Ecos do Passado

870 Palavras
A chuva cessara, mas o céu ainda guardava a cor cinzenta do medo. O amanhecer chegou devagar sobre a mansão Brin, trazendo consigo o silêncio pesado que sempre acompanha as noites de tragédia. Veluma observava pela janela o carro da ambulância se afastar. Fernando descansava no sofá, o ombro enfaixado, enquanto os gêmeos dormiam no berço ao lado. Por mais que tentasse se acalmar, o coração dela ainda batia em descompasso. — Vai dar tudo certo — murmurou para si mesma, mais para se convencer do que por acreditar. Horas depois, Fernando acordou. Seu semblante estava pálido, mas o olhar firme como sempre. — Ela está viva? — perguntou, ainda com a voz rouca. Veluma assentiu. — Sim. Cenet está no hospital. A polícia a encontrou desacordada perto do portão. Fernando fechou os olhos por um momento, como se tentasse organizar os pensamentos. — E Félix? — Sumiu. — A voz dela tremia. — A polícia está em busca dele, mas até agora, nada. Fernando apertou a mão dela. — Isso não acabou, Veluma. Eu o conheço… ele vai tentar algo maior. Ela respirou fundo e respondeu com firmeza: — Então que venha. Não vamos mais viver com medo. Enquanto isso, em um hospital nos arredores de Londres, Cenet abria os olhos lentamente. A claridade do quarto a fez piscar várias vezes até que sua visão se ajustasse. Uma enfermeira se aproximou. — Finalmente acordou, senhorita. Como está se sentindo? Cenet levou a mão à cabeça, tentando se lembrar do que havia acontecido. Mas flashes confusos invadiram sua mente — a chuva, a luta, o tiro, o rosto de Fernando… e depois, nada. — Onde estou? — murmurou. — No Hospital Real de Brighton. A polícia quer falar com você assim que puder. A enfermeira se afastou, e Cenet ficou sozinha, o coração disparado. Olhou para o espelho ao lado da cama e viu seu reflexo: pálida, os cabelos desgrenhados, mas viva. Uma lágrima escorreu, mas ela logo a secou com raiva. — Não… eu não perdi. Ainda não. Ela virou o rosto e, sobre a mesa ao lado, viu um envelope deixado discretamente. Pegou-o com mãos trêmulas e o abriu. Dentro, um bilhete escrito à mão: “Você falhou, mas ainda tenho um plano. Espere por mim. — F.” O coração dela disparou. Félix estava vivo… e ainda por perto. Na mansão, Fernando recebeu uma ligação horas depois. Ele atendeu, e a voz do outro lado da linha era grave: — Senhor Brin, aqui é o detetive Hargreaves. Precisamos que venha ao hospital. A senhorita Cenet pediu para vê-lo. Fernando congelou. Veluma, que estava próxima, percebeu a expressão dele. — Quem era? — A polícia. Cenet quer me ver. — Você não pode ir sozinho — disse ela, alarmada. — E se for uma armadilha? — Preciso encarar isso, Veluma. Se ela quer falar, é porque sabe algo sobre Félix. Ela segurou o braço dele, aflita. — Então eu vou com você. Horas depois, o casal chegou ao hospital. Cenet estava sentada, fraca, mas com os olhos cheios de algo que Veluma não esperava: arrependimento. Fernando se aproximou, tenso. — Por que pediu pra me ver? Cenet respirou fundo, olhando-o com tristeza. — Porque ele não vai parar, Fernando. Félix quer mais do que vingança agora. Ele quer destruir tudo o que carrega o nome Brin. — O que ele está planejando? — Veluma perguntou, a voz firme. Cenet hesitou, depois sussurrou: — Uma armadilha… ele quer te atrair, Fernando. Disse que vai terminar o que começou há anos. Algo sobre… o acordo que você rompeu. Fernando sentiu o sangue gelar. — O acordo… — murmurou. — Meu Deus… — Que acordo é esse? — Veluma o encarou. Mas antes que ele pudesse responder, o som de vidro se quebrando ecoou do corredor. Policiais correram para fora do quarto. Um deles voltou segundos depois, pálido: — Senhor Brin, o carro da escolta desapareceu… e com ele, Félix Montero. O silêncio tomou conta do ambiente. Fernando segurou a mão de Veluma, o olhar firme e sombrio. — Então ele quer guerra. E vai tê-la. Do lado de fora, sob a garoa fina da manhã, Félix observava o hospital à distância, um sorriso frio nos lábios. Ao seu lado, um envelope com o selo da empresa Brin Agro. Ele o abriu e olhou para o mapa de terras — propriedades, contas, números. — Chegou a hora de tirar tudo o que é dele. E, acendendo um cigarro, desapareceu entre as sombras.Veluma olhava para Fernando, tentando conter o medo que tomava conta do seu peito. — O que ele quer de nós, Fernando? — perguntou com a voz baixa. Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. — Quer me ver destruído… e vai usar tudo o que eu amo pra isso. Os gêmeos dormiam tranquilos no berço, alheios ao perigo que rondava a família. Veluma se aproximou e segurou a mão de Fernando. — Então vamos lutar juntos. Eu não vou deixar ele vencer. Fernando a olhou, emocionado. — Com você do meu lado, eu enfrento qualquer coisa. Ela sorriu levemente. E por um instante, mesmo com o medo lá fora, o amor deles foi o abrigo mais seguro que existia.
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