Capítulo 3

1339 Palavras
A casa Wolfe parecia calma demais na manhã seguinte. Helena percebeu isso logo ao acordar. Não havia barulhos além do necessário. Nenhum funcionário cruzando o corredor. Nenhuma música distante. Apenas o silêncio denso, o mesmo silêncio que se instala antes de algo acontecer. Ela se levantou devagar, ainda sentindo no pulso a lembrança do toque de Alexander. Não era dor, era consciência. Como se aquela pele tivesse sido marcada. No café da manhã, Ethan estava mais quieto que o normal. — Dormiu bem? — ela perguntou, servindo o suco. Ele deu de ombros. — Meu pai ficou acordado a noite toda — respondeu. — Eu vi a luz do escritório. Helena sentiu um aperto no estômago. Alexander não apareceu para o café. — Seu pai é um homem muito importante, meu amor. Provavelmente, ele teve trabalho a fazer. O menino não disse nada, apenas concordo e continuou tomando seu café da manhã. Quando Ethan saiu para a escola, dois homens que Helena nunca tinha visto antes surgiram na sala de estar. Ternos escuros. Discretos demais para serem apenas funcionários. — Quem são eles? — Helena perguntou à governanta, em voz baixa. A mulher hesitou antes de responder: — Segurança extra. — Extra por quê? A governanta baixou ainda mais o tom: — Quando o senhor Wolfe fica assim… é porque algo do passado resolveu lembrar que existe. Helena sentiu um arrepio. Mais tarde, ao sair com Ethan para o parque, uma rotina que Alexander havia autorizado, ainda que contrariado, Helena teve a estranha sensação de estar sendo observada. Nada explícito. Nenhuma aproximação, apenas… repetição. O mesmo homem passou duas vezes pela calçada oposta. Um boné baixo, celular no ouvido. Na segunda vez, seus olhos se ergueram rápido demais na direção dela. Helena desviou o olhar, tentando não alarmar Ethan. — Vamos sentar ali — disse, apontando para um banco mais próximo do playground. Enquanto o menino brincava, Helena pegou o celular para checar a hora e foi então que percebeu. Nenhum sinal. Tentou novamente e nada. — Estranho… — murmurou. — O quê? — Ethan perguntou, correndo até ela. — Nada, amor. Vai brincar mais um pouco. Ela levantou o olhar instintivamente… e o homem do boné não estava mais lá. De volta à casa, Alexander a esperava no saguão, sozinho. O terno estava impecável, mas o semblante carregava algo mais pesado que cansaço. — Como foi o passeio? — perguntou. — Normal — ela respondeu. — Mas… havia alguém no parque. Alexander não reagiu de imediato. — Descreva — pediu. Helena fez isso. Cada detalhe. O boné. O celular. O olhar rápido demais. Alexander assentiu lentamente. — Você não deve mais ir ao parque por enquanto. — Senhor... — Não é um pedido. — Está me dizendo que há alguém me seguindo? Ele a encarou com firmeza. — Estou dizendo que você não deve andar sozinha. — Isso é por causa da minha mãe, não é? Alexander respirou fundo, como se escolhesse cada palavra. — Sua mãe viu algo que não deveria. E, mesmo morta, o nome dela ainda desperta interesse. — Interesse de quem? Ele se aproximou um pouco mais. Não invadiu o espaço. Não tocou. — De homens que não gostam de pontas soltas. — O silêncio se espalhou entre eles. — Helena — ele disse, mais baixo agora —, enquanto estiver nesta casa, você está protegida. Mas fora dela… Ele não terminou a frase. Não precisava. *** Naquela noite, Helena demorou a dormir. Pouco depois da meia-noite, ouviu um som leve vindo do jardim. Algo metálico. Breve demais para ser acaso. Ela se levantou devagar e espiou pela janela. Nada. Mas no dia seguinte, ao sair para buscar o jornal, um dos seguranças encontrou algo preso discretamente no portão lateral. Um pequeno envelope pardo, sem remetente. Dentro, apenas uma frase digitada: “Filhas herdam mais do que sobrenomes." Alexander leu o bilhete em silêncio. Depois rasgou o papel com calma excessiva. — Está começando — murmurou. E Helena, observando de longe, entendeu que aquela ameaça não vinha para atacá-la de uma vez. Ela vinha para ficar. Alexander não mencionou o bilhete e esse silêncio foi o que mais inquietou Helena. O jantar aconteceu como de costume. Ethan falava sobre a escola, sobre um colega novo, sobre um desenho que queria terminar. Alexander respondia no tempo exato, atento ao filho, mas distante do resto do mundo. Atento demais. Helena percebeu pequenos detalhes que antes passariam despercebidos: o celular de Alexander nunca longe da mão; os olhares rápidos em direção às câmeras discretas nos cantos da casa; a forma como um dos seguranças permaneceu próximo à porta durante toda a refeição. Nada era ostensivo. Tudo era calculado. Depois de colocar Ethan para dormir, Helena permaneceu alguns minutos sentada ao lado da cama, observando o menino respirar tranquilo. Aquela segurança aparente parecia frágil demais agora, como um vidro fino prestes a trincar. Quando saiu do quarto, encontrou Alexander no corredor. Ele parecia estar esperando. — Não conte nada ao Ethan — disse, sem rodeios. — Eu não faria isso — respondeu. — Ele não deve sentir medo dentro da própria casa. Helena cruzou os braços, segurando a própria inquietação. — E eu? Alexander a encarou por alguns segundos longos demais. — Você precisa saber apenas o necessário — respondeu. — O suficiente para não cometer erros. — Erros como ir ao parque? — Como confiar em estranhos — ele corrigiu. — Ou em você? — ela arriscou. O maxilar dele se contraiu. — Especialmente em mim. A resposta a desarmou mais do que qualquer negativa. Eles caminharam juntos até a sala, onde as luzes estavam reduzidas. Do lado de fora, a cidade pulsava indiferente, como se nada pudesse alcançá-los ali. — A partir de agora — Alexander disse —, sua rotina muda um pouco. — Como? — O motorista a levará e buscará sempre que sair com Ethan. Nada de trajetos improvisados. Nada de paradas não planejadas. — Isso vai chamar atenção. — Segurança quase sempre chama — ele respondeu. — Mas chama menos do que um erro. Helena respirou fundo. — Você vive assim o tempo todo? Alexander não respondeu de imediato. Caminhou até a janela, apoiando uma mão no vidro. — Eu sobrevivo assim — disse por fim. A frase ficou suspensa no ar. Helena observou o reflexo dele no vidro escuro. Pela primeira vez, não viu apenas o homem poderoso e controlador. Viu alguém cansado. Alguém que carregava o peso de decisões antigas e de fantasmas que se recusavam a ir embora. — Minha mãe… — ela começou, hesitante. — Ela sabia que isso poderia acontecer comigo? Alexander fechou os olhos por um instante antes de responder. — Ela fez de tudo para que não acontecesse. — E mesmo assim aconteceu. — Porque ela confiou em mim — ele disse, baixo. — E eu subestimei o quanto o passado odeia ser esquecido. O silêncio que se seguiu foi diferente. Não tenso. Não hostil, apenas pesado. Helena sentiu vontade de perguntar mais. Sobre o que exatamente sua mãe havia visto. Sobre quem eram aquelas pessoas que ainda se moviam nas sombras. Mas algo no olhar de Alexander a fez recuar. *** Naquela noite, antes de se recolher, Helena verificou a tranca da porta do quarto duas vezes. Não por medo de alguém entrar, mas pela estranha sensação de que, a partir daquele momento, não estava mais invisível. Deitada na cama, ouviu passos no corredor. Reconheceu o ritmo. Alexander parou diante de sua porta. Ele não bateu, apenas ficou ali por alguns segundos. Ela conteve a respiração, consciente demais da proximidade. Então os passos se afastaram. No escritório, Alexander abriu um arquivo antigo no computador. Datas, nomes, transações. Um deles piscava em vermelho, um acesso recente a algo que deveria estar enterrado. Ele fechou os punhos. — Você encontrou o rastro errado — murmurou. — E agora vai aprender o custo disso. Alexander Wolfe não temia ameaças. Mas temia perder o controle. E Helena Carter, mesmo sem saber, tornara-se o ponto mais vulnerável de todos.
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