Draco
Eu sempre planejei minhas ações com precisão cirúrgica. Não havia espaço para erros ou surpresas. No mundo em que eu e meus irmãos vivíamos, cada passo precisava ser calculado, cada movimento cuidadosamente coreografado. Eu confiava em Damon e Dante para executarem nossas operações sem falhas, mas desta vez... as coisas saíram do controle.
A noite estava pesada, com um céu sem estrelas e um silêncio opressor que parecia prenunciar o caos que se aproximava. Estávamos prontos para a investida contra os homens de Souza. Depois das instruções detalhadas, era para ser um ataque simples. Cirúrgico, rápido e eficiente, como eu sempre exigi. Damon e Dante tinham suas ordens claras. Damon, com sua mente fria e calculista, lideraria os homens, coordenando o ataque com precisão. Dante, por outro lado, com sua energia impetuosa e violentamente apaixonada pela guerra, seria a força bruta, liderando o avanço e esmagando qualquer resistência.
Eu observei tudo à distância, mantendo uma visão ampla do campo. Era o meu papel: orquestrar de longe, com olhos sempre atentos ao movimento de cada peça. Não deixo minha presença ser sentida até que seja absolutamente necessário. Isso me dá a vantagem do controle. Mas naquela noite, enquanto as coisas começavam a desandar, senti o controle escorregar de minhas mãos.
Os primeiros sons de tiros ecoaram no ar, abafados, quase distantes. O ataque começou conforme planejado, com nossos homens avançando pelas ruelas e becos, eliminando os vigias e avançando sobre o território de Souza. Por um breve momento, pensei que tínhamos a situação sob controle. Damon estava liderando como sempre fazia, com calma e precisão. Mas então, algo mudou.
O som dos tiros aumentou, se intensificou, e de repente ouvi explosões. Não fazia parte do plano. Fui tomado por uma sensação desconfortável de que algo estava muito errado. Apertei o rádio em minha mão e chamei por Damon.
— Damon, o que está acontecendo? — Minha voz saiu fria e direta, como sempre, mas havia uma tensão por trás dela.
O silêncio que seguiu foi longo demais. Então, finalmente, a voz de Damon surgiu, um pouco mais rápida do que o normal.
— Draco, estamos enfrentando mais resistência do que prevíamos. Eles sabiam que estávamos vindo. Há mais homens do que estimávamos.
Meu coração acelerou. Alguém havia nos traído? Ou Souza estava mais preparado do que imaginávamos? Olhei para o horizonte da favela, as luzes piscando nas encostas, e senti a pressão aumentar. Era minha responsabilidade manter tudo sob controle, e agora isso estava escapando pelas minhas mãos.
— Retraia os homens. — Minha voz foi firme. A última coisa que queria era uma carnificina sem sentido. O objetivo era enfraquecer Souza, não perder meus homens em um ataque que agora parecia incerto.
— Não é tão simples — a voz de Damon estava tensa. — Dante está lá na linha de frente, ele se recusou a recuar.
Eu sabia. Dante. Sempre impulsivo, sempre sedento por sangue. Ele via cada batalha como uma questão de honra, de força bruta. Se estava no calor do combate, ele não voltaria sem deixar sua marca. Eu apertei o rádio com força, lutando contra a frustração.
— Merda! — Eu resmunguei para mim mesmo antes de chamar Dante.
— Dante, você me ouve? — Esperei. Nada. — Dante! Recuar agora! Isso é uma ordem! — Eu praticamente gritei, sentindo a impaciência tomar conta de mim.
Finalmente, a voz de Dante surgiu no rádio, entrecortada por tiros e gritos ao fundo.
— Draco, não vou recuar! Esses filhos da p**a estão correndo agora. Vamos acabar com eles!
Era típico de Dante. Sempre queria mais. Sempre empurrava os limites. Mas isso... isso era diferente. Eu podia ouvir o caos em torno dele, e uma parte de mim sabia que ele não estava vendo o quadro maior. Ele estava perdido no frenesi da batalha.
Eu precisava tomar uma decisão. Se ordenasse um recuo forçado, isso poderia causar ainda mais mortes. Meus homens confiavam em Damon para guiar suas ações, e se Dante continuasse avançando, haveria uma quebra nas nossas fileiras. E isso poderia ser um desastre.
Eu respirei fundo, sentindo a raiva borbulhando por baixo da superfície. Esse ataque deveria ter sido simples. Agora, estávamos lidando com uma batalha que se tornava mais imprevisível a cada segundo. Maldita hora para as coisas darem errado. Olhei novamente para a favela abaixo de mim, o brilho das luzes parecendo zombar do meu controle que se esvaía.
— Damon, mantenha a formação. Tente impedir Dante de avançar mais. Eu vou resolver isso. — Fechei o rádio e me virei para meus homens que estavam comigo na posição de controle. — Preparem os veículos. Vamos entrar nisso.
Eu odiava ter que descer ao campo de batalha. Meu lugar era no topo, onde eu poderia ver e controlar tudo. Mas, dessa vez, sabia que se não interviesse, a situação iria se deteriorar. Meus homens já estavam perdendo a vantagem, e Dante estava se afundando na própria sede de violência.
Quando chegamos ao local, a cena era de caos. Corpos no chão, sangue manchando o concreto, e o som incessante de tiros ecoando pelos becos estreitos. O cheiro de pólvora e sangue era nauseante, mas eu ignorei isso, focando na tarefa à minha frente.
Encontrei Damon primeiro, abrigado atrás de um carro destruído, coordenando os homens como podia. Seus olhos encontraram os meus, e ele veio até mim, o rosto coberto de suor.
— Está fora de controle, Draco. — Ele disse com franqueza. — Temos que tirar Dante daqui.
Eu apenas assenti. Sabia que Damon tinha razão. Ele sempre era o mais racional de nós três, e sua análise estava correta. Dante estava afundando cada vez mais, e se não fizéssemos algo, o preço seria alto.
Segui Damon até onde Dante estava, no meio do tiroteio, empunhando uma arma como se estivesse em uma maldita guerra pessoal. Ele era uma força da natureza, selvagem e indomável, mas naquele momento, precisava ser contido.
— Dante! — Eu gritei por cima do som dos tiros, me aproximando com cautela.
Ele se virou, os olhos cheios de adrenalina, um sorriso maníaco no rosto.
— Draco, você viu? Estamos vencendo! — Ele gritou, como se estivesse imerso em uma excitação cega.
Eu agarrei seu braço com força, fazendo-o parar. — Não estamos vencendo nada. Eles sabiam que estávamos vindo. Isso foi uma armadilha. Se continuar, todos os nossos homens vão morrer!
Dante olhou para mim, os olhos ainda brilhando com aquela loucura, mas algo na minha voz pareceu alcançá-lo. Ele hesitou por um momento, e naquele instante, soube que ele finalmente estava ouvindo.
— Recuar. Agora. — Ordenei, minha voz dura como aço.
Ele respirou fundo, ainda com a respiração acelerada, mas assentiu lentamente. — Certo. Vamos tirar todo mundo daqui.
O recuo foi caótico, mas conseguimos retirar a maioria dos homens. Perdi alguns naquela noite, e a sensação de fracasso me consumiu. Aquela deveria ter sido uma vitória fácil, mas Souza estava mais preparado do que eu esperava. Alguém havia nos traído, ou ele simplesmente foi mais esperto. De qualquer forma, isso não ficaria assim.
De volta à base, o silêncio reinou. Damon estava furioso, embora não o mostrasse abertamente. E Dante... bem, Dante estava exausto, mas ainda com aquela faísca de violência em seus olhos.
— Isso não acabou — eu murmurei, mais para mim mesmo do que para eles. — Souza vai pagar por isso.
Essa batalha estava perdida, mas a guerra ainda era nossa para vencer.