Oliver passou o resto do turno como um fantasma dentro de si mesmo.
Ele caminhava pelos corredores, respondia perguntas, assinava prontuários, dava ordens… mas nada realmente ficava. Sua mente voltava sempre , sempre para a ruiva com olhos azuis.
As palavras de Corvo, cruas demais, ecoavam como estilhaços em seu peito.
“Ela tá em perigo.”
“Ele encurralou ela.”
“O sujeito é obcecado.”
Oliver tentou revisar um prontuário. A letra dele saiu tremida.
Tentou examinar um paciente. Suas mãos, tão firmes em cirurgia, estavam geladas.
Até que percebeu uma coisa simples e assustadora:
Ele não conseguia mais trabalhar.
Não enquanto Clarice estivesse sozinha.
Não enquanto Henry estivesse solto.
Não enquanto qualquer coisa pudesse acontecer com ela.
Oliver largou a prancheta na mesa de emergência e saiu para o estacionamento, buscando ar e controle.
Mas controle era justamente o que ele estava perdendo.
Ele respirou fundo uma, duas, cinco vezes.
Não adiantou.
Então tirou o celular do bolso e localizou um contato salvo apenas como:
JASON — ARQUITETO
Ligou.
A chamada foi atendida em segundos, ainda ofegante, como se o homem estivesse correndo.
— Dr. FrankWood? — Jason perguntou, assustado. — Aconteceu alguma emergência na mansão?
— Sim. — Oliver respondeu. A voz saiu baixa demais, tensa demais. — Quero iniciar uma obra agora. Urgente.
— Claro… mas o senhor costuma planejar com meses de–
— Jason. — Oliver interrompeu, a frieza voltando como uma lâmina. — Quero um novo quarto. Completo. No último andar. No espaço que está fechado.
Houve um silêncio pesado na linha.
Aquilo dizia tudo.
Aquele quarto estava selado há quatro anos.
Jason sabia.
— Entendi… — a voz do arquiteto ficou mais lenta. — O senhor… tem certeza?
— Absoluta.
Oliver passou a mão nos cabelos, nervoso como poucas vezes na vida.
— Vai ser o quarto mais amplo da casa. Com suíte grande ,banheira, box amplo, e acabamento de primeira.Quero ar condicionado e aquecedor.Quero uma cama grande. TV enorme. Uma poltrona confortável. Um frigobar.
Jason digitava freneticamente.
— Certo, doutor… posso fazer isso, mas…
— Vai ter também uma penteadeira. Completa. Produtos de cuidado com pele, maquiagem, escovas, óleos, tudo.— Ele fechou os olhos por um instante.Clarice merecia aquilo. Clarice merecia o mundo inteiro.— E um closet. Cheio. Roupas, vestidos, casacos, pijamas. Sapatos. Quero tudo.
Jason engasgou do outro lado.
— T-Tudo? Mas… sem medidas? Como…?
— Eu envio as medidas. — Oliver disse rapidamente. — E ela não gosta de cores muito vibrantes. Prefere tons suaves. Rosa queimado, bege, terracota, verde oliva. Faça bonito. Faça aconchegante.
O arquiteto que era bem mais que isso para Oliver, demorou uns segundos para absorver.
— Então… vai ser um quarto feminino? Para uma moradora nova?
Oliver fechou os olhos, como se tivesse sido pego em algo que nem ele queria admitir em voz alta.
— Sim. — respondeu.
Jason respirou fundo.
— Certo… eu posso começar hoje. Mas… em quanto tempo o senhor precisa disso, Dr. FrankWood?
Oliver apertou o celular com tanta força que quase trincou.
— Menos de uma semana.
Do outro lado da linha, Jason tossiu quase engasgou.
— Doutor… isso é impossível. Não com aquele quarto. Aquele andar está fechado há anos, a estrutura é—
— Jason — Oliver não levantou a voz; não precisava.A ameaça fria, o desespero contido, a urgência emocional tudo estava ali.— Faça. Em. Uma. Semana, eu pago o dobro. O triplo. O que for necessário.
Silêncio.
— Entendi, senhor. — Jason respondeu enfim. — Eu vou colocar toda a equipe. Começamos agora. E…e será entregue no prazo.
— Boa decisão. — Oliver murmurou.
Antes de desligar, Jason arriscou:
— Doutor… esta tudo bem ?
Oliver não respondeu.
Mas o silêncio dele foi uma confissão.
Ele desligou.
Ficou parado no estacionamento por alguns segundos, sentindo o próprio coração bater forte, como se estivesse indo contra todas as regras de ética, lógica e autopreservação que sempre o guiaram.
E estava.
Mas, naquele momento, ele só conseguia pensar em uma coisa:
Clarice precisa de um lugar seguro.
E vai ser aqui.
Comigo.
Ele pensou na sua mansão ao longe, iluminada pela noite.
Pela primeira vez em quatro anos…
ele estava abrindo espaço para alguém entrar.
Mas na cabeça dele, só existia um nome para aquele quarto:
O quarto de Clarice.