Aquela noite parecia não ter fim.
Veluma dormia pouco desde que Cenet voltara a aparecer. Havia algo em cada palavra, em cada gesto daquela mulher, que soava falso — como uma peça bem ensaiada.
E Veluma sempre acreditara na força da intuição.
Os gêmeos dormiam no quarto ao lado, e o som da chuva batendo nas janelas se misturava ao tic-tac do relógio antigo no corredor.
Fernando já dormia, mas ela não conseguia fechar os olhos.
Resolveu descer até a cozinha em busca de um pouco de chá, na esperança de acalmar o coração.
Mas o destino, mais uma vez, a guiaria para algo muito maior do que uma simples insônia.
Ao passar perto da biblioteca, Veluma ouviu sussurros.
Apagou o lampião que carregava e encostou-se à parede, atenta.
A voz de Cenet era inconfundível, baixa e sedutora.
— Ele acredita em mim — dizia ela. — Está começando a baixar a guarda.
Veluma arregalou os olhos. Outro som respondeu — uma voz masculina, rouca, desconhecida.
— E a esposa dele? A tal Veluma?
Cenet soltou um riso breve, quase debochado.
— Ela é tola. Ingênua. Mas perigosa, se descobrir algo. Tenho que agir rápido.
— E o plano? — perguntou o homem.
Cenet fez uma pausa.
— Amanhã, direi a Fernando que encontrei documentos antigos da família — respondeu ela. — Um suposto registro de fraude em propriedades. Ele vai querer verificar.
Quando estivermos fora, longe daqui, cuidem para que Veluma receba… uma visita inesperada.
O homem riu baixo.
— Entendido.
Veluma levou a mão à boca, chocada.
Cenet estava planejando algo contra ela — e usaria Fernando como distração.
A mulher se afastou silenciosamente da porta, o coração disparado, tentando não fazer barulho no piso antigo.
Mas, ao virar o corredor, ouviu o estalo de um degrau e prendeu a respiração.
— Quem está aí? — a voz de Cenet ecoou fria.
Veluma correu, subindo as escadas em silêncio. Entrou no quarto rapidamente e fechou a porta, encostando-se nela, tremendo.
Fernando ainda dormia, sereno, sem imaginar o perigo que rondava sua casa.
Ela se aproximou dele, sentou-se na beira da cama e o observou por longos segundos.
Queria acordá-lo, contar tudo. Mas sabia que, se o fizesse sem provas, Cenet encontraria uma forma de se defender — e talvez Fernando duvidasse dela.
Não podia correr esse risco.
Na manhã seguinte, Cenet chegou à mansão com o mesmo sorriso doce de sempre.
Trazia nas mãos uma pasta de couro.
— Fernando, encontrei algo que pode te interessar — disse, entrando na sala.
Veluma observava à distância, fingindo costurar à mesa.
Cada palavra da rival soava como veneno disfarçado de mel.
— Papéis da família Brin — explicou Cenet. — Contratos antigos, registros que talvez expliquem o desaparecimento de certas terras. Achei que gostaria de investigar comigo.
Fernando folheou os papéis, intrigado.
— Isso é sério. Onde conseguiu?
— No arquivo central da antiga propriedade dos Montrose. — Ela sorriu. — Podemos ir juntos amanhã, se quiser confirmar.
Veluma notou o brilho triunfante no olhar dela e precisou conter o impulso de intervir.
Em vez disso, esperou.
Quando Cenet se despediu, Veluma seguiu-a discretamente até os fundos da mansão.
E foi ali, entre as sombras do jardim, que viu o mesmo homem da noite anterior — o que havia falado com Cenet na biblioteca.
Ele entregava algo a ela: uma pequena caixa preta.
— Certifique-se de que tudo esteja pronto amanhã — disse Cenet, com voz fria. — E lembre-se: ninguém deve suspeitar.
O homem assentiu e desapareceu entre as árvores.
Veluma esperou que Cenet se afastasse e, então, se aproximou do local.
Encontrou, no chão, um pedaço de papel que caíra da caixa.
Era uma passagem de trem com destino a Brighton — o mesmo lugar para onde Cenet planejava levar Fernando.
Ela dobrou o bilhete com as mãos trêmulas.
Agora tinha uma prova.
De volta à mansão, Veluma olhou pela janela e viu o marido conversando no jardim.
Seu coração se encheu de determinação.
Se Cenet queria destruir o que eles haviam construído, teria que enfrentá-la.
Veluma sussurrou para si mesma, apertando o bilhete entre os dedos:
— Você mexeu com a mulher errada, Cenet Montrose.
E, pela primeira vez desde que aquele pesadelo começou, ela não sentiu medo — sentiu força.
A guerra silenciosa dentro da mansão Brin acabava de mudar de lado.