Capítulo 44. A morte não avisa

502 Palavras
Os pais de Clarice chegam no fim da tarde, batendo na porta com aquela pressa gentil que sempre carregam. Assim que ela abre, a mãe a envolve num abraço apertado, enquanto o pai observa ao redor, reparando na bagunça de papéis espalhados e no clima pesado que ainda paira no ar. — Filha… você está tão abatida — a mãe comenta, tocando o rosto dela com ternura. — Eu estou bem, mãe. Só… cansada. Eles entram, sentam-se no sofá, e o pai rapidamente assume aquele tom de conversa “séria”, mas suave, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse fazê-la quebrar. — Clarice, sua mãe e eu conversamos. — Ele suspira, cruzando as mãos. — E achamos melhor você reconsiderar o pedido do Henry. Ela fecha os olhos por um segundo, já sentindo o sangue esquentar nas têmporas. — Pai… não. — Mas filha… — a mãe insiste, sentando-se ao lado dela e segurando sua mão — ele é um bom homem. Atencioso. Sempre foi tão dedicado a você. Está até ali embaixo, no carro… Olha o esforço que ele está fazendo. Clarice solta uma risada curta, amarga. — Dedicação? É assim que vocês chamam chantagem emocional? Pressão? Ameaça? Ele não quer me ver feliz, ele quer me controlar. A mãe arregala os olhos, surpresa pela firmeza da filha uma firmeza que Clarice nunca demonstrou tão claramente. — Mas, Clarice… ele sempre foi gentil. Sempre… cuidou de você. — Cuidou? — ela repete, com incredulidade. — Ele está dormindo dentro do carro em frente ao meu prédio porque eu disse “não”.Isso é obsessão, não é carinho. O pai tenta intervir: — Filha, nós só queremos o melhor pra você. E Henry tem uma boa posição, estabilidade, e sempre foi leal à nossa família. Esse casamento seria… — Seria a ruína da minha vida — ela corta, firme, olhando diretamente nos olhos do pai. — Eu não vou me casar com alguém que tenta me intimidar. Nem que tenta pressionar vocês pra me convencerem. A mãe aperta sua mão, aflita: — Você está mesmo certa disso? Está tão… diferente, Clarice… — Estou. E essa é a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo, o tiro que levei só serviu para abrir meu olhos mãe. A morte não avisa, ela vem, e eu não vou passar meus dias de vida sendo manipulada. O pai solta um suspiro longo, pesado, olhando para a porta como se esperasse que Henry pudesse entrar a qualquer momento. — Vamos… respeitar sua decisão, então — diz ele, embora a expressão mostre que ainda não entendeu totalmente. — Mas tome cuidado, filha. Esse rapaz… não parece estar bem. — Eu sei — ela responde, séria. — E eu estou atenta. Lá embaixo, no carro, Corvo observa discretamente enquanto Henry, mais uma vez, olha para o relógio, aflito e impaciente. Clarice fecha a porta atrás dos pais, respira fundo e sente, pela primeira vez em anos, que tem algum controle sobre a própria vida
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