Clarice sai do bar um pouco corada pela bebida e pela noite fria.
A rua está silenciosa e iluminada por postes antigos. Ela ergue a mão e chama um táxi o movimento é rápido, quase apressado, como quem teme mudar de ideia se ficar mais um segundo ali.
Oliver observa o carro partir.
Ele liga o motor imediatamente, mantendo distância.
Corvo vem detrás, em uma moto, quase invisível nas sombras.
O táxi para diante do prédio simples onde Clarice mora.
Ela paga, agradece e desce com cuidado, ajeitando a bolsa no ombro.
O táxi vai embora, deixando a rua ainda mais quieta.
E então
Ele surge.
Da lateral do prédio, como se estivesse apenas esperando o momento exato.
Henry.
O rosto está tenso, os olhos vermelhos, respiração acelerada.
Ele parece ter corrido. Parece fora de si.
— Clarice! — ele dispara, caminhando rápido até ela.
Clarice dá um passo para trás, surpresa, o corpo imediatamente enrijecido.
— Henry? … O que você está fazendo aqui?
— O que eu estou fazendo aqui? — ele ri, um riso agressivo, quase maníaco. — Eu vi. Eu vi tudo, Clarice. Suas fotos. No bar. Sozinha. Bebendo. Fingindo que não me deve satisfações.
Ela franze a testa, confusa.
— Que fotos? Eu não postei nada. Nem tenho redes sociais.
Henry aproxima-se mais.
Clarice recua novamente.
— Ah, claro, Clarice. — Ele sorri de um jeito distorcido. — Alguém me mandou. Acha que eu sou i****a? Acha que não vão me avisar quando minha… noiva… está vagando por bares sozinha, fingindo que não tem responsabilidades?
Ela respira fundo.
— Eu não tenho nada com você, Henry. E não devo explicações a você. Eu estava apenas jantando.
Henry aperta o maxilar.
— Você acha isso certo? — a voz dele sobe — Depois de tudo que eu fiz por você? Ainda indo contra mim? Contra sua família?
Clarice tenta passar ao lado dele para entrar no prédio.
Mas Henry bloqueia o caminho com o braço.
— Você só vai entrar quando a gente terminar de conversar.
Clarice endurece o olhar.
— Henry… tira o braço. Agora.
Henry inspira fundo, o peito subindo e descendo rápido.
O tom dele muda como sempre muda como se houvesse uma chave emocional escondida dentro dele que gira sem aviso.
— Clarice… — ele diz mais baixo, os olhos marejando de um jeito teatral — eu só… eu só fiquei preocupado. Você não me atende. Não quer falar comigo. Eu te vi naquele hospital… tão frágil… eu achei que a gente tinha se entendido.
Ela aperta a bolsa entre os dedos.
— Não. A gente não se entendeu.
O silêncio pesa.
Henry engole seco.
Então, mais uma vez, a máscara quebra.
— Você está diferente — diz ele, frio. — E eu sei muito bem o motivo.
Clarice se afasta mais um passo.
O coração dela dispara.
Ela sente que ele está prestes a explodir.
E é nesse instante que, na sombra da rua, dentro do carro estacionado a poucos metros…
Oliver fecha a mão no volante com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos.
Corvo, alguns metros atrás, já coloca a mão no bolso da jaqueta, onde guarda um canivete discreto.
Eles esperam.
Calculam.
Analisam.
Clarice inspira para tentar manter o controle da própria voz.
— Henry… me deixa entrar. Eu estou cansada. Só isso , por favor.
Ele não move o braço.
E Oliver já está prestes a abrir a porta do carro.
Só mais um segundo.
Só mais um passo em falso de Henry.
E Oliver vai agir.
Sem pensar.
Sem hesitar.
Sem se importar com o que isso vai significar