Pré-visualização gratuita Capítulo1: O Plano B
Isadora narrando
Eu estava em frente ao computador desde as quatro horas da manhã, em uma fila virtual que não andava nem por um decreto assinado pelo Papa ou pelo poder da oração. Meu coração batia na garganta, e eu fixava a tela como se pudesse mover aquele bonequinho da barra de progresso apenas com a força do pensamento.
Esperei até as onze da manhã. Nada. A barra era uma linha imóvel de deboche. Até que, às 11:01, a notificação que fez meu sangue gelar e meu mundo balançar apareceu em letras garrafais e cruéis:
ESGOTADO.
Li e reli três vezes, esperando que fosse um erro de sistema, um delírio de sono, qualquer coisa. Mas era real. Eu tinha perdido um dia de aula na faculdade, dormi abraçada ao notebook, não tomei banho, não tomei café e ignorei todas as necessidades básicas humanas por uma fila que sequer andou. No final, o prêmio foi um "não" digital bem grande na minha cara.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto e eu fiquei ali, paralisada, uma estátua de desespero com o coração partido. Passei os três dias seguintes em um luto oficial. Meus planos de ver o retorno dos meninos tinham ido direto para o ralo junto com a minha dignidade.
No quarto dia, a loucura bateu na porta. Eu não podia aceitar. Esperei anos por esse retorno; eu até compus uma música no dia 21 de março para processar tudo o que sentia! Se eu não consegui o ingresso aqui, eu teria que dar um jeito. Um jeito bem caro.
Respirei fundo, tomei o banho que estava devendo ao mundo e desci para a cozinha. Era hora de apelar para o Plano B: Meus pais.
- Bom dia, família... - disse, tentando projetar uma aura de "filha perfeita e responsável".
Meu pai tirou os olhos do jornal e me encarou por cima dos óculos. Minha mãe estava servindo o café, mas parou no meio do caminho ao ver minha cara de quem tinha sido atropelada por um caminhão de sentimentos.
- Bom dia, Isa. Resolveu sair da caverna? - meu pai perguntou, com um tom de voz suspeito. - Deixe-me adivinhar: isso ainda é por causa daquela história dos ingressos que não conseguiu comprar?
- Pai, não foi só "não conseguir". Foi uma injustiça do universo! - Sentei-me à mesa, tentando manter a voz firme. - Mas eu tive uma ideia. Um plano infalível. Já que eu não vou vê-los aqui... eu quero ir para a Coreia.
Minha mãe soltou uma gargalhada tão alta que quase derrubou o bule.
- Coreia, Isadora? Você não consegue ir nem até a padaria sem se perder no GPS, e agora quer atravessar o mundo para ir atrás de show? - Ela ria da minha "maluquice", limpando as lágrimas no canto dos olhos.
- Mãe, é sério! Eu economizo, eu vendo minhas coisas, mas eu preciso de uma ajuda com a passagem. É o sonho da minha vida!
Meu pai suspirou, abandonando o jornal. Ele se levantou, veio até mim e colocou a mão no meu ombro com um sorriso carinhoso, mas que eu já sabia o que significava.
- Filha, eu entendo sua paixão. De verdade. Mas a Coreia não é logo ali em Madureira. É um gasto que não podemos ter agora, e você tem a faculdade. O "não" não é porque eu não te amo, é porque é impossível agora. Sinto muito, querida.
A derrota foi amarga. Subi, peguei minha mochila e fui para a faculdade com uma cara de quem estava indo para o próprio velório. Quando cheguei no pátio, Alice e Léo já estavam me esperando no banco de sempre.
- Gente, nem falem comigo - anunciei, jogando a mochila no chão e me afundando no banco.
- Pela sua cara, o plano de convencer seus pais de que Seul é logo ali no bairro vizinho falhou, né? - Léo comentou, cruzando os braços com um olhar de "eu avisei".
- Falhou miseravelmente - suspirei. - Eu sinto que o destino está tentando me dizer que eu nunca vou ver o Jungkook e o Jimin de perto.
- Ah, para com isso, Isa! - Alice disse, me dando um empurrão de leve no ombro. - O destino é imprevisível. Às vezes ele só gosta de um pouco de drama antes de dar o que a gente quer.
Eu m*l sabia que a Alice tinha razão. E o destino estava prestes a ser muito, muito dramático.