Corvo desceu dois lances de escada para se afastar do apartamento, a respiração ainda acelerada pela cena que acabara de testemunhar. O corredor estava vazio, silencioso, exceto pela vibração fraca da lâmpada fluorescente.
Ele puxou o celular do bolso, encontrou o contato marcado apenas como OF e apertou o botão de ligação.
A chamada foi atendida no primeiro toque.
— Corvo? — a voz de Oliver veio tensa, urgente. —Ela está bem ? Como está minha Clarice?
Minha Clarice?
Corvo inspirou fundo.
Era tanta coisa e tão pior do que ele esperava que por um instante ele teve que organizar o caos na cabeça.
— FrankWood… — começou, o tom sério. — A situação é feia. Bem feia.
Silêncio do outro lado.
Daqueles que falam mais do que qualquer palavra.
— Fala agora, ela está bem ou não p***a.
Corvo encostou na parede, ainda atento aos sons do corredor.
— Eu vi Henry com a Clarice hoje. O cara perdeu completamente a linha… de um jeito complicado, Oliver.Ele encurralou ela na sala. Falou do casamento de novo. Disse que ia prender o pai dela se ela não aceitasse, ameaçou o cara até de morte.
Do outro lado da linha, Oliver prendeu a respiração.
Corvo ouviu.
— Ele encostou nela? — perguntou, num fio de voz muito mais perigoso do que preocupado.
— Sabe que eu não deixaria.Jogou o pai dela na mesa como chantagem.
Outro silêncio.
Corvo continuou:
— Quando Clarice se recusou, ele tentou virar o jogo. Se ajoelhou. Fez um espetáculo patético, dizendo que a ama, que está “desesperado”.Mas, Oliver… a máscara dele caiu. Eu vi.Vi a mudança no tom de voz, a raiva por trás das lágrimas falsas. O sujeito tá desequilibrado. Obcecado até o talo.
— Corvo… — Oliver falou mais baixo, mais grave — ela tá em perigo?
Corvo respondeu sem hesitar.
— Sim.E não é pouca coisa, não. Esse cara… é daqueles que não aceitam perder. De jeito nenhum.
Oliver demorou três segundos para responder, e Corvo reconheceu imediatamente aquele silêncio, era um silêncio denso de um predador decidido a atacar.
— Tem ordens, doutor ?
— Tenho, só me dê uma semana, vou resolver isso. E você continue de olho até lá. Onde ela está agora ?
— No apartamento. Sozinha. Ele acabou de sair, fingindo choro, mas saiu.Eu fiquei por perto até ter certeza.
Oliver soltou o ar lentamente, algo entre frustração, medo e uma fúria crescente.
— Se Henry voltar, me liga imediatamente.E se ele encostar nela de novo… não espera por mim. Entendeu?
O tom era frio.
E pesado de significado.
— Entendido, doutor. — Corvo respondeu, já recolocando o capacete. — Vou mudar de prédio e ficar de olho até ela dormir.
— Corvo… uma última coisa.
— Fala.
A voz de Oliver virou um sussurro mas um sussurro que parecia aço.
— Não deixa nada acontecer com ela. Nada. Daqui uma semana ela estará protegida de tudo.
Corvo assentiu, mesmo sabendo que Oliver não podia vê-lo.
— Nem que eu tenha que quebrar o pescoço desse noivo de merda.Fica tranquilo, FrankWood. Tô com de olho na ruiva.
E a ligação foi desligada.
Corvo guardou o celular, subiu na moto e se posicionou num ponto estratégico do outro lado da rua.
Henry podia voltar.
Podia tentar algo.
Podia achar que Clarice ainda era presa fácil.
Mas não estava mais sozinha