Capítulo 2

1485 Palavras
De pé diante da janela do escritório, ele observava as luzes de Manhattan como fazia todas as noites, buscando controle onde o mundo insistia em ser caótico. Mas, pela primeira vez em anos, algo fugia completamente de suas mãos. Helena Carter. Ela estava ali havia poucas horas, e mesmo assim sua presença já se infiltrava nos espaços mais protegidos da casa. No silêncio. No ar. Em sua mente. Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo. Aquilo era um erro. Alexander havia criado regras para sobreviver. Limites claros, emoções trancadas, pessoas mantidas à distância segura. Depois da morte da esposa, aprendera que sentimentos eram fraquezas exploráveis. E Helena… ela não parecia entender isso. Quando a vira se ajoelhar diante de Ethan, falar com calma, sem pena exagerada, algo desconfortável havia se instalado em seu peito. Seu filho não reagia assim a ninguém. Alexander apertou os dedos contra o vidro da janela. — Controle — murmurou para si mesmo. Horas depois, ao descer para o jantar, encontrou Helena na cozinha. Ela mexia algo no fogão com cuidado, o cabelo preso de forma simples, mangas dobradas. Não havia tentativa de impressionar. E isso o irritou mais do que deveria. — Não era sua função cozinhar — disse ele, seco. Helena se virou, surpresa contida no olhar. — Ethan disse que estava com fome antes do horário — explicou. — Achei melhor adiantar algo leve. Alexander observou o prato simples sobre a bancada. Nada sofisticado. Apenas comida feita com atenção. — Onde ele está? — No quarto. Lendo. Alexander assentiu, mantendo o rosto impassível. — Não tome decisões sem me consultar — disse. — Certo — ela respondeu. Sem discutir. Sem submissão excessiva. Aquilo o desarmou. O silêncio entre eles se estendeu por alguns segundos longos demais. — Jante — ele ordenou por fim. — Amanhã você começará sua rotina oficialmente. — Sim, senhor Wolfe. Ela passou por ele, mas o leve roçar de seus braços foi suficiente para que Alexander sentisse o corpo reagir de forma automática. Ele se afastou um passo, incomodado consigo mesmo. Quando Helena desapareceu pelo corredor, Alexander permaneceu imóvel. A noite avançou, mas o sono não veio. Ele caminhou pela casa em silêncio até parar diante do quarto de hóspedes. A porta estava entreaberta. A luz fraca escapava pelo vão. Helena estava sentada na cama, lendo o contrato. Cada linha. Como ele havia mandado. Alexander observou da sombra do corredor, sem fazer ruído. Havia algo de errado naquele impulso, ele sabia. Ainda assim, não se afastou. Helena mordeu o lábio ao chegar à última página. Havia uma cláusula discreta, quase escondida. O empregador reserva-se o direito de rescindir o contrato a qualquer momento, caso haja envolvimento emocional que comprometa a estrutura da casa. Ela fechou os olhos por um instante. — Estrutura da casa… — murmurou. Alexander sentiu algo apertar dentro de si. Não era a estrutura da casa que estava em risco. Era a dele. Quando Helena apagou a luz, ele se afastou lentamente, decidido a manter distância. Mas já era tarde. Ele a queria longe… e perigosamente perto. Alexander voltou para o próprio quarto, mas o silêncio não trouxe alívio. Deitado na cama ampla demais, ele manteve os olhos abertos, fixos no teto escuro. O relógio marcava quase duas da manhã quando ouviu passos leves no corredor. Ele reconheceu o ritmo antes mesmo de se levantar. Helena. Ela caminhava devagar, como quem não queria incomodar. Alexander se ergueu, abrindo a porta no exato momento em que ela passou. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou, a voz baixa. Helena se assustou levemente, mas se recompôs rápido. — Desculpe. Eu… Ethan teve um pesadelo. Já voltou a dormir, mas achei que o senhor deveria saber. O “senhor” soou como um lembrete necessário. — Ele costuma acordar assim? — Helena perguntou. — Às vezes — respondeu. — Ele chamou pelo senhor. Algo apertou em seu peito. Alexander passou a mão pelo rosto, cansado. — Obrigado por me avisar. Helena assentiu, pronta para se afastar, mas hesitou. — Senhor Wolfe… — ela começou, insegura. — O contrato. Ele a encarou, atento. — O que tem? — Aquela cláusula sobre envolvimento emocional… — Ela escolheu as palavras com cuidado. — É comum? Alexander sustentou o olhar por alguns segundos antes de responder. — Nada nesta casa é comum. — O corredor parecia estreito demais para a tensão que se instalou entre eles. — Não é uma ameaça — ele continuou. — É uma proteção. — Para quem? — Helena perguntou, sem desafio, apenas curiosidade sincera. Alexander deu um passo à frente. Próximo demais. — Para todos — respondeu. — Principalmente para você. Helena sentiu o coração acelerar, mas manteve-se firme. — Eu só quero fazer meu trabalho bem. — Então mantenha distância — disse ele, a voz mais baixa, carregada de algo perigoso. — De mim. Ela assentiu lentamente. — Boa noite, senhor Wolfe. — Boa noite, Senhorita Helena. Ela se afastou, e Alexander observou até que desaparecesse na curva do corredor. Só então percebeu o quanto estava tenso, como se tivesse acabado de resistir a algo muito maior do que desejo. No quarto de Ethan, Helena sentou-se ao lado da cama por alguns minutos, observando o menino dormir. Pensou no olhar de Alexander, na forma como ele parecia sempre lutar contra si mesmo. — Essa casa está cheia de fantasmas — murmurou para si. No escritório, Alexander abriu uma gaveta trancada e retirou uma fotografia antiga. Uma mulher sorria ao seu lado. Ethan ainda bebê em seus braços. Ele passou o polegar sobre a imagem, o rosto endurecendo. — Eu prometi — sussurrou. — Nunca mais. Mas, pela primeira vez em anos, a promessa parecia frágil. Helena Carter não era apenas uma babá.nEla era uma ameaça ao controle que ele havia construído com tanto sacrifício. E ele sabia exatamente o que fazia com ameaças. Ou pelo menos… achava que sabia. Alexander não dormiu. Sentado na poltrona do escritório, com a cidade pulsando do outro lado do vidro, ele girava lentamente um copo de uísque entre os dedos. Não bebia de verdade, apenas precisava do peso do cristal, de algo concreto para ancorá-lo. A imagem de Helena no corredor não o deixava. A calma contida. O olhar atento demais. A coragem silenciosa de quem não fugia… mas também não se rendia. Aquilo era perigoso. Por volta das quatro da manhã, o sistema de segurança emitiu um alerta baixo. Alexander se endireitou imediatamente. Olhou para o monitor: movimento no andar inferior. Cozinha. Ele se levantou sem fazer ruído. Helena estava ali, descalça, vestindo um moletom simples. Bebia água, distraída, como se a casa não fosse um território minado. Como se não estivesse sob observação constante. — Você anda muito pela casa à noite — ele disse, surgindo da sombra. Helena quase deixou o copo cair. — Desculpe — respondeu rápido. — Eu não consegui dormir. — Por quê? Ela hesitou por um segundo, tempo suficiente para ele perceber. — Lugar novo — disse por fim. Alexander se aproximou, apoiando as mãos na bancada, bloqueando parcialmente sua saída. Não de forma explícita. Nunca explícita. Ele era cuidadoso demais para isso. — Esta casa exige adaptação — disse. — Nem todos conseguem. — Eu consigo — ela respondeu, erguendo o olhar. Coragem. De novo. O silêncio se estendeu. Denso. Carregado. — Você não deveria estar aqui agora — ele disse, a voz mais baixa. — Eu sei. — Então por que está? Helena respirou fundo. — Porque Ethan me pediu para ficar por perto — respondeu. — Ele disse que se sente mais seguro quando sabe que eu estou acordada. O nome do filho caiu entre eles como uma lâmina. Alexander se afastou um passo. — Volte para o seu quarto — ordenou. — Agora. Ela assentiu, passando por ele sem tocar. Mas o perfume discreto ficou no ar, infiltrando-se nos sentidos dele como uma ameaça invisível. Sozinho novamente, Alexander fechou os olhos. Aquilo não era desejo comum. Era algo mais fundo. Mais errado. Antes de voltar ao escritório, ele abriu discretamente o aplicativo de segurança no celular. Digitou o nome dela. Helena Carter. O relatório apareceu completo demais. Atualizado demais. Alexander observou os detalhes com atenção fria. — Você não caiu aqui por acaso — murmurou. No quarto, Helena fechou a porta com cuidado e encostou nela, o coração acelerado. Havia algo naquele homem que a atraía e a alertava ao mesmo tempo. Ela caminhou até a cama, sentou-se e puxou o contrato da gaveta. Havia uma anotação manuscrita no rodapé da última página. Ela não tinha visto antes. Algumas regras existem para serem quebradas. A caligrafia era firme. Masculina. Helena sentiu um arrepio percorrer o corpo. Do outro lado da casa, Alexander Wolfe tomou uma decisão silenciosa. Ele não iria afastá-la. Iria observá-la. Testá-la. Porque, se Helena Carter realmente fosse um erro… Ele precisava saber até onde estava disposto a ir antes de perdê-la.
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