Clarice respirou fundo.
Era visível que estava lutando para não tremer não de fragilidade, mas de medo.
As palavras de Henry escorriam sobre ela como um veneno antigo, o tipo que ela já conhecia pelo cheiro.
Mas dessa vez, algo dentro dela se recusava a ceder.
— Henry… chega. — A voz saiu firme, firme de um jeito que ele não esperava. — Vai embora. Agora.
Ele congelou, ainda ajoelhado, a máscara quase caindo.
Os olhos dele, secos, brilharam por um segundo com algo que não era tristeza era cálculo.
— Clarice… eu… — ele tentou.
— Se você não sair, eu chamo a polícia.
A ameaça ecoou pelo apartamento inteiro.
E ela quis que ele percebesse que era real.
Henry encarou Clarice por dois longos segundos, os músculos do maxilar pulando.
Então, subitamente, ele ficou de pé com um sobressalto teatral, levando a mão ao rosto como se enxugasse lágrimas inexistentes.
— Tudo bem… tudo bem… — a voz tremida demais, tão falsa que dava náusea.
— Eu não queria isso, Clarice. Mas… se é assim que você vai me tratar depois de tudo que eu fiz por você…
Clarice desviou o olhar, firme.
— Sai.
Henry deu um passo para trás, ainda soluçando de mentira.
Abriu a porta com dramatização, olhando por cima do ombro como se esperasse que ela o chamasse de volta.
Mas Clarice permaneceu imóvel.
E isso doeu no ego dele como uma facada.
Ele saiu.
A porta bateu.
Silêncio.
Do lado de fora, Corvo recuou dois passos para a sombra do corredor, colando-se à parede com total silêncio. Ele viu a figura de Henry cruzando a porta do prédio com o rosto coberto pelas mãos, “chorando” alto demais, encenando sofrimento para qualquer um que estivesse assistindo.
— Drama de moleque de novela… — Corvo murmurou, respirando fundo.
Ele esperou alguns segundos até Henry dobrar a esquina.
Só quando teve certeza absoluta de que o homem estava longe, Corvo voltou a olhar para a porta do apartamento de Clarice.
Ele ouviu, lá dentro, um pequeno som não um choro descontrolado, mas uma respiração trêmula. O tipo de respiração de alguém que sustentou coragem por tempo demais.
Corvo fechou os olhos por um instante.
— Você é mais forte do que acha, ruivinha… — sussurrou para si mesmo, antes de puxar o celular.
Era hora de avisar Oliver.
E pelas informações que ele tinha coletado…
as coisas estavam indo longe demais