Ela beijou uma menina

1584 Palavras
... Chegara a minha sala, e em frente à porta se encontrava uma multidão rodeando certo alguém que não conseguia enxergar. Aproximei-me com dificuldade, me exprimi nas brechas da parede de pessoas que se formou e no centro delas avistei a Ester (lembrem que Ester, junto do Daniel e eu, fomos os alunos que trocaram de sala). Recentemente descobri que Ester é irmã do Théo, os dois não eram gêmeos, só estavam na mesma serie por que a Ester havia repetido. Ela chorava nos braços de uma menina. Então coloquei minha mochila na classe e fui procurar o Théo, o encontrei próximo à biblioteca conversando com o William, e um garoto que recentemente entrou na turma, o Marcos, ele era até que legal, mas quando começava a falar com o Theo, abrangiam vários assuntos CDF's que não entendia. Me aproximei ofegante e aflito, interrompendo a conversa deles, dizendo: - Théo sua irmã está chorando, vai lá ver! Ele se dirigiu rapidamente ao local onde ela estava. E um pouco distante eu e os outros observávamos eles conversarem, dando privacidade é claro. Quando acabaram, sem nem ao menos alguém perguntar, o Théo diz: - Meu deus! - aflito. - O que foi? – perguntei curioso. - Algum Fdp está espalhando boatos sobre ela! - Quem seria o doido? – indaga William. - Não sei, mas se eu o encontrar, ele vai se arrepender de ter saído da barriga de sua mãe – diz o Théo, agitado. - Mas que tipo de boato? – pergunto, se é boato, então me remete logo ao rei dos boatos, Igor. - Dizendo que ela beijou uma menina – Ele diz. Suas palavras, embora não tenham sido direcionadas a mim, me incomodaram um pouco. Eu só tinha duas hipóteses, só há um grupo e uma pessoa que poderia ser capaz disso. O grupo das najas ou claramente o Igor. O sinal havia batido e a aula, começara. A Ester até então estava tranquila, ela sentava ao lado do Igor nas duas carteiras da frente, nas fileiras do meio, reparei que o Igor fazia sinais com a mão e sibilava alguma coisa para ela, das quais consegui entender um palavra, "admita", de repente os olhos dela começaram a se avermelhar, lagrimas escorreram revelando sua aflição profunda. Queria poder fazer algo, mas eu sou um frouxo e apenas observo impaciente, subitamente um grito ecoa pela sala. - Ah! – Era de Ester que logo range furiosa – Tudo bem! Eu digo o que todos vocês querem ouvir – aquilo chamou toda atenção da sala que porá os seus olhares nela, ela olhava derramando lagrimas para cada um e prossegue – eu já beijei uma menina sim, e dai? - E dai que você é uma sapatão – disse o Igor caçoando. A maioria começou a rir, eu senti o constrangimento dela em mim. Ester olha para todos a sua volta, envergonhada e ao mesmo tempo humilhada, ela franze abrupta e se retira em lagrimas, correndo da sala, e a gargalhada ainda não se esvai. - Ah! O doce aroma do coro de sapato – diz o Igor insistindo na piada, tomando a risada de todos novamente. O Théo vai atrás dela, mas antes ele dispara um olhar fulminante para o Igor, que dá de ombros e diz: - Que foi? Eu só disse a verdade, sua irmã é uma tesoureira – e solta um sorriso típico de sua face, a sala novamente cai na gargalhada, alguns para minha surpresa ou meu medo, não conseguiam parar de gargalhar, eufóricos. Eu não entendia, a professora não fez absolutamente nada, ela ignorou ao fato e retornou a dar lição como se nada tivesse acontecido. É como se a sala inteira não se importasse com a Ester, com o fato de ter sido doloroso ter a feito passar vergonha, ter a humilhado. Isso me faz pensar, ter beijado uma pessoa do mesmo s**o é tão r**m assim? Por que as pessoas descriminam tanto? Todos aqueles pensamentos me fez tremer e lembrei novamente da palavra do pastor, "inferno", uma agonia desceu a minha barriga. Enquanto a sala persistia com aquele assunto, o Leo junto das víboras começou a apontar para mim, eu arqueio minha sobrancelha, eles cochichavam algo. Eu queria ter super audição para ouvir sobre o que, mas o receio e o medo me fizeram acovardar na minha cadeira. Logo ele diz uma palavra que consegui ler pelos seus lábios para o Luiz, "Gay". Aquilo me estremeceu, me paralisou, veio um pensamento a minha mente, se o Luiz pensar que eu já fiquei com outro homem e não quiser mais falar comigo ou a sala inteira me humilhar, comecei a entrar em pânico. Respirando fundo, principiei a focar o meu olhar para o meu caderno, sempre quando fico ansioso ou nervoso, começo a desenhar, pois isso é um meio de extravasar esses sentimentos. E foi isso que fiz. No intervalo, não encontrei a Ester e nem o Theo em nenhum lugar, talvez os pais tenham os buscado. O sinal bateu e a aula de ciências começou, a professora da disciplina se chama Sofia, seus cabelos são grandes e encaracolados, preta de pele clara, e aguardem, pois vou mostrar como essa é a melhor professora. Embora o fato tenha ocorrido nas primeiras aulas, o assunto da Ester ainda permanecia. E a professora Sofia escutara de súbito, e perguntara curiosa: - O que aconteceu aqui? Que tanta conversas paralelas? O que aconteceu exatamente? A Flávia explicou tudo com o tom de deboche e a professora analisou todos e soltou um sorriso irônico. - É fácil vocês jugarem quem é assim, né? Pois nunca se colocaram no lugar dos outros – dispara um olhar para o Igor, o principal causador da discursão – vocês não têm ideia do quanto é perigoso o que vocês fizeram. - Nos só mostramos a verdade – diz o Igor tentando ser perspicaz. Ela da um risada irônica novamente e logo eriça o cenho, fazendo o Igor se estremecer. - Ah meu amigo, que verdade? A verdade que vocês são homofobicos? – ela bate a mão na mesa três vezes e continua – Eu tenho uma filha transexual e para quem não sabe, transexual é um individuo que nasce com o seu s**o biológico, mas se identifica com o outro psicologicamente, enfim, ela é uma guerreira – ela aponta o dedo dando volta para todos – homossexuais sofrem sabiam? Alias LGBT's sofrem! Vocês não sabem a dificuldade de sair nas ruas de mãos dados com alguém e ser tachado, espancado ou até mesmo morto só por ser do jeito que é! Tenham consciência dos seus atos, aquela garota por ter sido humilhada pode tentar o suicídio sabiam? Aquelas palavras chocam a todos, silenciando a sala, a maioria fica com a cabeça baixa, pensativos, e ela continua: - Daqui para frente eu não quero ver mais nenhum ato de homofobia aqui e quero que todos revejam seus pensamentos, respeitar é a principal lei para o convívio adequado com as diversidades, vocês não tem que aceitar nada, só respeitar. É difícil? – ela olha para todos esperando algo, vendo o silêncio que ainda permanecia, repete, porém em um tom mais alto – É difícil? - Não! – A sala diz em uníssono. - Aliás para finalizar, alguém sabe qual é a palavrinha que nos faz ser pessoas melhores? A palavra que nos faz entender o outro, entender a sua situação e se colocar no lugar dele? - ela percorre cada rosto já satisfeita que ninguém soubesse a resposta, no entanto, se espanta que Ketlyn a outra pessoa mais inteligente da sala levanta a mão, e gesticula dizendo - Pois bem, me diga: - É empatia professora Sofia - diz sagaz. - Exatamente! - Assente, quase que orgulhosa e prossegue - empatia é o que gostaria que vocês tivessem também a partir de hoje. Aquelas palavras me inspiraram, algo em mim mudava, admiti para eu mesmo que sentia algo pelo Luiz, mas jurei que levaria esse segredo para o tumulo, ninguém precisava saber... nem ele... Talvez em um outro mundo, quando for mais fácil se declarar a uma pessoa do mesmo s**o eu faça isso, pois nessa realidade tenho medo que isso afete nossa amizade, que ele não olhe mais para mim ou que eu seja humilhado que nem a Ester. E se o Leo descobrir de alguma forma, impossível! Disse para mim mesmo, a menos que ele leia mentes, mas isso não explica o fato de ele ter dito aquela palavra para o Luiz e logo após ter apontando o dedo para mim... as paranoias me consumiam. Quando estava indo embora com o Luiz, não contive minha curiosidade que me corrompia e perguntei para ele. - Nas primeiras aulas, o que o Leo cochichou para você? - Ah isso – ele age indiferente – ele disse sobre achar um jogador de futebol gay. - Entendi - digo aliviado. - Mas, por que a pergunta? - interroga franzindo a sobrancelha. - Não é nada - balbucio nervoso, chacoalhando minhas mãos no ar como sinal de negação. Aquilo me conforta e o nervosismo que sentia se esvai, e logo é tomado por um sentimento agradável, estar perto do Luiz me fazia sentir bem, eu queria estar ao lado dele o tempo todo, eu queria andar segurando sua mão e até... beija-lo... Mas se admitir o meu sentimento para ele pudesse prejudicar tudo como aconteceu com a Ester, então é melhor eu permanecer calado... para sempre...
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