Capítulo 45. O quarto ganhando vida

534 Palavras
Oliver Frankwood nunca foi um homem impulsivo. Sua vida inteira fora construída sobre precisão, disciplina, lógica implacável. Mas naquela semana… nada nele estava funcionando como deveria. Era como se Clarice tivesse atravessado as estruturas frias da vida dele e deixado fissuras por onde emoções, emoções que ele detestava escapavam sem controle. E foi por isso que agora ele estava ali, parado no meio do que antes era um andar abandonado da mansão, observando o caos da obra que ele mesmo autorizara. Poeira. Madeira. Ferramentas. Homens trabalhando sem parar. O barulho era infernal. Mas ele não se incomodava. Jason, o arquiteto, atravessa o espaço com uma prancheta nas mãos. — Doutor Frankwood, estamos avançando rápido. Mas… — ele hesita — …o prazo é muito curto. Menos de uma semana para montar um quarto inteiro, banheiro, closet completo… Oliver vira o rosto devagar. O olhar é firme, frio e inegociável. — Eu não pedi sua opinião. Pedi o quarto. Jason engole seco. — Certo. Vamos cumprir. Oliver passa as mãos pelos bolsos do jaleco sim, ele saiu direto do hospital para a obra e começa a caminhar pelo espaço que, em sua mente, já tinha forma. E ele vê. Vê o quarto pronto, com paredes claras e iluminação suave. Vê a cama grande, sem arestas, sem nada que pudesse machucar. Vê a penteadeira cheia de produtos que Clarice jamais compraria sozinha. Vê o closet organizado com roupas que combinariam com o tom da pele dela, com seus ombros delicados, com o olhar doce que ela fazia quando se sentia segura. Vê tudo. Com uma precisão obsessiva que chega a assustá-lo. — Quero o banheiro com isolamento acústico — ele diz sem olhar para Jason. — Banheira grande, de água quente constante. Sem riscos. — Claro… — E o quarto precisa ser silencioso. Janela antirruído. Cortinas blackouts. Tapete macio. Nada que escorregue. Jason anota freneticamente. — Ok. Mas Oliver não termina. Ele se aproxima do espaço que será o closet e toca a parede como se estivesse imaginando outra pessoa ali. — As roupas precisam estar aqui antes dela chegar. Jason levanta o olhar, confuso. — “Ela”… quem? Oliver respira fundo. Não responde. Não precisa responder. Jason entende que não deve perguntar mais nada. Quando fica finalmente sozinho no fim da tarde, depois que os trabalhadores vão embora, Oliver caminha até o centro do futuro quarto e para em silêncio. O andar inteiro fica quieto, como se segurasse o ar. Ele fecha os olhos. E Clarice aparece imediatamente. O sorriso tímido. O beijo. A voz suave dizendo “obrigada, doutor”. O jeito como ela encolheu os ombros quando ele tirou seus pontos, vulnerável, confiando nele. Ele leva a mão até a boca onde ela o beijou como se um fantasma do toque ainda estivesse ali. Apertando o maxilar, murmurando sozinho: — Eu não deveria fazer isso.— Mas ele não sai. Não recua. Nem tenta impedir o que está construindo literalmente e dentro dele. Porque mesmo sabendo que era irracional, perigoso e impulsivo… Ele queria Clarice segura. Em um lugar que só ele poderia proteger. Em um lugar que, agora, tomava forma diante dos seus olhos. O quarto dela. Na casa dele
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