A ligação de Corvo chega enquanto Oliver revisa plantas da obra, tentando inutilmente distrair a mente.
— Doutor… — a voz do Corvo vem abafada, com barulho de rua ao fundo. — Ela tá num bar. Sozinha.
Oliver fecha os olhos por um instante.
— Onde?
Corvo manda o endereço. É perto perto demais do hospital, perto demais da casa dele.
Como se Clarice estivesse orbitando, sem saber, os mesmos lugares que ele frequenta.
Ele nem pensa duas vezes.
Pega as chaves.
O coração acelera irritante, involuntário, impossível de controlar.
Ele entra no carro, liga o motor e dirige rápido, mas com a precisão fria de quem aprendeu a nunca perder o controle.
O bar é aconchegante, luz baixa, música suave.
Oliver estaciona do outro lado da rua, em uma sombra perfeita. Ele não desce. Não atravessa.
Não fala com ela.
Não faz nada que vá interferir diretamente.
Mas olha.
Clarice está sentada sozinha numa mesa de canto, iluminada por um abajur âmbar que deixa seus cabelos ruivos ainda mais vivos, mais intensos.
Ela mexe no canudo, distraída, uma bebida rosada à frente.
E um prato com uma porção de batatas fritas com bacon e catupiry.
Oliver sente o peito se apertar pela cena simples, pela independência tímida, pelo fato de ela estar tentando viver… mesmo ferida, mesmo pressionada, mesmo sozinha.
Ela dá um gole no drink, faz uma careta suave, ri sozinha e aquilo o atinge como um soco gentil, inesperado.
Aquele riso… leve, um pouco inseguro, mas real… é diferente dos sorrisos fracos no hospital.
É Clarice fora da dor.
A Clarice que ele não conhece.
Mas quer conhecer.
Ele inclina-se um pouco para frente no banco do carro, observando cada gesto:
o modo como ela amassa um guardanapo distraída,
como olha a porta do bar de vez em quando talvez esperando alguém que não vem,
como respira fundo entre um gole e outro.
Ela está tentando se sentir normal.
Tentando se sentir viva.
E ele parado dentro de um carro sente um impulso estranho e primitivo de tirar ela dali, levar para um lugar seguro, longe de qualquer perigo, longe de Henry, longe do mundo inteiro, ter ela..só pra ele.
Mas não sai.
Não atravessa.
Ela precisa achar que está no controle da própria vida, ele repete para si mesmo.
Mesmo que não esteja. Ainda não.
Clarice pega uma batata, passa no molho e leva à boca devagar, olhando para fora para a rua.
Por um segundo, os olhos dela parecem cruzar com o carro onde ele está.
Oliver prende a respiração.
Mas Clarice não o vê.
Olha além, perdida nos próprios pensamentos.
Ele solta o ar, lentamente.
Não está preparado para ser visto.
Ainda não.
Então recosta no banco, sem tirar os olhos dela, enquanto o céu escurece e as luzes do bar acentuam o brilho macio do cabelo ruivo.
E ali, observando Clarice existir por conta própria, Oliver percebe uma coisa inevitável:
Ele já passou do ponto de retorno.
E Clarice nem faz ideia.