Nova Realidade

1701 Palavras
Isadora A vida de cadeirante não é nada fácil, mas o que me motiva diariamente a continuar, é o apoio de todas as pessoas que me cercam, que não me deixam desistir de todas as coisas que eu preciso fazer, para poder voltar a andar. Segundo o meu médico, andar é algo que só depende de mim, e do meu empenho em fazer tudo conforme for orientado pelos profissionais que estão acompanhando a minha recuperação, então, eu estava fazendo exatamente isso, me esforçando ao máximo, dando o meu melhor. Ainda assim, o meu emocional gritava que falta alguém importante, a minha irmã gêmea. Rebeca não tinha dado notícias, não tinha tentado nenhum tipo de contato comigo, nem ao menos uma única vez. A última vez em que falei com ela foi logo após o beijo que a mídia noticiou entre o Matteo e eu, quando me ligou indignada sobre a situação e, após isso, nada mais, nem mesmo uma breve mensagem. O meu lado racional, no entanto, dizia para eu não pensar na Rebeca, esquecer que ela existe e continuar a valorizar as pessoas que estão comigo, ao invés de lamentar a ausência de quem me abandonou, sem olhar para trás ou se importar que a sua própria irmã, gêmea ainda mais, estava agora em uma cadeira de rodas. Eu estava no jardim da mansão do Gael fazia apenas alguns minutos, mas esses pensamentos conseguiram me deprimir e eu queria voltar para o interior da casa, para o conforto do meu quarto do Gael, onde todos os momentos são maravilhosos e ele só me faz sentir felicidade. Olhei em torno, em busca de Elvira, uma de minhas enfermeiras e que estava em seu turno agora, para que ela me ajudasse. A minha cadeira é elétrica, mas eu não me sentia segura para andar sozinha sobre aquele tipo de terreno, por ser instável, então eu sempre optava por chamar uma pessoa para me ajudar, quando o destino é o jardim. Mas Elvira não estava ao meu lado, percebi naquele momento, e senti uma certa aflição ao perceber isso. Ela sumiu, sem ao menos me avisar nada, e eu estava tão absorta em pensamentos, que não percebi a sua saída repentina. Procurei o meu celular, para chamar alguém que pudesse me ajudar a voltar para a casa, mas lembrei que não o havia trazido comigo, e a minha aflição aumentou, me deixando nervosa e com medo. E se a enfermeira demorar muito? E se tivesse acontecido algum problema com ela, que a fez ir embora, e me esqueceu no jardim? E se eu precisar usar o banheiro urgentemente, vou ter que fazer isso em minhas próprias roupas!? Eram tantos questionamentos que me senti zonza e enjoada, o desespero se instalando em mim e olhei por todos os lados, pensando em gritar, até que alguém conseguisse me ouvir. Mas a Almira, não estava em casa, pois tinha saído para almoçar com uma velha amiga e a Alba viajou já faz dois dias, para visitar os seus pais adotivos. Gael estava na empresa e Andrey precisou viajar para Londres no lugar do irmão, o representando em alguns negócios importantes. Eu tinha ficado sozinha com as enfermeiras, algo completamente normal, afinal, eu não aceitava que as pessoas deixassem de viver as suas vidas para me servirem de babá, não é justo. Sendo bastante justa, haviam sim, várias pessoas na casa, e claro que todas estariam dispostas a me ajudar, o problema é conseguir falar com algum deles, quando eu pedi para que a enfermeira me levasse tão longe da residência. Após alguns minutos nessa ansiedade, sem que Elvira aparecesse para me socorrer, a minha cabeça já estava criando tantos cenários calamitosa, que a minha tontura e enjôo chegavam ao ponto máximo e eu precisava colocar o meu café da manhã para fora. Tremi, o nervosismo era extremo, e decidi tomar coragem e tentar usar a cadeira mesmo naquele terreno instável, e toquei no botão que deveria levar a cadeira para frente, mas que não pareceu mover nem um milímetro dela. Apertei novamente e dessa vez com tanta força, sem me preparar para o impulso que a cadeira normalmente dava antes de começar a andar, que o meu corpo chegou a ser impulsionado para frente. — Isadora! — Ouvi a voz do Gael gritar. Apesar do enorme e ligeiro susto, eu não caí da cadeira, como cheguei a pensar que aconteceria. Gael tinha acabado de chegar ao meu lado e eu olhei para ele ainda bastante chocada, extremamente nervosa e tudo o que eu pude fazer foi estender os meus braços e pedir por seu colo. — O que aconteceu, meu amor? — ele pergunta, e percebo que também está bastante nervoso. Seus braços me envolvem e ele caminha comigo em seu colo até um dos bancos dispostos por todo o jardim. — Por que está sozinha aqui? Eu não consegui responder a primeira, e menos ainda a segunda pergunta, a minha cabeça algo enfiada na curva do seu pescoço. — Tudo bem, depois você me explica o que houve — ele concede, usando um tom mais tranquilo. Gael sabiamente percebeu que não quero falar, e ficamos apenas abraçados, a minha respiração ainda bastante descompassada, mas aos poucos foi normalizando, assim como as batidas erráticas do meu coração. Apenas quando sente que estou mais tranquila e em meu estado quase normal, Gael volta a falar. — Vim para almoçarmos juntos hoje — ele explica a sua presença em casa — Estava com saudades da minha mulher… Sinto alguns beijos em meus cabelos, mas permaneço na mesma posição, está confortável e me sinto segura, em oposição a forma como estava me sentindo antes da chegada dele. — Sei que você ficou preocupado por eu estar sozinha em casa e por esse motivo decidiu vir almoçar em casa hoje — eu digo — Não vou reclamar que tenha feito isso. Eu não gosto, nem tampouco aprovo, quando Gael desmarca a compromissos importantes apenas para não me deixar só, mesmo com o verdadeiro batalhão de funcionários em sua casa. — Não posso sentir saudades de você? — ele tenta brincar — Aliás, você não sente saudades de mim, Isadora? Sua tentativa de descontrair o clima tenso acaba funcionando e eu acho graça das suas palavras. — Tudo bem, talvez você esteja certo, pois hoje eu realmente senti a sua ausência — confesso com um sorriso. — Apenas hoje? Isso me deixa bastante triste! Lembro do que aconteceu alguns minutos atrás e o sorriso em meu rosto é apagado de maneira instantânea. Mesmo sem estarmos olhando um para o outro, Gael parece sentir isso, o que comprova o quanto temos nos aproximado nos últimos dias e a sintonia que temos. — O que houve, Isadora? — ele voltou a insistir — Por que estava aqui sozinha? Não fico irritada com a sua insistência em saber o que aconteceu, afinal, tenho plena convicção da minha condição e que preciso do auxílio de outras pessoas, pois é algo muito recente ainda, e com o qual não estou adaptada. Saí então da minha posição de conforto, olhando para ele enquanto conto todos os detalhes da cena no jardim e depois de explicar para o Gael a forma que fiquei, apenas por ter consciência de que estava sozinha, ele me olhou com uma expressão bastante preocupada e seu suspiro está carregado de irritação. — A Elvira não deveria ter deixado você sozinha aqui fora — ele diz, por fim — Se ela precisava se ausentar por qualquer motivo que seja, deveria ter comunicado a alguém da casa, ainda mais quando eu estou aqui há vários minutos e ela não voltou ainda. Por coincidência, naquele mesmo instante a Elvira apareceu, e sua expressão não indicou nenhum tipo de temor ou constrangimento ao se deparar com Gael sentado comigo no banco do jardim. — Por que deixou Isadora sozinha aqui, Elvira? — Gael pergunta de maneira abrupta. Só então a Elvira parece preocupada e seu olhar se torna assustado, pela forma como o Gael a abordou, sem ao menos a cumprimentar antes. — Gael! — o repreendo, constrangida pela atitude dele. Gael parece entender do que estou reclamando e volta atrás em seu comportamento. — Perdão pelos meus modos, mas eu estou bastante aborrecido por ter chegado e encontrado Isadora sozinha nessa parte da propriedade, onde ela ainda não consegue se locomover sem auxílio — ele explica, mas o seu tom ainda é inflexível. — Eu é que devo pedir desculpas, senhor Barros — a enfermeira admite — Eu pensei que não haveria problema algum em deixar Isadora um pouco sozinha, pois ela sempre fica aqui apenas lendo, nem ver o tempo passar, que eu imaginei que ela nem sentiria a minha falta. Eu não gostei nenhum pouco da forma com que estavam tratando a situação, como se eu não estivesse ali, e ainda pior foi a resposta da Elvira, pois eu sou uma pessoa perfeitamente capaz de perceber a ausência de alguém. Eu não disse ao Gael, mas Elvira já havia feito pequenas coisas antes, de que eu não gostei nenhum pouco, mas nunca a repreendi, pois realmente não gostava de fazer isso. Contudo, eu tampouco iria aceitar que outras pessoas sempre falassem por mim, como naquele caso. — Não entendo por que você imaginou que poderia sair e me deixar aqui sozinha, sem ao menos me comunicar que estava fazendo isso, passar todo esse tempo dentro de casa, sem que eu percebesse, Elvira — falei, tomando as minhas próprias dores e resolvendo os meus próprios problemas — Não pretendo fazer nada com relação ao que aconteceu hoje, mas espero que isso não se repita. — Não acontecerá novamente, Isadora — ela promete. Apesar das palavras, a expressão da Elvira demonstra um certo desprezo, e cheguei a pensar que é direcionado a mim, e eu não me senti bem com isso. Ouço algumas palmas, e todos se voltam em direção ao som, e sinto o coração disparar dentro do peito, ao constatar a pessoa que estava parada a alguns metros de nós. — Até que enfim você deixou de ser uma boba e está reagindo, Isadora — Surpreendentemente, essas palavras são ditas pela minha irmã gêmea.
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