Capítulo 43. A obsessão de Henry

559 Palavras
Corvo estava na segunda noite de vigilância quando percebeu que a situação estava desmoronando rápido demais. Ele estava num carro discreto, um modelo velho que não chamava atenção, estacionado do outro lado da rua. A rua era calma, iluminada apenas por dois postes fracos e o letreiro azul de uma farmácia de bairro. Da janela do carro, Corvo tinha uma visão perfeita do prédio de Clarice. E, infelizmente, tinha uma visão perfeita de Henry também. O desgraçado estava lá todos os dias. No primeiro, Corvo viu as flores. Henry subiu com um buquê enorme ridículo de tão chamativo e desceu meia hora depois sem ele. Clarice deve ter recusado ou deixado na porta. No segundo dia, houve chocolates. Três caixas diferentes. Henry gesticulava desesperado com o porteiro, tentando convencer o homem a deixar subir sem autorização. Corvo o flagrou conversando com a síndica do prédio, voz melosa, tentando passar uma imagem de “noivo romântico preocupado”. Ela parecia desconfortável. Corvo anotou o rosto dela caso precisasse depois. Mas foi a noite do segundo dia que fez Corvo se alarmar. Henry estava dormindo no carro. Literalmente. O sujeito estacionou bem na porta do prédio de Clarice, reclinou o banco, colocou um casaco sobre o rosto e ficou ali com o motor desligado. A madrugada inteira. Corvo o observou de longe, sentado no próprio carro, braços cruzados. — Isso não é amor, — murmurou — é obsessão doentia. Por volta das 3h da madrugada, Henry acordou. Corvo viu o movimento. Ele se sentou, passou as mãos no cabelo e ficou encarando o prédio como quem encara um altar. Aquilo incomodou Corvo num nível profundo. Henry tirou algo do bolso. Corvo deu zoom com a lente da câmera que trazia sempre. Um anel. Ele o girava nos dedos. O olhava. Beijava. E murmurava algo que Corvo não conseguiu ouvir, mas não precisou. O brilho nos olhos dele era errado. Era vazio de empatia e cheio de posse. — Cara… você vai dar trabalho, — Corvo rosnou baixinho. — E quem vai pagar o pato é você mesmo. Pouco depois, Henry saiu do carro. Ainda era escuro, o vento frio da madrugada fazendo as folhas da árvores balançarem. Ele ficou parado na calçada, olhando para cima para o andar onde Clarice morava. Como se estivesse esperando que ela aparecesse na janela. Não apareceu. Mesmo assim, ele ficou. Parado. Por vinte longos minutos. Corvo fechou os punhos no volante. Cada segundo que passava, a situação ficava mais clara: Clarice não estava lidando com um homem rejeitado. Estava lidando com uma obsessão crescente. Um homem perigoso. Por volta das 5h, Henry finalmente entrou no carro e dirigiu embora. Corvo esperou mais meia hora, garantindo que ele não voltaria, antes de falar sozinho: — Tá virando caso sério, FrankWood… muito sério. Ele pegou o celular. Não ligou ainda, Oliver estava provavelmente no hospital. Mas a mensagem ficou escrita, pronta para ser enviada a qualquer instante “Ele passou a noite inteira na porta. Tá piorando. Ela precisa sair daqui" Depois guardou o celular e voltou a olhar para a janela apagada de Clarice. — Fica tranquila, ruivinha… — murmurou. — Enquanto eu estiver aqui, ele não chega perto de você. Mas Corvo sabia, no fundo, que isso não duraria para sempre. E que Oliver iria surtar quando soubesse o que Henry estava se tornando
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