Capítulo 07 : Primeiros Encontros

1196 Palavras
Camille O som das vozes ecoava nas vielas da Rocinha, mas ao atravessar o portão que levava à casa de Draco, tudo parecia se silenciar. Era como se o ar ficasse mais denso, carregado de expectativa. Sabia que esse momento chegaria, o primeiro encontro cara a cara com o homem que controlava toda a favela. Aquele que já me observava de longe, mas nunca se aproximara até agora. Havia uma linha tênue entre fascínio e perigo quando se tratava de Draco, e eu estava prestes a caminhar sobre ela. Passei a mão pelo cabelo, ajeitando-o sem pressa, embora pudesse sentir o ritmo do meu coração acelerar um pouco. Não era medo, não. Era algo mais... algo que eu ainda não sabia nomear. Eu estava prestes a encarar o homem que todos ali temiam e respeitavam, mas, no fundo, o que eu sentia era curiosidade. O que o diferenciava de tantos outros que eu já havia encontrado pelo caminho? O corredor que levava ao escritório de Draco era longo e m*l iluminado, com paredes de cimento nu, marcas de um lugar construído com pressa e necessidade, não com luxo. Os homens que guardavam a porta não disseram uma palavra ao me ver passar. Eles sabiam quem eu era, ou, pelo menos, sabiam o suficiente para me deixar entrar sem questionar. Uma vantagem que eu havia conquistado silenciosamente. Quando entrei, a primeira coisa que notei foi o silêncio pesado da sala. Draco estava de costas para mim, observando a vista da janela que dava para a favela abaixo. Sua postura era imponente, mesmo sem que ele dissesse uma única palavra. A energia que emanava dele preenchia o espaço. Ele sabia que eu estava ali, mas demorou a se virar, como se quisesse prolongar o momento. Eu caminhei até o centro da sala, mantendo meus passos leves, mas firmes. Não havia cadeiras à vista, apenas a mesa de madeira escura que parecia ser mais uma barreira do que um objeto de trabalho. Finalmente, ele se virou. Seus olhos encontraram os meus, e por um segundo o tempo pareceu parar. Draco era exatamente como eu imaginava: imponente, com uma intensidade que parecia queimar sob a superfície calma de seus olhos escuros. Mas havia algo mais. Uma força silenciosa, um controle que não era apenas físico, mas mental. Ele me avaliava, e eu fazia o mesmo. Havia uma tensão palpável no ar, algo que não era apenas desconfiança, mas uma espécie de eletricidade. — Camille — ele disse, finalmente, sua voz baixa, mas com um peso que preenchia a sala. — Draco — eu respondi, mantendo meu tom neutro, sem dar espaço para que ele percebesse o que eu realmente sentia naquele momento. Sabíamos que aquele encontro não era apenas casual. Estávamos jogando um jogo perigoso, um jogo de poder e controle. Ele deu alguns passos em minha direção, seu olhar nunca deixando o meu. Cada movimento seu era deliberado, como se estivesse medindo a distância, testando os limites. Não era um homem que agia por impulso, isso eu já sabia. Draco pensava antes de cada ação, e isso o tornava ainda mais perigoso. — Você chegou e, de repente, muita coisa começou a mudar — ele disse, parando a poucos metros de mim, sua expressão impassível. — Pessoas falam sobre você. Meus homens notam a sua presença. Isso é o que você queria? — Eu só estou aqui — respondi, dando de ombros. — As pessoas gostam de falar. Ele sorriu, mas era um sorriso frio, calculado. Um sorriso que não alcançava os olhos. — Você não é só uma mulher comum na Rocinha, Camille. Eu sei disso. O que me intriga é... por que você está aqui? Eu sabia que essa pergunta viria, mas também sabia que a resposta precisava ser perfeita. Não podia me mostrar frágil, mas também não podia ser excessivamente confiante. Esse era o equilíbrio que eu sempre buscava em situações como essa. — Eu vim para viver minha vida, como qualquer outra pessoa. Mas acho que a Rocinha tem um jeito de fazer com que as coisas aconteçam, de te puxar para dentro de algo maior do que você planejou — respondi, mantendo meu olhar fixo no dele. Não era uma mentira, mas também não era a verdade completa. Draco era astuto demais para ser enganado facilmente, então eu oferecia apenas o suficiente para que ele se sentisse intrigado. Ele me observou por mais alguns segundos, o silêncio voltando a dominar o ambiente. Eu podia sentir a tensão crescendo, como se estivéssemos testando as águas um do outro. Draco não era o tipo de homem que confiava facilmente, e eu sabia que ele provavelmente tinha seus próprios planos para mim, assim como eu tinha os meus para ele. — Você joga bem — ele disse, finalmente quebrando o silêncio, com um leve sorriso que sugeria que ele apreciava o desafio. — Mas eu jogo melhor. Minha resposta veio na forma de um sorriso igualmente controlado. — Veremos. Havia uma dinâmica entre nós que era difícil de descrever. Algo que oscilava entre fascínio e ameaça. Eu sabia que Draco estava atraído por mim, mas também sabia que, para ele, isso não era suficiente para baixar a guarda. Ele era um homem de poder, e poder era tudo o que importava para ele. Eu, por outro lado, tinha meus próprios motivos, e conquistar a confiança de Draco era um passo essencial no meu plano. Mas também havia algo mais. Algo que eu não tinha previsto — uma atração que ia além do poder. Ele deu mais um passo em minha direção, reduzindo ainda mais a distância entre nós. Eu mantive minha postura firme, não recuando. Nossos olhares estavam travados em uma espécie de batalha silenciosa. — Você sabe — ele começou, sua voz agora um pouco mais baixa, quase íntima — que está entrando em um território perigoso. — Eu sempre soube jogar com perigo, Draco. E você? — perguntei, desafiando-o. Ele riu, mas dessa vez o riso tinha uma leveza inesperada. — Eu sou o perigo, Camille. Por um momento, o peso da tensão se dissolveu, apenas para ser substituído por algo ainda mais intenso. Aquele era o jogo entre nós: confiança e desconfiança, fascínio e perigo. Sabíamos que, por trás de cada palavra, havia algo não dito, algo oculto. E isso só tornava a nossa interação mais viciante. Draco então se afastou ligeiramente, mas seu olhar ainda me segurava no lugar. — Eu vou descobrir o que você realmente quer — ele disse, voltando ao tom de comando. — Talvez — eu disse, sorrindo de leve — você descubra mais do que esperava. Saí da sala logo depois, sem olhar para trás. Sentia seu olhar queimando minhas costas, e a tensão entre nós parecia ter deixado marcas invisíveis no ar. Draco era perigoso, mas também irresistível. Ambos sabíamos que aquele era apenas o começo de algo maior. Enquanto caminhava de volta pelas vielas da Rocinha, com o som distante da comunidade voltando a preencher o espaço ao meu redor, uma coisa ficou clara: eu estava jogando um jogo de risco, mas Draco também. E no fundo, parte de mim ansiava pelo que estava por vir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR