A chuva cessara, mas o céu ainda guardava a cor cinzenta do medo.
O amanhecer chegou devagar sobre a mansão Brin, trazendo consigo o silêncio pesado que sempre acompanha as noites de tragédia.
Veluma observava pela janela o carro da ambulância se afastar.
Fernando descansava no sofá, o ombro enfaixado, enquanto os gêmeos dormiam no berço ao lado.
Por mais que tentasse se acalmar, o coração dela ainda batia em descompasso.
— Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma, mais para se convencer do que por acreditar.
Horas depois, Fernando acordou.
Seu semblante estava pálido, mas o olhar firme como sempre.
— Ela está viva? — perguntou, ainda com a voz rouca.
Veluma assentiu.
— Sim. Cenet está no hospital. A polícia a encontrou desacordada perto do portão.
Fernando fechou os olhos por um momento, como se tentasse organizar os pensamentos.
— E Félix?
— Sumiu. — A voz dela tremia. — A polícia está em busca dele, mas até agora, nada.
Fernando apertou a mão dela.
— Isso não acabou, Veluma. Eu o conheço… ele vai tentar algo maior.
Ela respirou fundo e respondeu com firmeza:
— Então que venha. Não vamos mais viver com medo.
Enquanto isso, em um hospital nos arredores de Londres, Cenet abria os olhos lentamente.
A claridade do quarto a fez piscar várias vezes até que sua visão se ajustasse.
Uma enfermeira se aproximou.
— Finalmente acordou, senhorita. Como está se sentindo?
Cenet levou a mão à cabeça, tentando se lembrar do que havia acontecido.
Mas flashes confusos invadiram sua mente — a chuva, a luta, o tiro, o rosto de Fernando… e depois, nada.
— Onde estou? — murmurou.
— No Hospital Real de Brighton. A polícia quer falar com você assim que puder.
A enfermeira se afastou, e Cenet ficou sozinha, o coração disparado.
Olhou para o espelho ao lado da cama e viu seu reflexo: pálida, os cabelos desgrenhados, mas viva.
Uma lágrima escorreu, mas ela logo a secou com raiva.
— Não… eu não perdi. Ainda não.
Ela virou o rosto e, sobre a mesa ao lado, viu um envelope deixado discretamente.
Pegou-o com mãos trêmulas e o abriu.
Dentro, um bilhete escrito à mão:
“Você falhou, mas ainda tenho um plano.
Espere por mim.
— F.”
O coração dela disparou. Félix estava vivo… e ainda por perto.
Na mansão, Fernando recebeu uma ligação horas depois.
Ele atendeu, e a voz do outro lado da linha era grave:
— Senhor Brin, aqui é o detetive Hargreaves. Precisamos que venha ao hospital. A senhorita Cenet pediu para vê-lo.
Fernando congelou.
Veluma, que estava próxima, percebeu a expressão dele.
— Quem era?
— A polícia. Cenet quer me ver.
— Você não pode ir sozinho — disse ela, alarmada. — E se for uma armadilha?
— Preciso encarar isso, Veluma. Se ela quer falar, é porque sabe algo sobre Félix.
Ela segurou o braço dele, aflita.
— Então eu vou com você.
Horas depois, o casal chegou ao hospital.
Cenet estava sentada, fraca, mas com os olhos cheios de algo que Veluma não esperava: arrependimento.
Fernando se aproximou, tenso.
— Por que pediu pra me ver?
Cenet respirou fundo, olhando-o com tristeza.
— Porque ele não vai parar, Fernando. Félix quer mais do que vingança agora. Ele quer destruir tudo o que carrega o nome Brin.
— O que ele está planejando? — Veluma perguntou, a voz firme.
Cenet hesitou, depois sussurrou:
— Uma armadilha… ele quer te atrair, Fernando. Disse que vai terminar o que começou há anos. Algo sobre… o acordo que você rompeu.
Fernando sentiu o sangue gelar.
— O acordo… — murmurou. — Meu Deus…
— Que acordo é esse? — Veluma o encarou.
Mas antes que ele pudesse responder, o som de vidro se quebrando ecoou do corredor.
Policiais correram para fora do quarto.
Um deles voltou segundos depois, pálido:
— Senhor Brin, o carro da escolta desapareceu… e com ele, Félix Montero.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Fernando segurou a mão de Veluma, o olhar firme e sombrio.
— Então ele quer guerra. E vai tê-la.
Do lado de fora, sob a garoa fina da manhã, Félix observava o hospital à distância, um sorriso frio nos lábios.
Ao seu lado, um envelope com o selo da empresa Brin Agro.
Ele o abriu e olhou para o mapa de terras — propriedades, contas, números.
— Chegou a hora de tirar tudo o que é dele.
E, acendendo um cigarro, desapareceu entre as sombras.Veluma olhava para Fernando, tentando conter o medo que tomava conta do seu peito.
— O que ele quer de nós, Fernando? — perguntou com a voz baixa.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Quer me ver destruído… e vai usar tudo o que eu amo pra isso.
Os gêmeos dormiam tranquilos no berço, alheios ao perigo que rondava a família.
Veluma se aproximou e segurou a mão de Fernando.
— Então vamos lutar juntos. Eu não vou deixar ele vencer.
Fernando a olhou, emocionado.
— Com você do meu lado, eu enfrento qualquer coisa.
Ela sorriu levemente.
E por um instante, mesmo com o medo lá fora, o amor deles foi o abrigo mais seguro que existia.