P.O.V Alexa
Respirei mais uma vez tentando acalmar meus pensamentos, eu sabia que não funcionaria mas continuei tentando. Minha gata deitou ao meu lado onde eu estava sentada e ronronou ao ter seu pêlo afagado.
- Ela acha que sou uma vendida, Panqueca, dá para acreditar? - ela miou em resposta. - Eu sei, ainda acha que vou assinar esse contrato! - resmunguei me esticando um pouco para pegá-lo sobre a mesinha.
Eu deveria rasgá-lo, mas eu não podia negar que estava curiosa para saber o que havia nele.
Rolei os olhos sobre os papéis vendo que não passava de um contrato comum, embora na última página tivesse especificações como manter o sigilo, não quebrar o acordo, não se negar a ir em eventos, obedecer as ordens dadas e encarar como um trabalho a curto prazo.
- Quanta palavra bonita e difícil para mascarar a prostituição. - debochei me encostando no sofá sentindo-me cansada demais para continuar a ler.
O dia já havia sido cansativo e difícil demais sem ricos aparecendo na minha vida querendo me comprar como se fosse um brinquedo.
- Nunca que eu aceitaria isso. - murmurei em voz alta recebendo um longo miado como resposta. - Eu sei Panqueca, o dinheiro cairia bem agora, mas não sou nenhuma vendida. - nenhum miado pode ser ouvido. - Vai ficar calada agora? - olhei para baixo encontrando seus olhos felinos me encarando. - Você tem razão, eu poderia encarar como um trabalho qualquer e pagar logo as dívidas mas onde fica minha dignidade? - ela pulou do sofá me ignorando completamente.
Eu tinha que parar de conversar com gatos, logo mais seria uma velha louca com a casa infestada de felinos.
Minha vida já estava problemática demais antes da Taylor aparecer tentando me comprar, era melhor fingir que nada aconteceu.
Decidi tomar um banho e ir dormir, no dia seguinte teria que pegar o turno da manhã e não poderia ficar bocejando sobre os doces alheios.
O pior é que eu teria aceitado se ela quisesse ter um encontro comigo. Mas isso só prova o quão estúpida sou. Nunca que neste mundo a Taylor Evans sairia com alguém como eu.
...
Antes das sete eu estava de pé, não é como se eu tivesse dormido de fato, eu permanecia intrigada com sua proposta, e o fato de ter até as 16:00 da tarde para responder fazia meu estômago revirar em ansiedade.
Algo naquela mulher me deixava extremamente intrigada e confusa.
Usei minhas horas extras antes de ir para a Sweet para pesquisar sobre ela, todos os pecados das celebridades estão no google, e como eu esperava, os da Evans estavam, assim como notícias sobre a morte do seu avô.
- Essa deve ser a herança da qual ela falou. - murmurei antes de pôr mais um biscoito na boca, continuei a ler mais algumas notícias sobre a rivalidade dela com a Mercedes por ser sua maior concorrente, franzi o cenho tentando entender porque ela comprava os doces da inimiga quando estava na cidade.
Suas ações não fazem sentido. Foi o melhor que pude pensar para explicar a mim mesma aquela ação estranha dela.
Olhei algumas fotos suas em eventos ou até mesmo flagrada na rua, sempre séria ou com um sorriso tímido nos lábios, acompanhada na maioria das vezes pelo moreno chamado Justin ou por algum famoso.
Minha conclusão era ainda a mesma sobre ela, a maioria das notícias a resumiam com alguém difícil de lidar, arrogante e até mesmo um "demônio de saia". Meio que fazia sentido ela estar tão desesperada para melhorar sua imagem que propôs um contrato de namoro e casamento a uma desconhecida aleatória.
Alimentada e fardada, segui para meu trabalho, seria difícil manter o foco devido a noite m*l dormida e aos diversos pensamentos que rondavam minha mente mas eu tentaria.
O movimento era considerável, não parar quieta estava me ajudando e o fato de a todo momento Evelyn contar sobre como foi incrível ver a interação das Evans na mansão.
- Papai me contou que parece que o senhor Norman deixou claro que elas só ganhavam a herança se estivessem casadas. - minha colega de trabalho sussurrou quando se inclinou sobre meu corpo brevemente para pegar uma caixa rosa que estava a minha frente, ela despachou rapidamente o cliente e então voltou para perto de mim que ainda tentava fazer as anotações da venda da semana. - Acho que o velho sabia que são duas casos perdidos e inventou isso pra ninguém ficar com o dinheiro. - ela riu do seu próprio comentário e eu tentei não ficar tão incomodada assim com suas palavras. - Victoria nunca vai abandonar a vida de balada e muitos homens, enquanto a Taylor.. - ela fez uma pausa em sua fala, desviei o olhar dos papéis encontrando um sorriso debochado em seus lábios. - fala sério, ninguém vai amar aquela mulher arrogante e insuportável, ainda nem acredito que o Luke namorou com ela, por sorte terminaram logo. - arqueei a sobrancelha sentindo-me verdadeiramente irritada com aquela conversa, eu não era fã delas, mas falar daquele modo era totalmente ofensivo.
- Por sorte, a vida é delas e você não tem nada a ver com isso. - alfinetei vendo seu sorriso vacilar em seus lábios. - Engraçado, estava falando das boas ações delas ontem e agora crítica suas vidas pessoais como se soubesse, de fato, de alguma coisa.
Se afastando para atender um novo cliente, Evelyn não voltou a falar disso, mudou de assunto e prosseguiu como se não tivéssemos nos estranhado há alguns minutos.
As horas passaram rapidamente, logo havia dado meio dia e eu me dirigi aos fundos para fazer uma rápida refeição antes de enfrentar mais algumas horas de trabalho, aproveitei os minutos de descanso e peguei meu celular para checar as mensagens.
Na barra de notificação notei que havia uma mensagem do banco me alertando que eu sofreria juros pelo atraso ao pagamento do empréstimo que fiz.
Eu não estava conseguindo pagar uma dívida, com certeza não conseguiria realizar tal ato se continuassem aumentando o valor.
Observando as mensagens notei uma diferente, e dessa vez não era dívida sendo cobrada.
"Espero que esteja pensando com carinho na proposta."
Era um número desconhecido mas todas as células do meu corpo pareciam saber de quem era aquela mensagem.
Guardei meu celular e engoli a comida de uma vez, ajeitei a roupa com as mãos e voltei uns minutos antes do esperado, Evelyn surgiu já em seus trajes normais, a invejei um pouco por não ter que trabalhar tanto.
- Eu vou visitar meu pai de novo. - e com essas palavras eu entendi que ela quis dizer que iria espionar a vida das Evans. - Logo aquela senhorinha sem nome vem ficar com você no turno da tarde. - e assim que ela completou a frase observamos a senhora que eu não lembrava o nome se aproximar.
- Ouvi vocês falando de mim e achei que era minha hora de entrar em cena. - ela se aproximou devagar com um doce sorriso nos lábios. - E você não sabe meu nome porque eu nunca disse. - ela apertou a bochecha da Evelyn que trocou um olhar confuso comigo.
- Por que a senhora não diz seu nome? - perguntei ajudando-a a passar pelo balcão para ficar atrás dele como eu. - Aposto que é bonito.
- Tudo em mim é lindo minha jovem. - ela riu do que disse me fazendo sorrir, Evelyn revirou os olhos mas permaneceu ali. - Mas eu acredito fielmente que o governo sequestra pessoas e prefiro manter minha identidade secreta.
- Não acho que você seja sequestrável! - Evelyn soltou aquilo como um resmungo, antes que a senhora pudesse responder, Taylor surgiu naquela tarde ensolarada de sobretudo e salto alto, tentei desprender meus olhos mas não consegui realizar tal ato.
- As vezes as aparências enganam. - desfoquei meus olhos da minha provável c******a e olhei a senhora ao meu lado encarando a mulher a sua frente com um grande sorriso.
- Gostaria de ser atendida pela melhor funcionária. - um sorriso timido surgiu em seus lábios acompanhado daquela frase que soou de modo doce. - A senhora poderia me dar um bolinho de chocolate e um red velvet? - ela murmurou as últimas palavras me olhando, senti a presença ao meu lado se afastar mas não consegui desfazer o contato visual para ver se a senhora havia ido mesmo buscar os bolinhos.
- É uma ótima escolha minha filha. - observei a Taylor se afastar um pouco do balcão com um sorriso nos lábios parecendo presunçoso.
- É que eu gosto de coisas doces e vermelhas. - franzi o cenho ao mesmo tempo que senti meu coração errar uma batida, por que parecia que ela não estava falando do doce?
Talvez fosse seu olhar direcionado a mim, ou seu sorriso discreto nos lábios.
- Por que você compra doces Sweet se tem os doces da Love? - Evelyn ousou perguntar, eu queria entender aquilo também, mas o modo como ela girou mecanicamente seu corpo sobre os saltos me fez ter certeza de que ela não responderia aquilo nunca.
- Eu acredito que possa gastar meu dinheiro como bem entendo. - minha amiga engoliu a seco e após alguns instantes parecendo absorver aquilo decidiu ir embora sem se despedir.
Ali estava a mulher arrogante de que todos falavam, ela voltou a sorrir quando a senhora trouxe seus bolinhos em uma caixinha, depositando alguns dólares sobre o balcão ela agradeceu e então me dando um último olhar saiu dali.
- Ela é um bolinho de chocolate meio amargo. - despertei dos meus pensamentos ao ouvir a voz da mulher ao meu lado. - Nem todos gostam, mas ainda sim é um doce.
- Eu vou discordar de você. - me ouvi falando baixinho. - Aquela mulher é um bolinho de limão, nem isso.. - murmurei aborrecida. - é um limão puro, espremido no olho ainda! - a senhora gargalhou segurando-se em meu braço, acabei me permitindo sorrir também.
- As vezes não damos chance aos outros de mostrarem quem realmente são, talvez por medo de descobrir que eles são pessoas bonitas por dentro e isso nos faça amá-los. - me peguei pensando em suas palavras e como se ela soubesse no que eu pensava, assentiu com a cabeça.
- Não sei do que a senhora está falando. - ela arqueou sua sobrancelha quase grisalha e fez um carinho em meu braço.
- Sabe sim. - foi tudo que ela disse antes de ir atender um cliente.
Eu não sabia não.
...
O movimento havia aumentado, faltava alguns minutos para que eu fosse liberada, mas não era esta a razão que me fazia olhar para o grande relógio na parede a minha frente, também faltava alguns minutos para que o meu prazo acabasse.
Eu não podia negar, estava vivendo um dilema, eu precisava do dinheiro, podia ajudar a Taylor no que ela queria, mas eu não sabia ao certo onde estaria me metendo e aquilo poderia ser muito desastroso.
Eu não queria me vender ou passar como uma mulher sem valores morais, apesar dela ter negado que sua intenção não era essa.
A observando sorrir por breves momentos hoje e até mesmo flertar (?) comigo eu pensei que talvez pudéssemos ser amigas e levar o acordo do melhor modo possivel. Uma ajudava a outra. Talvez pudesse ser assim.
15:45.
- Eu consigo ver a fumaça. - a senhora comentou para uma cliente enquanto abanava a mão sobre minha cabeça, sorri constrangida por estar dispersa. - Ela pensa tanto que vai acabar queimando os neurônios. - ouvi a senhora confidenciar a cliente com a mão na boca como se fosse um segredo.
- Pensar demais acaba não resultando em nada, a vida é curta para vivermos de modo limitado e terminar cheia de arrependimentos. - ela sorriu indo embora com suas sacolas.
É impressão minha ou todo mundo está dizendo algo que parece ser exatamente o que preciso ouvir? Será que eu estava falando meus pensamentos em voz alta de novo?
- Você pode ir minha filha, meu menino está vindo me buscar e ele me ajuda a fechar tudo. - a olhei para ter certeza de suas palavras, ela balançou as mãos para que eu fosse embora logo.
- Tudo bem. - murmurei deixando meu avental pendurado na parede junto com o boné cor de rosa. - Cuide-se. - beijei o topo de sua cabeça e sai as pressas.
Eu havia tomado minha decisão, eu acho.
Corri para casa, tomei um banho rápido, prendi parte do cabelo da frente deixando o resto solto, e vestindo uma calça jeans e uma regata preta senti que estava pronta, por fora, pois por dentro eu estava entrando em pânico.
Deixei um pouco de ração para Panqueca e apanhando os papéis sobre a mesinha de centro fui em direção a mansão.
Não era muito longe e eu podia caminhar, usaria aquele tempo para me acalmar.
Já passava das 16:40 quando parei em frente a mansão, ela parecia um pouco movimentada demais para o meu gosto. A passos vacilantes andei pelo caminho principal, as enormes portas estavam abertas e assim que uma das funcionárias me viu ela fechou seu semblante.
Será que é por causa do atraso?
- As meninas Evans não estão fazendo caridade hoje, volte outro dia. - ela falou me deixando totalmente constrangida, abri a boca para negar mas não consegui dizer nada o que só me deixou ainda mais m*l.
- Mary, com quem você está.. - ouvi a voz de uma mulher e logo ela surgiu ali na entrada, pelos seus traços deduzi ser a irmã mais velha da Taylor. - Oh querida, desculpe os modos da Mary, mas realmente não estamos recebendo ninguém hoje. - pigareei tentando fazer a vergonha me abandonar.
- Eu não vim pedir ajuda.. - murmurei escondendo sutilmente o contrato em minhas costas, alternando o olhar entre elas tentei buscar em minha mente algo para dizer a seguir mas logo vi minha salvação.
Taylor analisou primeiro a situação e então em questão de segundos pois um enorme sorriso nos lábios que eu reconheci não ser verdadeiro, permaneci ali esperando uma atitude sua.
- Saiam de cima da minha namorada! - tentei não engasgar com suas palavras, as duas mulheres a minha frente abriram espaço para que Taylor passasse por elas até chegar a mim mas eu sentia seus olhares queimando sobre mim. - Sorria. - ela sussurrou assim que me abraçou, não consegui abraçá-la mas sorri da melhor maneira possivel.
Se afastando de mim, mas não tanto ela arqueou a sobrancelha como se questionasse seus olhares que tinham uma mistura de espanto, confusão e incredulidade.
- Namorada? - sua irmã questionou me avaliando dos pés a cabeça.
Todos ali deveriam ter recebido aulas de como ser gentis.
- Eu não falei grego. - Taylor respondeu parecendo irritada.
Senti um calor onde sua mão tocou as minhas costas me direcionando para longe delas, sequer tive tempo de dizer algo e fui enfiada em um lugar que reconheci ser um escritório, também eu não saberia o que dizer mesmo.
- Está atrasada. - ela quebrou o silêncio enquanto caminhava para encostar-se na mesa.
- Você não sabe se eu ia aceitar a proposta e me apresentou como sua namorada. - falei indignada com sua atitude, ela cruzou os braços permanecendo em silêncio. - Eu achei que poderia, mas não sirvo para isso.. - murmurei em um tom mais baixo soltando um suspiro logo em seguida. - Viu como elas me olharam!?
- Isso não é relevante. - ela se desencostou da mesa e caminhou até mim mantendo seus olhos fixos nos meus.
Prendi a respiração ao senti-la tão próxima, sua mão tocou meu braço suavemente e deslizou por ele me causando arrepios involuntários, seus dedos chegaram ao meu pulso e então ela puxou da minha mão e se afastou, pisquei rapidamente disfarçando minha reação a sua atitude.
- Não está assinado. - ela murmurou parecendo ligeiramente desapontada. - Podemos fazer assim, vamos lá fora assistir ao funeral do meu avô, não precisa fazer ou falar nada, apenas esteja parada ao meu lado.. - ela falava de maneira calma me dando tempo de absorver suas palavras. - Se perceber que não pode fazer isso, é só ir embora, eu arrumo outra pessoa.. - não gostei muito de suas últimas palavras mas permaneci em silêncio. - tudo bem assim?
- Tudo bem. - murmurei após alguns instantes, ela permaneceu me olhando como se soubesse que eu ainda tinha algo a falar. - Não estou com roupas apropriadas para um funeral.
- Não seja boba, está até mesmo de preto. - ela apontou para minha blusa mas eu continuei achando que não era uma boa idéia aparecer na frente das pessoas trajando aquilo, ela suspirou e virando de costas para mim retirou seu sobretudo e logo em seguida sua blusa.
Tentei não olhar muito me sentindo desconfortável com aquela situação, ela se virou exibindo uma regata preta parecida com a minha mas eu sabia que a sua com certeza era mil vezes mais cara.
- Podemos ir agora? - ela questionou abrindo os braços para exibir sua vestimenta similar a minha, conti um sorriso e concordei com a cabeça.
Não haviam muitas pessoas ali, a maioria reconheci ser funcionários, talvez fosse só para os mais próximos e ali estava eu como uma intrusa.
Taylor não chorou ou esboçou nenhuma reação, o que era estranho visto que até mesmo eu que não o conhecia estava triste com sua partida, o clima era de tristeza e como se os céus soubessem, começou a chover.
Ninguém se abalou de seu lugar em torno do local onde dois rapazes cobriam o caixão de madeira com terra enquanto um homem em trajes de padre recitava algumas palavras sobre a vida do falecido.
A chuva não era forte, mas trouxe consigo o frio, e eu me arrependi de estar trajando uma blusa fina, olhei de soslaio para a mulher ao meu lado para saber se ela estava com frio também e foi neste momento que reparei mesmo com seu rosto molhado pela chuva uma lágrima abandonar seus olhos e trilhar um caminho incerto por sua bochecha.
Lembrei-me do funeral da minha mãe onde me recusei a chorar tentando ser forte mas tudo que eu queria era que alguém me deixasse chorar em seu colo.
Eu conseguia ver isso naquela mulher ao meu lado, e por um instante pensei que talvez ninguém tenha lhe dado uma verdadeira chance de mostrar que ela é uma pessoa bonita por dentro.
Ousei a abraçar lateralmente e mesmo recebendo um olhar que parecia de repreensão mantive meu braço ao redor do seu corpo e então me inclinando em direção a sua orelha eu pude dizer o que meu coração acreditava ser o melhor.
- Eu aceito.