O dia amanhece cinza. Não chega a chover, mas o céu pesado anuncia que nada vai ser leve dali em diante. Corvo já está acordado há horas. Não dormiu nunca dorme quando está fechando um serviço grande. A mesa improvisada está tomada por papéis impressos, anotações à mão, pen drives sem identificação e um notebook dedicado apenas à etapa final. Ele revisa tudo com frieza. Relatórios reconstruídos. Horários ajustados com cuidado cirúrgico. Registros de chamadas. Imagens fragmentadas, mas sugestivas. Testemunhos indiretos pessoas que “acham” ter visto, que “ouviram dizer”, que “lembram vagamente”. Nada é mentira completa. Nada é verdade inteira. É assim que funciona. — Se alguém cair, vai ser porque já estava no limite — murmura, mais para si do que para o silêncio do apartamento.

