Ferradura Narrando
Sol quente de quebrar as ideias, céu limpo e o bafo do asfalto subindo. O Rio de Janeiro me recebeu daquele jeito: caos e beleza no mesmo pacote. Pisei no solo carioca com a bota suja de pólvora e o peitø batendo no ritmo da responsa. Do meu lado, a mina... destruída, muda, com os olhos rodando o cenário como se estivesse vivendo um pesadelo de olhos abertos.
Mas o mundo virou do avesso e ela chegou no Rio sem nem saber se ainda tinha vida pela frente.
— Respira. Tu tá viva. — murmurei no canto da boca, só pra ela ouvir.
Na pista, meus cria já tavam me esperando. Espoleta, meu sub, e Cartucho, o gerente da operação no estado. Dois tanque. Dois que seguram o rojão sem pestanejar. Os dois vieram andando na minha direção com aquele olhar de quem sabia que o bagulho era sério.
— Chegou bem, chefe? — Espoleta falou, me dando aquele salve.
— Do jeito que dá. — respondi seco, já pegando a chave da caminhonete blindada na mão dele.
Júlia, ainda agarrada em mim, tentava entender onde tava, mas o sol já alto batendo no rosto dela parecia deixar tudo mais real. A garota tremeu, puxou o capuz mais pro rosto e respirou fundo, tipo tentando se esconder do mundo.
Foi aí que um dos moleques em cima da moto — folgado, cria novo — meteu a língua onde não devia.
— Ihhh... o chefão foi fechar negócio no Paraná e voltou com a mulher. Esse aí foi dá bom dia pro diabø e voltou com a dona do inferno no colo!
Foi um segundo. Nem respondi. Só saquei, mirei e... PÁ!
A bala cravou certeira na testa. O moleque nem teve tempo de entender a merdä que fez. O corpo tombou da moto e caiu seco no chão.
— Vai brincar com o cão, mas não brinca comigo, não, caralhø. — falei, guardando a Glock como se nada tivesse acontecido.
Espoleta e Cartucho nem piscaram. Sabiam que o recado era geral.
— Bora. Tu e tu, vem de moto na contenção. — apontei pros dois de confiança. — Quem for fraco, que fique.
Joguei a porta da caminhonete pro alto, botei a mina dentro com cuidado. Ela me olhou, os olhos cheios de medo e confusão. Eu não tenho muito o que dizer. Se essa pørra é nova pra ela, imagine para mim.
— Tu tá comigo agora. E comigo... ninguém encosta. — Falei firme e ela suspirou, entrando e já rodando a chave.
O barulho das motos estourando no asfalto e a cidade começando a entender que Ferradura voltou.
Meti marcha, rasgando o asfalto do Rio com a blindada que ronronava como fera. A cidade era um caos organizado, aquele calor suado grudando na pele e o som do motor abafando meus pensamentos... pelo menos tentava. Mas não dava pra ignorar a presença dela ali do lado.
Nunca tive mulher tão perto assim. Pra ser sincero? A única vez que encostaram no meu peitø , nem quando foi pra buscar bala, vou descarregar aquele pente. Ela tá aqui , toda quebrada, afundada no banco do carona, mas viva. Com medo, sim, mas viva. E perto demais.
Me incomodava. Não porque ela era frágil, mas porque... pørra, me lembrava da Mariana. Minha irmã.
A forma como ela apertava os dedos na roupa, o jeito de se encolher quando sentia dor... aquilo me desarmava sem precisar de uma arma. Ela se ajeitou no banco com o rosto retorcido e soltou um gemido abafado. Engoli em seco. Não era o tipo de coisa que eu sabia lidar.
Minha mão firme no volante, a outra tentando ajudar ela a se ajeitar.
— Tá doendo? — perguntei do meu jeito, voz rouca, quase num sussurro.
Ela fechou os olhos, respirou fundo e balançou a cabeça devagar, engolindo o choro.
— Aguenta firme. Já tá chegando. — falei, apertando o acelerador, a favela da Mangueira tá logo ali.
A viagem da pista até o Morro é rápida. Ninguém dava ideia pra carro blindado acelerando daquele jeito. Sabiam que era coisa de gente que manda.
Peguei o radinho no suporte e chamei:
Rádio on
— Espoleta, na escuta?
— Fala, chefia. Tudo sob controle por aqui.
— A tia Nina tá no morro?
— Tá sim, tava na cozinha preparando o rango. Quer que eu avise que tu vai colar?
— Avise não. Só vê se a parte de cima da casa tá limpa. Vou precisar deixar a garota lá um tempo. E manda preparar tudo, tô chegando com problema e não quero olhar torto pra ninguém.
— Pode deixar, chefe. Aqui é disciplina.
— Fechou. Desliga.
Rádio Off
Guardei o rádio e respirei fundo. A favela tava cada vez mais perto, o coração batia no compasso da responsa.
Eu sei o que fazer. Sei onde tou me metendo. Só não sabia o porquê daquela pørra toda estar mexendo tanto comigo.
Mas agora não era hora de pensar. Era hora de agir.
E quando se trata de proteger alguém... eu não falho, não posso e nem vou, fale agora .
Passei pela barreira da Mangueira na moral, os cria já sabiam — baixaram os fuzil, acenaram com o queixo. O vidro escuro da blindada só refletia o brilho do sol e o peso do corre que eu carregava no colo. A mina tava apagada de novo, mas respirando.
Quando virei na viela da lateral do casarão da tia Nina, ela já tava lá. Mãos na cintura, o olhar afiado de quem entende mais da vida que muito doutor. Os moleque da contenção já tinham passado a visão.
Parei o carro. Abri a porta e desci com ela no colo.
— Ave Maria, Ferradura… o que houve, meu filho? — ela correu pra perto, ajeitando o cabelo da menina, a mão carinhosa encostando no rosto dela. Júlia só respirou fundo, os braços ainda no meu pescoço, grudada demais… e pørra, aquele cheiro dela subiu direto, impregnando no meu peitø.
— Vou colocar ela no meu quarto, tia. Até a parte de cima ficar pronta. A Zulmira tá aí ajeitando, né? — A tia Nina foi na frente abrindo as portas, ela afastou a cabeça do meu peiø.
— Tá. Mas… e você? Vai pra onde? — O jeito que ela perguntou soou estranho. Tipo… fundo demais.
— Vou pro meu barraco. — falei seco. — Tu fica aqui com a tia. Aqui é lugar seguro. Ela vai tá contigo, então tá comigo também.
Olhei pra mina, depois voltei o olhar firme pra Nina.
— Pode ser tia? Sei que tu vai cuida dela melhor do que eu. Confio minha vida na tua mão, então posso confiar a dela também.
A morena travou o maxilar, fechou os olhos forte. Não gostou. Mas não falou nada.
— Será que ela não precisa de médico, Ferradura? Tá muito machucada... — A tia soltou quase em um sussurro, enquanto eu colocava a mina na cama.
— Nem UPA, nem posto, nem hospital. Não quero ninguém metendo a mão nela. Vou pedir pra virem olhar ela aqui, do nosso jeito.
— E você? Também tá ferido, viu? — A mina soltou tocando meu ombro.
— Tô bem. — menti.
— Você não tá… — a voz dela saiu baixa, quase um sussurro, tentando se levantar da cama.
Dei dois passos, botei a mão no ombro dela, firme.
— Fica deitada, pørra.
— Tem alguma roupa que dê pra ela, tia? — perguntei, olhando ao redor. — Um bagulho que sirva nela, só pra tirar essa roupa suja.
— Tem sim… tem roupa da sua… — Ela parou assim que eu limpei a garganta, e eu já sabia que ela ia falar da minha Coroa. — Vou pegar. Tem roupa tua também, se quiser ficar aqui até ela melhorar. Vai lá, toma um banho, vou preparar uma comida pra vocês. — Ela saiu, deixando a gente sozinho no quarto.
— Aguenta aí. Vou encher a banheira pra tu tomar banho. — falei tirando o que restava da camisa, sapato, ficando só de calça. Abri o botão… a pele ardia, queimando dos cortes e da tensão.
A mina arregalou os olhos.
— Calma aí, boneca. Só vou ajudar. Tu precisa se livrar desse sangue. E não, não tô aqui pra te assustar.
Ela respirou fundo, com os olhos marejados. Não disse nada, mas não recuou. Eu fui pro banheiro, liguei a água… tentando, nessa pørra, só por um instante… ser humano.....
Continua...