Júlia Narrando
O barulho ainda ecoava na minha cabeça. O cheiro de pólvora impregnado na roupa, na pele, na alma. Mas antes disso, antes do inferno tomar conta da minha vida, eu era só uma garota animada para uma nova fase.
Era pra ser uma noite tranquila. Uma despedida simples dos meus pais antes de embarcar para o Rio de Janeiro. Meu sonho tava ali, tão perto que eu quase podia tocar. A chance de estudar, de construir um futuro diferente, de honrar tudo que meus pais sacrificaram por mim. Eles sempre disseram que eu era o orgulho deles. Que minha inteligência e minha força iam me levar longe. Que eu tinha que viver, aproveitar o mundo.
E então, em segundos, tudo virou pó.
A primeira coisa que ouvi foi o grito da minha mãe. Depois, o estrondo dos tiros. O restaurante, que tava cheio de vida, virou um matadouro. Meus olhos procuraram por eles no meio do caos, mas a única coisa que vi foi sangue. Pessoas caindo, gritos de desespero, o cheiro metálico no ar. Meu peito apertou num pavor que eu nunca tinha sentido antes. Meu corpo travou por um segundo, até que uma bala zunisse perto do meu ouvido, me fazendo acordar para a realidade c***l.
Eu me joguei no chão, engatinhando entre os corpos, tentando me arrastar para longe. O sangue quente grudava nos meus joelhos, na palma das minhas mãos. Meu coração batia tão forte que parecia querer explodir dentro do peito. Eu só pensava em uma coisa: sair dali.
A visão do meu pai caído em cima das crianças me fez perder o ar. Minha mãe... Deus, minha mãe. O mundo girava, tudo embaralhado, as luzes piscando como se fosse um pesadelo do qual eu não conseguia acordar. Minhas mãos tremiam, o gosto amargo do medo na boca. Não podia chorar, não podia gritar. Eu só tinha que sobreviver.
Me arrastei até o banheiro, cada movimento uma tortura. A cada barulho de tiro, meu corpo travava. A morte tava ao meu redor, sussurrando no meu ouvido que era questão de tempo. Me escondi no canto, abraçando as pernas, enfiando o rosto entre os joelhos, rezando para ser invisível.
E então ele apareceu.
O chute na porta foi como um trovão. Meu corpo inteiro se encolheu, os olhos arregalados encarando aquele homem enorme parado na minha frente. O peito sujo de sangue, o olhar feroz. Tudo nele gritava perigo.
— Vem comigo. Agora. — A voz era grossa, sem espaço para discussão.
Eu tremia da cabeça aos pés. Meu corpo não se movia. Ele franziu a testa, bufou, se agachou e me puxou pelo braço. O toque dele era quente, firme, forte demais. Meu instinto gritava para fugir, mas para onde? O que me restava? Ele era a única chance de sair dali viva.
Engoli seco, minha mente a mil.
Se eu tivesse que confiar em um monstro para sobreviver, então que fosse ele.
Meu nome é Júlia Hernandes, tenho 19 anos, nascida e criada no Paraná. Terminei o ensino médio do jeito que eu queria, estudando feito uma maluca, e passei pra UFRJ em TI. O próximo passo era Rio de Janeiro, minha nova vida. 1,70m de altura, olhos claros, cabelo escuro, eu sou aquela mulher que é fina em cima e larga embaixo — cintura fina, mais fina que os meus ombros que também são desproporcionais, ao meu quadril, bünda grande e perna grossa. Tudo em mim tava pronto pra esse novo começo. Só não sabia que ia terminar… assim.
O medo ainda toma conta de mim. Por mais que eu tente soltar ele, meu corpo não obedece. Os tiros ainda explodem na minha cabeça, os gritos, o sangue... tá tudo preso em mim. O cheiro de pólvora parece impregnado nos meus ossos. E quando percebi, meu peito começou a fechar, o ar sumir. Uma crise. Daquelas.
Tentei sair dos braços dele, com os dedos tremendo, me debatendo num impulso de desespero, mas ele me segurou com força, me prendendo contra o peitø largo dele.
— Eu não posso continuar — soltei em um sussurro fraco, quase implorando por silêncio, por paz, por qualquer coisa que me fizesse acordar desse pesadelo.
— Pørra, mina, respira direito! — ele rosnou, a voz grossa soando como uma bronca, mas o jeito que ele me apertou foi firme, quase protetor. — Já passou, caralhø. Cê tá viva, pørra. Viveu. Olha pra mim, ô! — ele segurou meu rosto com as mãos calejadas, forçando meu olhar pro dele.
— Eles... eles mataram todo mundo — eu soluçava, o corpo inteiro tremendo. — Minha mãe, meu pai... eu vi o sangue... eu vi...
— Ei, ei, ó... — ele se ajeitou no banco e me puxou de novo pro peitø dele, enterrando minha cabeça no peitoral dele. — Ninguém vai encostar mais em tu, ouviu? Tu vai respirar fundo agora... Inspira essa pørra! Vai, isso... devagar... Isso... Respira comigo, cacetë.
— Eu tô com medo... — falei quase sem ar, agarrada no pescoço dele como se minha vida dependesse daquilo. Talvez dependesse.
— Pørra... cê é forte pra caralhø, mina. Aguentou o bagulho todo lá dentro. Vamo sair dessa. Já tamo no ar faz horas.
Ele olhou o relógio, e volta a olhar para mim.
— Falta pouco... mais uns minutos e a gente pousa. Se segura aí, que tu tá comigo agora. E comigo, ninguém encosta em tu sem passar por cima do meu cadáver. Fechô?
Eu só consegui fazer um sinal com a cabeça, ainda tremendo. Mas nesse instante… mesmo com medo, eu tenho que começar a acreditar.
O silêncio dele, a firmeza nos braços, o peito quente onde meu rosto tava enterrado… tudo contrastava com o inferno que tava aqui dentro de mim.
A dor... não era no corpo. Nem nos arranhões. Nem no sangue seco grudado na pele. Era na alma. Uma dor que não tem nome, que rasga por dentro como se alguém estivesse me esvaziando viva.
Perdi tudo. Pai, mãe, irmãos. Minha casa. Meu lar. Minha história. Um dia eu tava rindo na mesa de jantar, e no outro… tava fugindo da morte, com um estranho que parece um monstro, um ogro que fala palavrão a cada frase. Mas foi ele. Foi ele que me tirou de lá.
E agora, tô aqui… no colo dele. Tremendo. Sozinha no mundo. Sem saber o que vai ser de mim, dos meus sonhos, da minha faculdade, da minha vida.
— Vai dar bom, mina… — ele murmurou, a voz rouca soando baixa perto da minha cabeça. — Eu sei que tu tá na merdä, sei que perdeu tudo… mas agora tu tá aqui. E enquanto tu tiver comigo, ninguém mais vai te føder nessa pørra de mundo, tá ouvindo? — As palavras dele, saíram como promessas, e eu vou tentar me agarrar nela.
Continuei calada, chorando silenciosamente, os dedos agarrados na blusa dele como se fosse meu último fio de vida.
— Não era pra trazer ninguém — ele continuou, mais pra ele do que pra mim. — Meus planos não era cuidar de ninguém. Mas eu não ia deixar tu lá… não podia.
Esse monstro… têm sentimento.
— Eu não me permito perder mais ninguém. Cê entendeu? — ele falou, com um suspiro pesado. — Então se agarra, respira, chora o que tu tiver que chorar. Mas tu vai sobreviver. Tu vai viver por eles. Por tu.
Foi aí que senti o jatinho dar aquela leve descida. Olhei pela janelinha com os olhos ainda embaçados de dor.
— É isso, pørra... tamo no Rio de Janeiro. — Ele falou firme, a voz grossa ecoando no jatinho, como se aquilo fosse o fim de uma guerra.
— Rio...? — murmurei, com os olhos arregalando sem nem perceber. O coração bateu mais alto, não de alívio, mas de choque.
Era pra cá que eu viria… pra realizar meu sonho, pra estudar, pra viver. E agora eu tava chegando na cidade fugindo da morte, toda quebrada por dentro, nos braços de um homem que mais parecia um monstro do que um herói. Uma lágrima escorreu sem permissão. Tudo mudou. Tudo.
O Rio não é mais só meu sonho. Também é meu refúgio. Meu recomeço. Ou, talvez… meu fim.....
Continua.....