Draco
O dia amanheceu nublado, como se o céu refletisse o turbilhão de pensamentos que me atormentava. As nuvens cinzentas pairavam sobre a Rocinha, lançando sombras que se arrastavam pelas vielas estreitas e íngremes. Havia algo no ar, um peso silencioso, que me fazia sentir que as coisas estavam prestes a mudar. E tudo girava em torno dela... Camille.
Desde o nosso primeiro encontro, ela havia mexido com minha cabeça de um jeito que eu não esperava. Fascínio, desconfiança, desejo e uma crescente sensação de que, por mais que eu tentasse controlar a situação, havia algo além do meu alcance. Camille não era uma mulher comum. Cada palavra, cada movimento calculado, cada sorriso contido parecia ser parte de um plano maior, um quebra-cabeça que eu ainda não tinha todas as peças.
E eu não gostava de não ter controle.
Naquele momento, sentado no meu escritório, encarei o mapa da Rocinha na parede à minha frente. Cada ponto, cada linha representava os territórios que controlamos, o poder que construímos com suor, sangue e medo. Mas agora, parecia que tudo isso estava sendo sutilmente ameaçado por uma única pessoa.
Damon estava certo em desconfiar dela. Ele sempre foi bom em farejar problemas antes que eles explodissem. Mas eu sabia que Dante também estava envolvido, de uma forma que complicava ainda mais as coisas. Seu desejo por Camille era palpável, e o que começara como uma atração inocente estava se transformando em algo que poderia nos desestabilizar. Camille estava jogando, e meus irmãos estavam sendo peças nesse jogo.
Eu precisava de respostas.
Levantei-me, caminhando até a janela, observando o caos controlado lá embaixo. Sabia que, naquele momento, Camille estava fazendo suas rondas pela favela, sorrindo, conversando com as pessoas, se infiltrando mais e mais no nosso território. Seu jeito sedutor e perigoso já havia começado a criar raízes. E se eu não tomasse cuidado, ela poderia derrubar tudo o que construímos.
Puxei meu celular do bolso e disquei um número que só usava em situações específicas. Uma voz do outro lado atendeu quase que imediatamente.
— Preciso que investigue alguém — disse, sem rodeios. — Camille. Quero saber de onde ela veio, o que ela fez, com quem andou. Não deixe pedra sobre pedra.
O silêncio do outro lado indicava que a mensagem havia sido compreendida. Eu sabia que essa investigação seria delicada, pois Camille não era uma mulher qualquer. Ela era esperta o suficiente para não deixar rastros fáceis de seguir. Mas todos têm um passado. E eu estava determinado a descobrir o dela.
Desliguei o telefone e respirei fundo, sentindo uma mistura de alívio e inquietação. A investigação começaria em breve, mas até lá, eu teria que jogar o jogo com cuidado. Precisava manter Camille por perto, deixá-la acreditar que estava em vantagem. Se ela fosse tão perigosa quanto eu suspeitava, qualquer movimento brusco poderia desencadear algo que não estaríamos prontos para enfrentar.
O som de passos rápidos pelo corredor me tirou dos pensamentos. Damon entrou no escritório, seu olhar sério e determinado.
— Falei com alguns dos nossos — ele começou, sem preâmbulos. — As pessoas estão comentando sobre ela. Camille está se aproximando de figuras importantes aqui na favela, estabelecendo conexões. Isso pode ser um problema.
Assenti, confirmando o que eu já temia. Ela não estava apenas passeando pela Rocinha. Ela estava tecendo uma teia. E cada fio que ela puxava parecia nos envolver um pouco mais.
— Já tomei providências — respondi, cruzando os braços e encarando Damon. — Mandei investigar o passado dela. Não podemos agir sem informações concretas, mas também não podemos deixar que ela continue sem supervisão.
Damon assentiu, mas sua expressão continuava carregada de preocupação.
— E Dante? — ele perguntou, sua voz baixa e grave.
Sabia o que ele queria dizer. Dante não estava pensando com a cabeça certa. Camille havia enfeitiçado meu irmão de uma maneira que o tornava vulnerável. E no nosso mundo, vulnerabilidade era sinônimo de morte.
— Vou falar com ele — respondi, sem desviar o olhar. — Mas Dante sempre foi impulsivo. Precisamos mantê-lo sob controle até sabermos o que Camille realmente quer.
Damon concordou, mas ainda havia algo em sua postura que me incomodava. Ele estava mais inquieto do que o normal, e isso me alertava. Se até ele estava se sentindo ameaçado, então o perigo era real.
— Mantenha os homens de olho nela — disse, encerrando a conversa. — Qualquer movimento estranho, me avise.
Ele saiu do escritório, e eu voltei a me sentar, tentando organizar meus pensamentos. A situação estava se complicando rápido demais. Não era apenas Camille. Era o efeito dela em cada um de nós. Ela era uma variável imprevisível, e no nosso mundo, isso era inaceitável.
O tempo parecia arrastar-se enquanto aguardava as primeiras informações sobre a investigação. O dia passou, e cada segundo que se esvaía fazia a tensão em meus ombros aumentar. A cada batida na porta, a cada mensagem recebida, minha mente estava focada nela, no que eu ainda não sabia, no que ela estava escondendo. Sabia que não podia agir até ter todas as peças em mãos, mas também sabia que esse jogo não podia se arrastar por muito mais tempo.
Então, ao anoitecer, o telefone vibrou sobre a mesa. Uma mensagem curta, concisa. “Precisamos falar.”
Eu sabia o que isso significava. As primeiras pistas haviam surgido.
Sai do escritório rapidamente e me encontrei com o contato em um local discreto. Ele me entregou um envelope, o tipo de coisa antiquada, mas necessária para garantir que nada pudesse ser rastreado digitalmente. Voltei para o escritório e, em silêncio, abri o envelope.
As fotos mostravam Camille em lugares diferentes, cidades diversas. Seus olhos sempre alertas, seu sorriso sempre controlado. Mas algo nas imagens chamou minha atenção. Ela estava com homens diferentes em cada uma delas, homens que pareciam importantes, poderosos. E então, conforme folheava os papéis, o padrão começou a surgir: Camille se aproximava de homens influentes, criava laços, e quando eles caíam, ela desaparecia. Como um fantasma. Sem deixar rastros.
Havia algo mais profundo ali, algo que eu ainda não conseguia entender completamente. Mas uma coisa era clara: Camille não era apenas uma mulher buscando abrigo na Rocinha. Ela era uma predadora.
Fechei o envelope e me recostei na cadeira, o peso da descoberta se assentando em meus ombros. Ela estava jogando com a gente. E pior, estava nos manipulando de uma forma que nem eu, nem Damon, havíamos percebido completamente até agora.
Mas, ao mesmo tempo, algo em mim não conseguia se desligar dela. Mesmo sabendo que ela era uma ameaça, havia algo irresistível em Camille. Talvez fosse sua inteligência afiada, seu controle impecável, ou talvez fosse o fato de que, de todas as pessoas que já enfrentei, ela parecia ser a única capaz de jogar o mesmo jogo que eu.
Sabia que precisava ser cuidadoso. Se Camille soubesse que eu estava atrás de seu passado, poderia reagir de maneiras imprevisíveis. E o que ela já havia conseguido até agora — tanto com Dante quanto com os outros — indicava que ela não era uma adversária comum.
O próximo passo precisava ser calculado com precisão. Eu precisava confrontá-la, mas não diretamente. Precisava pressioná-la, encontrar suas fraquezas, antes que ela fizesse o mesmo comigo.
Enquanto a noite caía sobre a Rocinha, uma coisa ficou clara: Camille estava tecendo uma rede, e eu estava bem no centro dela. Mas, no final das contas, a questão não era quem estava preso. Era quem controlava os fios.
E eu, Draco, não deixaria que ninguém tomasse o controle de mim.
A investigação sobre Camille estava apenas começando, e eu estava determinado a descobrir todos os seus segredos. Porque, no fundo, sabia que a única maneira de derrotá-la... era entendê-la completamente.
O jogo havia mudado, mas eu estava preparado.