Rebeca
Observo a cena à minha frente e apenas em olhar para o Gael, posso perceber o quanto ele parece diferente do homem que conheci alguns meses atrás.
Gael e Isadora estão sentados sobre um banco de pedra, no jardim bem cuidado, e somente pela forma como ele segura a mão da minha irmã, como se estivesse tocando algo frágil e extremamente delicado, demonstra o quanto os seus sentimentos mudaram com relação a ela.
Para ser bastante honesta, acredito que não foram os sentimentos do Gael que mudaram, e sim que ele decidiu assumir aquilo que sempre sentiu pela Isadora e expô-los ao mundo.
A frente do casal está uma mulher que por seu traje completamente branco e por toda a situação que tomei conhecimento, eu deduzi que se trata de uma enfermeira, a enfermeira da Isadora.
Nada disso é surpreendente, afinal, eu já sabia sobre tudo o que aconteceu, pois procurei me informar de todas as formas.
O surpreendente na cena que se desenrolava quando a governanta me levou até o jardim é a forma dura e o tom de voz inflexível com que a Isadora repreendia a sua própria enfermeira e por essa eu jamais poderia esperar.
— O que faz aqui, Rebeca? — Gael foi o primeiro dos dois a reagir a minha presença inesperada.
— Vim visitar a minha irmã — eu disse, resumindo tudo apenas nessa frase.
Quando Cinthia me contou que os nossos amigos tinham se encontrado com a Isadora jantando com Gael Barros, em um restaurante em Seattle, e que ela estava em uma cadeira de rodas, eu não soube dizer o que mais me surpreendeu, ou seria melhor dizer o que me chocou.
Mesmo considerando a Isadora uma garota boba e fraca demais, ela ainda é a minha irmã gêmea, e até pouco tempo atrás nunca havíamos nos separado realmente, fazendo quase tudo juntas.
— Você não vai dizer nada? — Cinthia perguntou, aguardando por uma reação a sua revelação.
— Confesso que estou em estado de choque — eu admiti, pois era completamente verdade.
A minha amiga sentou na poltrona vazia ao meu lado na piscina do hotel luxuoso em que estávamos instaladas, ela mesma parecendo bastante perplexa com o que acabou de saber.
— Eu entendo perfeitamente, pois também estou sem chão.
Ficamos uma ao lado da outra, em um silêncio cheio de significado, cada uma perdida em seus próprios pensamentos.
A minha irmã estava em uma cadeira de rodas? Como isso aconteceu? E principalmente, como pude estar aqui em Mônaco todo esse tempo, sem tomar conhecimento de tal fato?
O remorso começa a se instalar dentro de mim, ao lembrar de quantas ligações perdidas eu deixei passar e que até mesmo tinha deixado o número antigo de lado, passando a usar apenas o número que adquiri depois que cheguei ao pequeno e extremamente rico país.
— Você vai voltar para Seattle? — Cintia pergunta, e seu olhar dizia que aquilo era o mínimo que eu deveria fazer naquele momento.
Ela não precisava me olhar de maneira tão cheia de julgamentos, afinal, amo a minha irmã, e tudo o que sempre fiz foi priorizar a mim e as minhas necessidades, pois a minha prioridade sempre fui eu mesma.
Contudo, as coisas mudaram e agora eu precisaria mudar os rumos e seguir em uma direção totalmente diferente daquela que eu desejava, agora que o destino interferiu mais uma vez.
E não pensei nem por um minuto nos meus pretendentes riquíssimos ou nos luxos que eu estava usufruindo em Mônaco, apenas arrumei as minhas malas e embarquei no primeiro voo para os Estados Unidos que consegui encontrar.
E durante toda a viagem, busquei informações sobre a minha irmã e a sua situação, descobri sobre o acidente que ela sofreu e sobre a sua relação com Gael, que estava também no momento em que tudo aconteceu.
Tentei falar com Matteo, algo me dizia que ele tinha detalhes sobre o estado de Isadora e outras coisas que na mídia eu não consegui encontrar, mas ele não me atendeu, tampouco pude mandar mensagens, pois percebi que me encontrava bloqueada no aplicativo.
Pensei em chamar por Alba ou Andrey, nós somos irmãos, no final de tudo, mas logo voltei atrás, com a certeza de que não seria bem atendida, e nem mesmo poderia me queixar, estaria apenas recebendo aquilo que ofereci para eles.
O melhor seria então esperar até chegar frente a frente com a minha irmã e ouvir tudo diretamente dela, e prestar todo o meu apoio nesse momento, pois eu não conseguia nem mesmo imaginar como ela estaria se sentindo, sem poder fazer algo tão simples antes, mas que agora tinha se tornado impossível para ela.
Segundo as informações que colhi na imprensa, a Isadora estava paraplégica de maneira irreversível, algo que doeu profundamente em mim.
— Você pode se retirar, Elvira — Gael diz, dispensando a enfermeira e me encarando com expressão de desagrado.
Considerei o fato de ele não ter me expulsado de sua casa como mais um ponto em favor dos sentimentos que enfim ele revelou por minha irmã, e deduzi que apenas por ela, Gael não fez aquilo que eu imaginei como a primeira coisa que eu ouviria dele: me mandar embora.
As duas mulheres saíram, a enfermeira juntamente com a governanta que me levou até o jardim, e todos nos olhamos de maneira tensa, dado toda a situação, aquilo é algo que eu também já esperava.
Caminhei de maneira lenta até mais próximo do banco onde estavam Gael e Isadora, e tentei buscar a sua mão, mas ela não me deixou tocá-la, e isso sim, me surpreendeu bastante.
— Como você está, Isadora? — pergunto, sentindo o choro preso na garganta, ao notar a cadeira de rodas logo atrás de nós.
— Não que eu acredite que você se importe, mas eu estou ótima — Isadora diz, o mesmo tom que usou com a enfermeira — E você não é bem-vinda aqui, Rebeca. Quero que vá embora, e não volte mais. Afinal, eu nunca fui alguém importante para você!