– Não tenho nada para falar com você. - Marion voltou a cruzar a perna. Impaciente em estar sozinha em uma sala com Murilo. – Não tem delegada aqui?
– Tem. - Ele confirmou. – Você foi agredida pelo vermelhão?
– Que vermelhão? - Ela o perguntou. – Deixa para lá. Eu fui assaltada. Caí de m*l jeito e o bonitão ali, me ajudou. Estamos em São Paulo, Murilo, qual é?
– Entrou no carro de um estranho?
– Entrei, quando ele se identificou. - Ela revirou os olhos. – p***a, Murilo, eu sou irmã da Capitão Nascimento Alcântara. Filha da Sargento...
– Eu sei. - Ele a cortou. – Sua moto tem seguro?
– Claro que tem. Já até mesmo acionei o seguro dela. - Marion tirou o celular do bolso. – Olha, lamento mesmo ter que entrar aqui, eu preciso ir, já tem o meu depoimento, já ligou na portaria da clínica e tem aí as imagens de câmeras. Só, me deixa ir.
– Não posso. - Ele a encarou.
Não tinha necessidade de mantê-la ali, já tinha o depoimento, os documentos e até o número do celular dela, o seguro fora de fato acionado. Mas... Ele precisava ter Marion, nem que fosse aqueles raros momentos.
– Porque não posso ir? Vai me prender?
– Vou te levar até o hospital, é paciente de lá.
Marion se levantou, ignorando a dor repentina no peito e mancou até a porta, pouco importava se os documentos da moto, que por sorte estavam com ela, ficaram nas mãos de Murilo. Vê-lo era horrível, humilhante de mais. Atravessou a delegacia mancando, desceu os poucos degraus perguntando porque diabos todas as delegacias em que entrou, tinha degraus.
– Marion!
Ela ignorou os chamados, atravessou o pátio e sacou o celular, outra coisa que permaneceu com ela, por estar por dentro da roupa justa.
– Hei! - Murilo a alcançou e fechou os dedos em torno do braço dela. – Eu posso te levar.
– Não. - Ela desviou os olhos para além dele.
– Porque não? É o mínimo que eu lhe dou. Uma carona, se não quer ir até o hospital, te levo em sua casa, seja lá onde for.
– Como consegue? Conviver com uma monstruosidade dessas e fingir que nada aconteceu entre nós. - Ela sentiu os dedos de Murilo afrouxar, permaneceu em pé. – Se eu soubesse que viria para cá e te encontraria, teria ficado em Londres, ou ido diretamente para Marília.
– Eu te enojo tanto assim?
– Não tem noção do quanto, ainda mais depois de permanecer com aquela... E esfregar na cara de todos ao nosso redor, enquanto eu sofria, dia após dia. - Ela o respondeu. – Ver você me lembra da pior decisão da minha vida. Eu deveria ter guardado minha virgindade para alguém que realmente me amasse, que fosse por desejo e não por dó. Por favor, Murilo, não me faça sofrer mais. Eu não quero mais olhar para essa sua cara de p*u. Não quero mais me lembrar de vê-lo esfregar o p*u na soldado.
Murilo a soltou, deu um passo para trás e pela primeira vez em anos sentiu-se acuado. O coração martelava forte no peito, a culpa tardia fora uma faca afiada no peito dele. Não conseguiu nem mesmo tentar mais uma carona, deu as costas a Marion e voltou o caminho aturdido com tantas verdades. De repente percebeu o quão i****a estava sendo. Permaneceu transando com Marina, nem a deixava ir, e não fazia questão de poupar tanto Marion quanto qualquer outro amigo deles, postando fotos ao lado de Marina, em uma alegria estranha. Ganhou a distância de Marcelo e Lillian, até a própria mãe rejeitou um pedido dele de trazê-la para São Paulo. Ana preferiu viver sozinha, a ter que conviver com ele e a amante.
"Você é como seu pai, m*l agradecido." - Ouviu a voz da mãe na mente.
– Cadê ela? - Muniz entrou na sala dele. – Doutor, estamos esperando.
– Adia a reunião para daqui uma hora. Pega a viatura e leva Marion para casa. - Murilo cobriu o rosto com as mãos. – Por favor.
– Claro. Com licença.
Minutos depois e Muniz ainda não havia voltado. Murilo imaginou a ex-esposa encolhida na viatura, ou em uma conversa com Muniz. Não tinha muito mais o que se fazer.
(***)
– Pode estacionar aqui. - Marion respirou fundo. – Obrigada, outra vez.
– Estou a disposição. - Muniz sorriu de lado. – Agora que sei que mora aqui, posso fazer algumas rondas.
Muniz era um moreno bonito, parrudo, com uma f***a no queixo, sobrancelhas bem desenhadas tão negras quanto o cabelo liso. Ele ostentava um bigode, e por incrível que parecesse, o deixava sexy, mais ainda que as tatuagens pelo braço e pescoço.
– Não posso ficar dando sopa aqui...
– Policial à paisana. - Marion concluiu com um sorriso.
– É uma f**a.
– Quer entrar? - Marion apontou para fora.
– Preciso mesmo ir... mas gostaria de voltar..
– Me dá seu celular. - Marion pediu.
Imediatamente tinha um celular nas mãos, sob o olhar atento de Caio Muniz digitou o número, gravou como Mari, devolveu o aparelho e desceu do carro.
Assim que Muniz se foi, Marion passou para dentro, entrou no elevador, contando agoniada os andares que faltavam, ao entrar, mancou para o quarto, abriu a gaveta com dedos atrapalhados e tirou a bombinha de lá. O alívio foi imediato, enquanto o ar voltava a circular pelos pulmões, Marion deitou na cama, encarava o teto quando as lágrimas vieram. Se sentia horrível por ter jogado todas aquelas mágoas para fora.
Se fosse Lillian, teria dito mais, teria batido, ameaçado ou até dado um tiro no pé dele. Mas ela era Marion, a menina que sonhava em ter uma família para si, e que havia sido destruída de todas as formas possíveis.
– Eu só queria que você desaparecesse. - Ela sussurrou para si mesma. – Você e a sua amante nojenta e safada.
Com Murilo não era muito diferente, ele soube esconder as emoções enquanto repassava a tudo, notou que Muniz não tirava os olhos do celular, ignorou e repassou todas as fotos tiradas, as conversas gravadas. Tinha a foto da comunidade tirada de um drone, pontuou alguns lugares, armou estratégias e depois de duas horas viu em cada um de sua equipe a determinação. Ninguém sabia se voltaria vivo de mais uma missão. Muito menos ele.
– Quando vamos?
– Muniz vai interceptar a conversa, vamos ficar de tocaia.
– Certo. - Ele ouviu de algumas vozes.
Aos poucos os colegas de farda foram saindo, Murilo cravou os olhos no safado, e esperou pelo momento certo.
– Muniz.
– Senhor. - O tenente guardou o celular.
– Como ela estava?
– Assustada. - Ele o respondeu. – Triste, sei lá. Eu ficaria, aquela moto foi um presente bem caro de algum familiar dela.
Murilo pensou em sondar, endureceu o olhar enquanto Muniz mantinha a mão no bolso da calça.
– Não pode se envolver com a vítima. Pode ser suspenso.
– Entendido, Doutor.
– Apaga o número dela. Hoje.
Muniz bateu continência e saiu com o celular na mão. O c*****o que deixaria a oportunidade de ter Marion. Era um safado, como vários deles.