada, tia Nina. — Falei me sentindo grata pelas palavras dela. — Que tia que nada... Me chama só de Nina. Família agora é aqui — ela disse, pendurando a toalha no cabideiro. — Mas o "tia" é por respeito, não por ser estranha — falei, e ela abriu os braços com um sorriso. — Então bora comer, pra você se sentir um pouco melhor — ela falou, e saímos juntas do quarto. Continua....
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