Capítulo 08 : Segredos no Ar

1145 Palavras
Draco O ar parecia mais pesado naquela manhã. A Rocinha, como sempre, estava viva com sons e movimentos, mas havia algo mais, uma tensão silenciosa que eu conseguia sentir nas entrelinhas. Camille. Desde que ela chegou, as coisas começaram a mudar, e, embora eu tentasse manter o controle, não podia negar que aquela mulher estava mexendo com tudo. Comigo, com meus irmãos, com o equilíbrio que mantínhamos no morro. Era sutil, quase imperceptível, mas eu conhecia bem os sinais. A ordem estava sendo testada, e eu sabia que precisaria agir em breve. Estava no meu escritório, o mesmo lugar onde tive meu primeiro encontro com Camille, quando Damon entrou. Ele nunca era de bater na porta, apenas entrava com sua postura firme, o olhar frio e calculado de sempre. Eu sabia que ele também estava desconfiado dela, e esperava que isso viesse à tona a qualquer momento. — Ela não é confiável — foram as primeiras palavras que saíram de sua boca. Levantei o olhar dos papéis à minha frente, encontrando o olhar intenso de Damon. Ele tinha esse jeito direto, sem rodeios, que sempre apreciei. Mas, naquele momento, eu precisava que ele se acalmasse. — Já estávamos esperando que ela não fosse uma pessoa comum, Damon — respondi, mantendo meu tom controlado. — Não é como se estivéssemos cegos para isso. Damon se aproximou, suas mãos firmes se apoiando na mesa enquanto ele me encarava. — Eu sei que você está intrigado por ela, Draco, mas temos que pensar no que ela realmente quer. Ela não apareceu aqui por acaso. Ninguém se infiltra na Rocinha sem um motivo. Eu sabia que ele estava certo. Damon sempre teve um faro apurado para ameaças, e era bom nisso. Mas, ao mesmo tempo, havia algo em Camille que eu ainda não conseguia definir, algo que me prendia a ela. Mesmo sabendo que ela era um risco, não podia afastá-la... ainda não. — Eu estou ciente — falei, tentando aliviar o tom pesado na sala. — Mas o que você sugere? Expulsá-la? Colocá-la para fora da Rocinha? Damon estreitou os olhos, claramente não satisfeito com minha resposta. — Não estou dizendo para expulsá-la agora, mas precisamos mantê-la sob controle. Saber onde ela vai, com quem fala. Precisamos de informações antes que ela comece a fazer mais estragos. Eu concordei silenciosamente. Camille era uma peça complicada nesse jogo, e eu sabia que Damon estava certo. Porém, ao mesmo tempo, havia um lado meu que não queria entregar completamente essa desconfiança. Eu queria descobrir mais. Queria entender o que a fazia agir daquele jeito, e por que estava tão atraído por ela, mesmo sabendo dos riscos. — Vamos monitorá-la — disse finalmente, quebrando o silêncio que pairava entre nós. — Quero saber cada movimento dela. E vou falar com Dante também. Ele tem andado estranho ultimamente. Damon balançou a cabeça, satisfeito, mas ainda preocupado. Sabia que, para ele, esse controle não era apenas uma questão de segurança, mas também de manter o poder nas nossas mãos. — E mantenha seus olhos abertos também, Draco. Não deixe que ela te distraia. Suas palavras pairaram no ar por alguns segundos antes de ele sair do escritório, deixando-me sozinho com meus pensamentos. Ele estava certo. Não podia me deixar levar pela atração que sentia por Camille, mas, ao mesmo tempo, não conseguia simplesmente ignorar o que estava acontecendo entre nós. Minha atenção foi interrompida por Dante, que entrou sem cerimônia pouco depois. Diferente de Damon, Dante sempre tinha uma energia quase incontrolável, como se estivesse prestes a explodir a qualquer momento. Seus olhos brilhavam com algo que eu já conhecia bem: desejo. Mas dessa vez, não era por violência. — Você vai se encontrar com ela de novo? — ele perguntou direto, com um tom que misturava curiosidade e algo mais profundo. Olhei para ele, sabendo exatamente a quem ele se referia. — Camille? — perguntei, testando o terreno. Ele assentiu, seus lábios se curvando em um sorriso enviesado. — Ela é interessante. Diferente das outras. Eu a vi outro dia, na favela. As pessoas estão começando a notar ela, sabe? Mas eu... eu noto de uma maneira diferente. Eu sabia o que Dante estava dizendo, e isso não me agradava. Dante era impulsivo, agia com o calor do momento, e o que ele sentia por Camille era claro como o dia. Ele estava atraído por ela, mas não de forma calculada como eu. Para ele, era puro desejo, e isso o tornava perigoso. Se ele se deixasse levar, poderíamos perder o controle da situação ainda mais rápido. — Ela é uma peça no jogo, Dante — falei, tentando manter o foco. — Não se esqueça disso. Não é alguém com quem você pode brincar. Ele riu, um som áspero e desafiador. — E quem disse que estou brincando? — Dante deu um passo à frente, como se me desafiasse. — Eu sei que você também está de olho nela. Todo mundo percebe. Mas quem vai conseguir primeiro, hein? A tensão entre nós cresceu. Apesar de sermos irmãos, sempre houve essa competição latente, especialmente quando se tratava de algo que ambos queríamos. E, no momento, era claro que Camille estava no centro disso. — Não comece com isso, Dante — avisei, minha voz mais fria agora. — Não temos tempo para joguinhos internos. Se você se deixar levar por ela, será você quem perderá o controle. Dante bufou, cruzando os braços. — Controle... sempre o maldito controle. Você e Damon acham que podem controlar tudo, mas algumas coisas são inevitáveis, Draco. E eu... — ele fez uma pausa, deixando o silêncio se prolongar — eu não vou ficar de fora dessa. Ele saiu da sala com a mesma intensidade com que entrou, me deixando sozinho novamente. Sabia que teria problemas com Dante se ele não mantivesse a cabeça no lugar. Camille estava criando um abismo entre nós, e isso não podia continuar. Se ele perdesse o foco, a estabilidade que construímos ao longo dos anos estaria em risco. Ajeitei-me na cadeira, respirando fundo. A situação estava ficando complicada. Damon desconfiava dela, Dante a desejava, e eu... eu me encontrava preso em algum lugar entre a razão e o fascínio. Camille não era uma mulher comum, e sua presença estava começando a abalar os alicerces do que construímos. Precisava agir. Precisava descobrir suas verdadeiras intenções antes que fosse tarde demais. Porque, no fundo, algo me dizia que Camille estava jogando com todos nós, e talvez estivéssemos prestes a perder mais do que imaginávamos. Levantei-me e caminhei até a janela, observando a favela se estender até onde os olhos podiam alcançar. O caos organizado da Rocinha era minha fortaleza, e eu nunca deixaria que algo — ou alguém — a desestabilizasse. Camille podia ser um mistério, mas eu estava determinado a desvendá-lo. Só não sabia ainda se esse mistério seria minha salvação... ou minha ruína.
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