Camille
A Rocinha era um organismo vivo, pulsando dia e noite, com suas regras próprias, seus ritmos e segredos. Ao chegar, senti a energia do lugar. Era uma mistura de caos e ordem, onde cada olhar contava uma história não contada, onde cada viela escondia mistérios e alianças perigosas. Mas para mim, aquilo era o cenário perfeito. O caos não me assustava. Eu já estava acostumada a operar nas sombras, e era exatamente o que eu pretendia fazer aqui.
Minha primeira semana foi discreta. Mantive um perfil baixo, uma observadora invisível, mas com os ouvidos sempre atentos e os olhos focados nos movimentos certos. Sabia que não podia me apressar. Aquele era um jogo perigoso, e qualquer passo em falso poderia me custar caro. O segredo era entrar sem ser notada, como uma brisa leve, e aos poucos, me tornar indispensável.
Minha estratégia começou nas conversas pequenas, nos momentos casuais. As mulheres da Rocinha eram uma fonte valiosa de informações, e muitas delas se abriam comigo como se eu fosse uma delas, confiando em meu sorriso e nas perguntas que faziam parecer que eu estava apenas interessada nas suas vidas. Eu ouvia sobre os maridos, os namorados, os irmãos — e, principalmente, sobre os três homens que governavam a favela: Draco, Damon e Dante.
Draco era o mais reservado dos três. Seu nome surgia sempre com respeito, às vezes com medo, mas sempre com um ar de mistério. Ele parecia ser o mais difícil de acessar diretamente, o que só aumentava minha curiosidade. Damon era frio, calculista, movido pelos negócios. E Dante, impulsivo e violento, era o mais fácil de provocar, o que tornava suas reações previsíveis. Mas era Draco que ocupava meus pensamentos. Ele tinha uma presença invisível, mas que permeava todos os cantos daquele lugar.
Eu sabia que ele estava me observando, desde o primeiro momento em que pisei na favela. Não de forma explícita, mas através de seus olhos espalhados pela comunidade. Os irmãos Draco não mantinham o poder ali à toa. Eles tinham olhos e ouvidos em todo lugar, e sabiam de tudo o que acontecia. Ainda assim, eu fui paciente. Não estava interessada em confrontá-lo diretamente — pelo menos, não ainda.
Minha rede de contatos começou a crescer aos poucos, como raízes se espalhando pelo solo. Não era sobre fazer alianças grandes e óbvias, mas sobre criar pequenos laços que, juntos, formariam uma teia indetectável. Conheci Tonho, um vendedor de frutas que sabia exatamente quem devia a quem, e Rosana, uma costureira que remendava roupas para os soldados do morro e conhecia detalhes da vida deles que nem eles mesmos imaginavam. Através deles, eu tinha um vislumbre do funcionamento interno daquele lugar. Pequenas informações que, de início, poderiam parecer irrelevantes, mas que, para mim, eram ouro.
No entanto, o ponto crucial de meu plano eram os soldados. Esses homens, que protegiam os interesses dos irmãos, eram, em sua maioria, movidos por lealdade cega ou por medo. Eu, porém, sabia que o medo e a lealdade podem ser manipulados. Foi com eles que comecei a construir os laços mais importantes, com pequenas conversas ao final de um longo dia, uma bebida oferecida no momento certo, um elogio bem colocado. Não precisava de muito para que eles começassem a confiar em mim, a me ver como uma aliada, alguém de fora, mas que entendia o mundo deles.
O segredo para me infiltrar na vida da Rocinha era fazer com que cada movimento meu parecesse natural, sem qualquer indício de que havia uma agenda por trás. Cada passo que eu dava era meticulosamente calculado, mas eu me certificava de que tudo parecesse obra do acaso. Aos poucos, comecei a saber de coisas que não eram faladas em público. Aquelas conversas sussurradas, segredos que se trocavam nas esquinas escuras, eram a chave para o poder ali. E eu estava aprendendo mais a cada dia.
Havia uma tensão constante no ar. As coisas estavam em equilíbrio, mas era um equilíbrio frágil. A Rocinha funcionava como uma máquina bem lubrificada, mas eu sabia que qualquer pequeno desvio poderia fazer tudo desmoronar. E eu estava me posicionando exatamente onde poderia causar esse desvio quando fosse necessário.
Damon, o mais racional dos três irmãos, me intrigava. Ele parecia me ignorar, mas eu percebia que isso era uma fachada. Damon era o tipo de homem que nunca demonstrava interesse direto, mas estava sempre calculando os riscos. E eu, de alguma forma, fazia parte da equação dele. Quando nossos olhares se cruzavam, eu via uma curiosidade oculta. Ele sabia que eu não era apenas mais uma na favela, mas ainda não tinha decidido se eu representava uma ameaça ou uma oportunidade.
Com Dante, as coisas eram mais simples. Ele era fácil de ler. Seu temperamento explosivo o tornava previsível, o que facilitava meu trabalho. Em uma de suas festas, consegui me aproximar dele o suficiente para ganhar sua confiança. Ele era bruto, mas gostava de ser admirado, e eu usei isso a meu favor. Ele queria me impressionar, e eu o deixei acreditar que estava conseguindo. Mas, ao mesmo tempo, sempre me certificava de manter uma distância segura. Dante era o tipo de homem que podia se tornar perigoso quando acreditava que alguém estava tentando enganá-lo.
Aos poucos, minha rede começou a se expandir. As mulheres, os soldados, os comerciantes — todos tinham algo a dizer, algo a oferecer. Eu ouvia, absorvia, e usava tudo a meu favor. Nunca deixava transparecer minhas intenções, sempre me apresentando como uma mulher curiosa, mas inofensiva. E isso funcionava, pois, na mente deles, o verdadeiro poder sempre estava nas mãos dos homens.
Mas eu sabia que, para realmente consolidar minha posição, precisaria chegar até Draco. Ele era o coração do poder na Rocinha, o homem que todos respeitavam, temiam e seguiam. Ele não se deixava enganar facilmente, e isso tornava o jogo ainda mais emocionante para mim. Eu sabia que, quando o momento chegasse, teria que estar preparada para qualquer coisa.
Draco me fascinava de uma forma que eu não podia ignorar. Não era apenas seu poder ou sua posição, mas a maneira como ele parecia estar sempre dois passos à frente. Eu sabia que ele estava me observando, me estudando. E, em algum nível, ele sabia que eu estava jogando um jogo perigoso. Mas o que ele ainda não sabia era que, nesse jogo, eu nunca perdia.
Cada dia na Rocinha era uma nova jogada no tabuleiro, uma peça movida silenciosamente, sem chamar atenção. Eu continuava a tecer minha teia, lenta e metodicamente, esperando o momento certo para fazer meu movimento final. Sabia que não podia me apressar. Draco, Damon e Dante eram inimigos formidáveis, mas eu estava preparada. O tempo estava ao meu favor.
A Rocinha era um jogo perigoso, mas eu sempre gostei de jogar. E enquanto os irmãos continuavam a manter seu domínio, eu estava cada vez mais perto de conseguir o que realmente queria.
E, quando tudo se desenrolasse, eu estaria pronta para enfrentar qualquer consequência. Afinal, o verdadeiro poder está em saber quando agir.