Os dias seguintes à visita de Cenet foram um turbilhão de sentimentos.
Fernando tentava retomar a normalidade, mas as lembranças do passado o assombravam — a juventude perdida, os erros cometidos, e aquela mulher que agora surgia como um fantasma vestido de seda.
Veluma notava o quanto ele andava distante.
Os olhos dele, outrora cheios de ternura, agora pareciam presos em outro tempo, em outro rosto.
Ela tentava disfarçar a insegurança, mas o coração apertava — não era medo de perder Fernando, era o medo de vê-lo enfraquecer diante de quem o ferira.
Certa tarde, a chuva caía fina sobre os jardins da mansão.
Fernando se recolhera à biblioteca, lendo um antigo livro de negócios, quando ouviu batidas leves na porta.
— Posso entrar? — a voz era suave, quase um sussurro.
Ele ergueu o olhar e a viu: Cenet, envolta num manto cor-de-vinho, com o rosto pálido e os olhos marejados.
Fernando se levantou, surpreso.
— Cenet… o que faz aqui? Eu pedi que não voltasse.
Ela respirou fundo, os dedos trêmulos.
— Eu sei. Mas precisava ver você. — Fez uma pausa dramática. — Preciso me desculpar, Fernando.
Ele franziu o cenho, desconfiado.
— Desculpar-se? Depois de tudo que disse?
Cenet se aproximou lentamente, deixando o manto cair sobre a poltrona.
— Eu fui c***l. Disse coisas que não devia… — Sua voz vacilava, doce e estudada. — Quando te vi com aquela mulher… com Veluma… perdi o controle.
Lágrimas se formaram em seus olhos, e ela sussurrou:
— Eu te amei demais, Fernando. E o amor, quando ferido, enlouquece.
Fernando suspirou, desviando o olhar.
— O amor também sabe perdoar. Mas o seu virou outra coisa.
Ela sorriu com tristeza.
— Talvez eu tenha esquecido como se ama… — Disse, aproximando-se dele. — Mas ver você de novo… me fez lembrar do homem bom que conheci.
Estendeu a mão, roçando de leve a dele.
— Ainda posso ver esse homem aqui.
Fernando ficou imóvel. Havia verdade na voz dela, ou talvez ele apenas quisesse acreditar.
O passado tinha o poder de confundir até o coração mais firme.
No corredor, Veluma observava a cena pela fresta da porta entreaberta.
O coração dela disparou ao ver Cenet tão próxima de Fernando.
As lágrimas que escorriam do rosto da mulher pareciam sinceras — mas algo em seus gestos a incomodava. Era calculado demais.
Aquela mulher não pedia perdão… ela representava.
Mais tarde, quando Cenet se despediu, Fernando a acompanhou até o jardim.
Ela se virou, segurando a mão dele por alguns segundos a mais do que devia.
— Não quero que me veja como inimiga, Fernando. — sussurrou. — Eu só quero paz.
Ele assentiu, contido.
— Espero que fale a verdade.
Ela sorriu, e naquele sorriso havia uma faísca de vitória.
— Sempre falo a verdade… ao meu modo.
Quando ele voltou para dentro, encontrou Veluma parada à frente da lareira.
Ela o olhou sem disfarçar a angústia.
— Por que a deixou entrar, Fernando?
Ele passou a mão pelos cabelos, cansado.
— Ela disse que queria se desculpar. Achei que seria melhor encerrar tudo de forma pacífica.
— Pacífica? — Veluma riu, amarga. — Essa mulher não sabe o que é paz. Você não percebe? Ela está fingindo!
Fernando se aproximou, tentando acalmá-la.
— Veluma, não há motivo para se preocupar. Eu não sinto mais nada por ela.
— Mas ela sente por você — respondeu Veluma, com a voz embargada. — E isso é o suficiente para me preocupar.
O silêncio caiu entre os dois. Do lado de fora, a chuva engrossava, batendo contra as janelas como dedos impacientes.
Naquela noite, Cenet observava a mansão da colina oposta, abrigada sob um guarda-chuva n***o.
Ao lado dela, um homem encapuzado entregava-lhe um envelope.
— Os empregados já estão divididos — disse o homem. — Alguns acreditam que ela não é digna dele.
Cenet sorriu, satisfeita.
— Excelente. — Apertou o envelope nas mãos. — A primeira fase é o arrependimento… a segunda é a ruína.
Ela olhou para a mansão, os olhos cintilando no escuro.
— Veluma pode ter o amor dele agora… mas logo, muito logo, ela vai implorar para perdê-lo.
E assim, sob o manto da noite, o arrependimento de Cenet se revelou por completo — uma máscara perfeita para um coração cheio de veneno.Os dias seguintes àquela conversa foram estranhamente tranquilos.
Cenet começou a frequentar a mansão com uma frequência cada vez maior, sempre sob o pretexto de visitar “velhos conhecidos” ou “oferecer ajuda”.
Fernando, embora desconfiado, via nisso uma chance de encerrar o passado com dignidade.
Veluma, porém, sentia o perigo crescendo em silêncio — como erva daninha que se espalha devagar, até sufocar as flores.
Uma manhã fria, o orvalho ainda preso nas folhas das roseiras, Veluma descia a escada principal quando ouviu risadas vindas do salão.
Aquela voz — doce, melodiosa — era inconfundível.
Ao chegar à porta, viu Cenet sentada no sofá, servindo chá a Fernando.
Ela falava animadamente sobre lembranças da juventude, e ele ouvia em silêncio, meio desconfortável.
— Você ainda se lembra do lago de Brinfield? — perguntou Cenet, sorrindo. — Aquele dia em que prometeu me ensinar a remar, e acabamos caindo na água?
Fernando riu de leve, tentando manter a cordialidade.
— Foi uma confusão… eu devia ter previsto que você não ficaria parada dentro do barco.
— Ah, mas eu nunca soube ficar parada — respondeu ela, lançando um olhar significativo.
Veluma sentiu o estômago revirar.
Aquela mulher não apenas fingia arrependimento — estava testando limites.
Ela entrou, decidida.
— Bom dia. — A voz de Veluma soou firme, cortando o ar como lâmina. — Que agradável surpresa encontrar a senhorita Montrose… de novo.
Cenet levantou-se com um sorriso gracioso.
— Senhora Brin, eu só vim trazer os livros que Fernando me pediu.
Veluma ergueu as sobrancelhas.
— Livros? — olhou para Fernando, que hesitou. — Desde quando você precisa de alguém de fora para isso?
Fernando pigarreou, visivelmente tenso.
— Pedi a Cenet um livro de registros antigos da família Montrose. Pode ser útil na pesquisa sobre as propriedades antigas de Londres.
— Ah, claro — respondeu Veluma, o tom neutro. — Pesquisas históricas… sempre tão convenientes.
Cenet se aproximou dela com delicadeza ensaiada.
— Não quero causar discórdia, minha cara. — Tocou levemente o braço de Veluma. — Sei que minha presença pode incomodar, mas eu só desejo paz.
Veluma manteve o olhar firme.
— Paz não se oferece… se prova com atitudes.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
Fernando interveio, sentindo o clima se fechar.
— Acho melhor encerrarmos por hoje. Cenet, agradeço por ter vindo.
Ela assentiu, mas antes de sair, inclinou-se para ele e sussurrou, de modo que Veluma m*l pôde ouvir:
— Você ainda é o mesmo homem bom que eu amei. Espero que não mude.
Veluma cerrou o punho, controlando-se para não responder.
Mais tarde, no quarto, ela caminhava de um lado para o outro, o coração acelerado.
Fernando entrou, fechando a porta atrás de si.
— Veluma… precisamos conversar.
Ela se virou, com os olhos marejados.
— Conversar? Ou me convencer de que aquela mulher é inofensiva?
— Ela me procurou com arrependimento sincero — respondeu ele, tentando manter a calma. — Não quero mais guerras dentro desta casa.
Veluma riu, amarga.
— E desde quando o veneno avisa antes de matar?
Fernando se aproximou e segurou o rosto dela com delicadeza.
— Confie em mim. Eu sei me proteger.
Ela abaixou o olhar, sentindo o medo apertar o peito.
— Eu confio, Fernando… só não confio nela.
Ele a abraçou, tentando acalmar as tempestades invisíveis que já se formavam entre eles.
Mas do lado de fora, na escuridão do jardim, Cenet observava o quarto iluminado, o vulto dos dois se abraçando atrás da cortina.
Em sua mão, uma pequena caixinha dourada reluzia sob a luz da lua.
Ela abriu o estojo e retirou um anel — o antigo anel de noivado que Fernando lhe dera anos atrás.
— Você pode achar que esqueceu, meu amor — murmurou, passando o dedo sobre a joia — mas esse anel ainda carrega sua promessa.
E com um sorriso frio, ela o colocou de volta no dedo.
— Logo, Veluma Delarriva… logo ele lembrará quem sou eu.
A chuva começou a cair, lenta e constante, como o prenúncio de um novo caos prestes a se abater sobre a mansão Brin.