Pré-visualização gratuita Capítulo 1
Helena Carter apertou o casaco contra o corpo ao descer do táxi em frente ao prédio de fachada imponente no Upper East Side. O frio de novembro cortava a pele, mas não era isso que a fazia estremecer. Era a sensação incômoda de que, a partir daquele momento, nada voltaria a ser simples.
O edifício era antigo, elegante demais para alguém como ela. Portas de vidro, porteiro engravatado, silêncio caro. Tudo ali gritava poder.
— Senhorita Carter? — perguntou o porteiro, analisando-a rapidamente.
Ela assentiu.
— O senhor Wolfe a aguarda.
O nome pesou em seu peito.
Alexander Wolfe.
Helena havia pesquisado tudo o que pôde antes de aceitar a entrevista. Empresário influente. Viúvo. Reservado. Rumores sobre negócios obscuros, processos abafados e uma reputação que fazia as pessoas evitarem pronunciar seu nome em voz alta.
Ainda assim, ela precisava daquele emprego.
O elevador subiu rápido demais, como se quisesse empurrá-la para o destino sem dar chance de arrependimento. Quando as portas se abriram, ela foi recebida por um corredor amplo, iluminado por luz baixa e fria. Aquele andar inteiro parecia vazio… exceto pela porta ao fundo e tocou a campainha. Uma senhora de cabelos brancos atendeu e sem falar nada apenas indicou o caminho para Helena.
Helena respirou fundo antes de bater na porta.
— Entre.
A voz masculina atravessou a madeira com firmeza. Sem emoção. Sem convite real.
Ela obedeceu.
O escritório era enorme. Janelas de vidro do chão ao teto revelavam a cidade viva lá embaixo. Alexander Wolfe estava de pé, de costas, observando Nova Iorque como se fosse dono dela.
Ele se virou lentamente.
Alto. Ombros largos. Terno escuro impecável. O rosto era duro, marcado por linhas de cansaço e controle. Os olhos, frios, atentos, pousaram nela como se estivessem avaliando algo que pudesse quebrar.
Helena sentiu o impacto imediato.
— Helena Carter — ele disse, não perguntou. — Vinte e três anos. Formação em pedagogia. Histórico limpo. Recomendações excelentes.
Ela engoliu em seco.
— Sim, senhor.
Alexander caminhou em sua direção. Cada passo era calculado. Dominante. Quando parou à sua frente, manteve uma distância mínima, próxima demais para ser profissional, distante demais para ser íntima.
— Antes de qualquer coisa — ele disse —, preciso que entenda uma regra fundamental desta casa.
Ele colocou um envelope preto sobre a mesa entre eles.
— O que está aqui dentro não é uma sugestão. É um contrato.
Helena olhou para o envelope, sentindo o coração acelerar.
— Meu filho é tudo o que me resta — continuou. — Quem entra nesta casa segue minhas regras. Sem exceções.
— Que regras? — ela perguntou, tentando manter a voz firme.
Os olhos dele se fixaram nos dela.
— Não faça perguntas pessoais.
— Não ultrapasse limites. E principalmente… — a voz dele baixou, carregada de algo perigoso — não se envolva comigo.
O silêncio se instalou pesado.
Helena deveria ter ido embora. Tudo dentro dela gritava alerta. Mas, quando Alexander Wolfe estendeu o contrato, ela o aceitou com mãos levemente trêmulas.
Ao assinar seu nome, sem saber, Helena Carter acabava de selar um acordo que mudaria sua vida e Alexander Wolfe… acabava de cometer o erro mais perigoso de todos.
Helena assinou.
A caneta parecia pesada demais para algo tão simples. Quando terminou, empurrou o contrato de volta para a mesa, sentindo um aperto estranho no peito, como se tivesse acabado de atravessar uma linha invisível.
Alexander observou sua assinatura por alguns segundos antes de recolher os papéis. Não sorriu. Não agradeceu. Apenas guardou o envelope na gaveta da mesa, trancando-a em seguida.
— Você começa hoje — disse ele.
— Hoje? — Helena arregalou levemente os olhos. — Eu achei que...
— Meu filho não gosta de mudanças repentinas — interrompeu, sem elevar a voz. — E eu não gosto de atrasos.
Ela assentiu, sentindo-se pequena diante da presença dominante dele.
Alexander caminhou até a porta do escritório e a abriu.
— Venha.
O corredor agora parecia ainda mais silencioso. Eles caminharam lado a lado, mas Helena tinha a sensação de que ele estava sempre um passo à frente, como se conduzisse tudo, inclusive o ritmo de sua respiração.
Pararam diante de uma porta branca.
— Ethan tem seis anos — Alexander disse. — Inteligente. Observador. Não gosta de estranhos.
— Eu entendo — Helena respondeu com cuidado.
— Não, você não entende — ele corrigiu, virando-se para encará-la. — Meu filho perdeu a mãe cedo demais. Ele não confia facilmente. Nem eu.
Havia algo quebrado naquela última frase.
Alexander abriu a porta.
O quarto era amplo, organizado demais para uma criança. Tons neutros, brinquedos alinhados, uma sensação de controle que refletia perfeitamente o homem ao lado dela.
Ethan estava sentado no chão, montando um quebra-cabeça. Ergueu o olhar ao perceber a presença deles.
— Quem é ela? — perguntou, direto, com olhos atentos demais para alguém tão jovem.
— Sua nova babá — respondeu Alexander. — Helena.
Helena se agachou lentamente, mantendo distância.
— Oi, Ethan. É um prazer te conhecer.
O menino a analisou por alguns segundos longos, como se tentasse decifrá-la. Então voltou ao quebra-cabeça.
— Você vai embora também? — perguntou, sem olhar para ela.
O coração de Helena apertou.
— Não — respondeu com suavidade. — Eu vou ficar.
Alexander observava a cena em silêncio, os braços cruzados, o maxilar rígido. Algo na forma como Helena falava com Ethan, sem forçar, sem prometer demais, chamou sua atenção.
— Helena ficará responsável por você depois da escola — disse ele ao filho. — Se comporte.
— Ele sempre se comporta — Helena disse antes de pensar.
Alexander arqueou uma sobrancelha.
— Você aprenderá rápido — murmurou.
Quando saíram do quarto, ele fechou a porta com cuidado excessivo.
— Seu quarto fica no final do corredor — disse. — Jantar às sete. Não se atrase.
— Certo.
Ela deu alguns passos, mas a voz dele a fez parar.
— Helena.
Ela se virou.
Alexander estava mais sério do que antes. Os olhos escuros carregavam algo que ela não conseguiu definir, alerta, talvez. Ou perigo.
— Leia o contrato novamente — disse ele. — Cada linha.
— Eu vou — respondeu.
— Algumas regras não estão escritas — completou. — E essas… são as mais importantes.
Helena sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Boa noite, senhor Wolfe.
— Boa noite, Helena.
Quando ela se afastou, Alexander permaneceu parado no corredor, ouvindo o som leve de seus passos desaparecerem.
Ele sabia.
Desde o instante em que ela entrou em seu escritório. Contratá-la havia sido um risco.
Desejá-la… seria imperdoável.