O trajeto até a escola pareceu interminável.
Helena estava no banco traseiro ao lado de Alexander, as mãos frias demais para o próprio corpo. O carro avançava pelas ruas de Manhattan com precisão controlada, enquanto outro veículo os seguia de perto. Daniel estava ao volante, concentrado como se cada semáforo fosse uma ameaça em potencial.
— O que exatamente tentaram fazer? — Helena perguntou, forçando a voz a não tremer.
Alexander mantinha o olhar fixo à frente.
— Usaram um nome da lista de responsáveis autorizados para retirada de alunos.
O estômago dela afundou.
— Mas essa lista é restrita.
— Era. — Ele digitava algo no celular enquanto falava. — Alguém conseguiu acesso parcial ao sistema da escola esta manhã. Tentaram incluir um novo contato vinculado ao sobrenome Carter.
Helena sentiu o sangue gelar.
— Usaram o meu nome.
— Sim.
— Então não é só sobre a propriedade.
Alexander finalmente se virou para encará-la.
— Nunca foi só sobre a propriedade.
O carro virou na rua da escola. Dois homens já estavam posicionados do lado de fora, discretos demais para parecerem seguranças, atentos demais para serem apenas pais.
Helena reconheceu o padrão de controle silencioso.
Quando o carro parou, Alexander foi o primeiro a sair. Helena o seguiu sem pensar. O coração batia alto demais.
Dentro da escola, a diretora os aguardava na sala administrativa, visivelmente nervosa.
— Senhor Wolfe, lamento profundamente — começou ela. — O sistema acusou uma tentativa de modificação na ficha do Ethan. Bloqueamos a tempo.
— Como conseguiram os dados? — Alexander perguntou, frio.
— Ainda estamos investigando. Pode ter sido uma falha de segurança externa.
Helena percebeu o olhar de Alexander mudar levemente. Ele não acreditava em falhas.
— Quero cópia de todos os acessos das últimas setenta e duas horas — disse ele. — E troca imediata de senhas e protocolos.
A diretora assentiu, quase ofegante.
— Ethan está na aula? — Helena perguntou.
— Sim. Não mencionamos nada para não alarmá-lo.
Alexander fez um gesto discreto e um dos homens do corredor entrou para buscar o menino.
Quando Ethan apareceu, sorrindo ao vê-los, Helena sentiu os joelhos quase cederem.
— O que vocês estão fazendo aqui? — ele perguntou, animado.
— Surpresa! — Helena respondeu, forçando leveza. — Vamos passar a tarde juntos.
Alexander se agachou diante do filho.
— Mudança de planos, campeão.
Ethan pareceu confuso por um segundo, mas segurou a mão do pai sem questionar.
Helena observou aquela cena com o peito apertado. A ameaça não era mais abstrata. Tinha nome. Tinha intenção.
De volta ao carro, Alexander não falou até que estivessem longe o suficiente.
— Eles testaram o perímetro da casa. Testaram você no parque. Agora testaram a escola. — A voz dele era matemática. — Estão mapeando reações.
— Então precisamos reagir diferente — Helena disse.
Ele olhou para ela.
— Diferente como?
— Parar de agir apenas na defesa.
Alexander arqueou levemente a sobrancelha.
— Continue.
— Se eles querem a chave, vão nos seguir até ela. — Helena respirou fundo. — Então vamos dar a eles o que querem ver.
— Você está sugerindo…
— Que vamos à propriedade como planejado. Mas não como fuga. Como isca controlada.
O silêncio dentro do carro se tornou denso.
— Você entende o risco? — Alexander perguntou.
— Eu sou o risco — ela respondeu.
Os olhos dele escureceram.
— Não diga isso.
— É verdade. Enquanto acreditarem que eu tenho algo, vão continuar se aproximando.
Alexander desviou o olhar, tensionado.
— E se estiverem certos?
Helena sentiu o peso da pergunta.
— Então precisamos descobrir antes deles.
Na mansão, o clima era diferente. Segurança reforçada. Portões checados. Rotas revistas.
Ethan foi levado para o quarto por Helena. Ela sentou-se ao lado dele na cama enquanto ele mexia em um carrinho.
— Vamos viajar? — ele perguntou.
Ela sorriu.
— Talvez.
— Meu pai fica estranho quando viajamos.
Helena franziu a testa.
— Estranho como?
— Mais quieto. Ele fica olhando as coisas como se estivesse esperando alguém aparecer.
O comentário simples trouxe um arrepio silencioso.
— Ele só quer manter você seguro.
Ethan olhou para ela por alguns segundos.
— Você também fica diferente quando ele está perto.
Helena engoliu seco.
— Diferente como?
— Como se estivesse pensando rápido demais.
Ela riu baixo.
— Talvez eu esteja.
Quando Ethan finalmente adormeceu, Helena saiu do quarto e encontrou Alexander no corredor.
— Ele percebe tudo — ela disse.
— Sempre percebeu.
— Isso vai marcar ele.
Alexander sustentou o olhar dela.
— A ausência marca mais.
Ela entendeu o que ele queria dizer. Ele preferia ser o pai superprotetor do que o pai ausente.
— Partimos em três horas — ele disse.
— Tão rápido?
— Quanto mais previsível, mais vulnerável.
***
No escritório, Helena observou enquanto Alexander organizava documentos e dispositivos em uma pequena maleta.
— O que você realmente espera encontrar lá? — ela perguntou.
— Prova.
— De quê?
— De que a morte da sua mãe não foi um acidente isolado.
Ela sentiu o impacto da palavra “morte” dita sem suavização.
— Você nunca me contou como foi.
Alexander fechou a maleta.
— Porque não importa como foi. Importa quem ordenou.
— E você sabe?
Ele hesitou.
— Tenho suspeitas.
— Nomes?
— Nomes grandes demais para serem acusados sem algo concreto.
Helena caminhou até ele.
— Então vamos buscar esse algo concreto.
Alexander segurou o queixo dela levemente, obrigando-a a erguer o olhar.
— Você não precisa carregar isso.
— Já carrego desde o dia em que ela morreu.
A intensidade entre eles cresceu. Não era apenas atração era algo mais profundo, mais perigoso: alinhamento.
O celular de Alexander vibrou novamente.
Ele atendeu.
— Sim.
Silênciodo outro lado.
O rosto dele endureceu.
— Onde?
Outra pausa.
— Não percam.
Ele desligou devagar.
— O que foi? — Helena perguntou.
— Encontraram o mesmo homem do parque.
— E?
— Ele não estava sozinho desta vez.
O ar pareceu rarear.
— O que isso significa?
Alexander se aproximou dela, os olhos fixos.
— Significa que a propriedade rural deixou de ser um segredo.
Helena sentiu o coração acelerar.
— Então estão esperando por nós.
— Sim.
— E mesmo assim vamos?
Alexander passou a mão pelo rosto, exalando tensão contida.
— Agora não é mais uma questão de escolha.
Helena deu um passo mais perto.
— Eu não vou fugir.
Ele a observou como se estivesse avaliando algo muito além do momento.
— Você é mais parecida com ela do que imagina.
— Minha mãe?
Ele assentiu.
— E isso me assusta mais do que qualquer ameaça externa.
O silêncio entre eles foi interrompido por um estrondo seco vindo do lado de fora da casa.
Ambos se viraram ao mesmo tempo.
Um dos seguranças surgiu correndo pelo corredor.
— Senhor Wolfe, temos movimento no portão principal.
Alexander já estava em ação.
— Leve Ethan para o quarto seguro — ordenou a Helena.
— Não — ela respondeu firme. — Eu fico com você.
Ele a encarou por um segundo que pareceu durar uma eternidade.
Outro estrondo ecoou, desta vez mais próximo.
As luzes externas piscaram.
Alexander segurou a mão dela com força.
— O jogo mudou.
E, pela primeira vez, Helena percebeu que não estavam apenas sendo observados.
Estavam sendo cercados.