O telefone vibra no bolso do jaleco.
Oliver olha para o visor: Corvo.
Ele atende antes mesmo do segundo toque.
— Fale. — a voz dele sai baixa, firme, carregada de uma tensão que ele nem tenta disfarçar.
Do outro lado, o ronco distante de uma moto sendo desligada.
— Estou na rua dela agora — diz Corvo, a voz rouca, sempre calma demais para alguém que vive de farejar perigo. — Clarice acabou de chegar em casa. Passou na faculdade, ela está querendo voltar a estudar.
Oliver fecha os olhos por um instante.
Ela queria voltar a estudar…
Algo nele relaxa um pouco.
— E Henry? — pergunta de imediato.
— Hoje não apareceu. Mas ontem à noite deixou flores na porta. Ela jogou fora. Sem hesitar.
Oliver sente uma linha interna da tensão se romper.
Não de alívio… mas de algo mais profundo.
Orgulho. Admiração. Raiva. Desejo de protegê-la.
— E ela… como parece? — pergunta, quase contra a própria vontade.
Corvo hesita um segundo o que é raro.
— Fragilizada. Mas firme. Como se tivesse decidido alguma coisa que ainda não contou pra ninguém. Anda olhando muito pro celular, tipo esperando uma mensagem que não chega.
O peito de Oliver aperta.
Ele respira fundo.
Volta a olhar para o quarto em construção, para o espaço que ele faz questão de ser perfeito.
— Continue seguindo. Quero a rotina completa dela. Horários de aulas, trabalho, compras, tudo. E qualquer aproximação de Henry, você me liga na hora.
Corvo solta um riso curto.
— Doutor… isso tudo pra quê, hein? Acha mesmo que ela vai querer—
— Não é pra querer. — Oliver corta com firmeza, a voz mais baixa, mais grave. — É pra que ela esteja a salvo.
Há silêncio.
Corvo parece avaliar o tom, a determinação, o tipo de ordem que não admite discussão.
— Entendido. — diz enfim. — Vou mandar relatório a cada duas horas.
— E Corvo…
— Hm?
Oliver olha mais uma vez para o futuro quarto de Clarice. Para o lugar que ele está moldando com cada detalhe pensado nela.
— Não deixe que ela perceba que está sendo observada.
Corvo responde com um “relaxa” despreocupado e desliga.
Oliver guarda o telefone devagar, respirando fundo mas o ar parece pesado demais.
É algo que ele não sabe nomear ou prefere não admitir.
Mas que cresce, silencioso, intenso e perigoso.
E cada dia que passa…
Está mais claro:
Clarice já está mexendo onde ninguém jamais conseguiu tocar.