Capítulo 20

1132 Palavras
Rick Dowson Minha mente gritava, negando cada palavra, mas meu coração... meu coração sabia que era verdade. A floresta ao nosso redor parecia mais densa, sufocante. Cada sombra entre as árvores me fazia prender a respiração, como se algo estivesse ali, observando. O vento carregava um cheiro metálico, promessas de algo inevitável. — Então, o que fazemos agora? — minha voz saiu mais grave do que eu esperava, carregada de um peso que não consegui esconder. Ayla apertou os punhos ao meu lado. O brilho do símbolo em sua pele vibrava como se respondesse à sua determinação, uma promessa silenciosa de algo que nem eu entendia completamente. — Sobrevivemos — ela disse, a voz firme, mas com um toque de algo mais profundo, algo que me fez querer segurá-la e dizer que tudo ficaria bem. Mas não ficaria. — Mas não por muito tempo, Rick. As sombras estão vindo. E quando nos encontrarem, você vai ter que escolher. Engoli em seco, o instinto gritando dentro de mim. Ela achava que ainda tínhamos tempo, mas eu sabia que não. Eu podia sentir. Algo rastejava pela floresta, uma presença oculta, faminta. O ar estava carregado de eletricidade, como se a própria natureza estivesse se curvando diante do que estava por vir. Escolher. A palavra se repetia na minha mente, me torturando. Sobreviver, lutar, fugir... nada disso parecia uma opção. Mas a verdadeira escolha... essa era o que me paralisava. Porque, no fundo, eu sabia que não era apenas uma decisão tática. Era algo maior. Algo que mudaria tudo. Por toda a minha vida, me disseram que eu era forte, que meu destino era liderar, proteger e garantir a sobrevivência da nossa espécie. Que eu era especial. E, de certa forma, eu acreditei nisso. A força, a velocidade, o instinto tudo fazia parte de mim como uma segunda pele. Era quem eu era. Mas agora, diante dela, diante do símbolo que ardia entre nós como uma maldição viva, tudo parecia frágil. Eu olhei para minhas mãos. Mãos que já haviam derrubado inimigos, arrancado vidas, mas também protegiam aqueles que eu amava. Como algo tão humano podia conter o que Ayla dizia? Uma maldição. Um poder selado por séculos. Ayla se virou para mim, os olhos brilhando sob a luz fraca da lua. Seu rosto estava tenso, mas havia algo mais ali algo que me prendia, que me fazia querer esquecer de tudo o que vinha pela frente. Ela deu um passo à frente, o calor de seu corpo alcançando o meu. — Rick... — sua voz era quase um sussurro. — Você não está sozinho nisso. Eu sei que parece um peso impossível de carregar, mas... nós vamos carregar juntos. Meu coração acelerou, e por um momento, a escuridão ao nosso redor não parecia tão avassaladora. Porque, ali, entre o destino e a guerra, entre as sombras e o caos, havia ela. E talvez, apenas talvez, isso fosse o suficiente para me manter de pé. Se aquilo era verdade, então tudo o que eu acreditava era mentira. Eu não era um líder. Eu era uma bomba-relógio, uma arma esperando para ser usada. Pior ainda, eu não tinha controle sobre isso. E era isso que me atormentava. Minha vida foi construída sobre controle. Controle dos meus instintos, da minha força, das minhas emoções. Eu sempre pensei que, enquanto estivesse no comando de mim mesmo, ninguém poderia me derrotar. Mas como lutar contra algo que estava dentro de mim? Algo que eu nem sabia que existia? Olhei para Ayla. Ela parecia tão segura de si, tão determinada. O símbolo em sua mão pulsava como se compartilhasse da sua força de vontade. Ela sabia mais do que estava dizendo, mas eu não podia culpá-la. Havia medo nos olhos dela. Não de mim, mas do que eu podia me tornar. E então havia a menina. Ela era apenas uma criança, mas falava como se tivesse vivido séculos. Cada palavra dela carregava uma certeza assustadora. Eu não era apenas o portador de uma maldição. Eu era uma peça em um jogo muito maior do que qualquer coisa que eu pudesse entender. Meus pensamentos voltaram para minha família, para o que significava ser parte da minha linhagem. Quantos antes de mim carregaram esse peso sem saber? Quantos morreram sem entender o que realmente eram? E, acima de tudo, por que eu? Por que tinha que ser eu? Eu queria lutar contra isso. Queria gritar para o vazio que eu não aceitava esse destino. Mas no fundo, sabia que isso não importava. Era verdade. Tudo o que Ayla dizia, tudo o que a menina insinuava. O peso na minha alma não era só a culpa ou a dúvida. Era o poder. Estava lá, como uma fera dormindo, esperando o momento certo para acordar. Eu me virei para a floresta, tentando afastar os pensamentos. Mas eles me perseguiam, implacáveis. O vento cortava minha pele como lâminas invisíveis, e a escuridão entre as árvores parecia se fechar ao meu redor, como se quisesse me engolir. Ayla se aproximou, hesitante. Seus olhos encontraram os meus, e por um momento, eu vi algo que me fez vacilar. Não era apenas medo. Era dor. Uma dor profunda, que ia além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar. — Você não está sozinho nisso — ela disse, sua voz suave, mas firme. — Eu sei o que é sentir que o destino já foi escrito, que não temos escolha. Mas sempre temos. Sempre. Eu queria acreditar nela. Queria desesperadamente acreditar que ainda existia uma chance de mudar as coisas. Mas então olhei para minhas mãos. Elas tremiam. Não de medo, mas da energia latente que pulsava sob minha pele. A fera dentro de mim estava acordando. — E se eu não conseguir? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Ayla se aproximou ainda mais, sua presença era um farol em meio à escuridão que ameaçava me consumir. Sua mão tocou a minha, e um calor inesperado percorreu meu corpo. — Então eu estarei aqui para lembrá-lo de quem você realmente é. Eu fechei os olhos, absorvendo suas palavras. Por um momento, apenas um momento, eu permiti que a esperança tomasse conta de mim. Mas a dúvida ainda estava lá, como uma sombra que se recusava a partir. Será que eu conseguiria sobreviver a isso? Não fisicamente, mas mentalmente? Será que era forte o suficiente para resistir às sombras quando elas chegassem? Ou será que eu acabaria me rendendo ao poder dentro de mim? A ideia de perder o controle era pior do que qualquer morte que eu pudesse imaginar. Eu me orgulhava da minha força, mas se isso era verdade, então minha força era uma mentira. Uma fachada para algo terrível e incontrolável. Mas talvez, apenas talvez, Ayla estivesse certa. Talvez ainda houvesse uma chance de lutar.
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