Rebeca
As palavras que a minha irmã acabou de me dizer são duras, extremamente grosseiras, mas eu precisava ser realista e aceitar que elas eram também totalmente compreensíveis. Eu já aprontei muita coisa com ela, e aparentemente, a Isadora tinha caído na real e entendido que nem todos merecem o seu melhor.
Mas ainda assim, me machucaram. E a minha defesa para a dor sempre foi magoar também.
— Não precisa ser tão rude comigo, Isadora — falei, soltando a sua mão — Eu vim de Mônaco apenas para te ver, e você me trata assim?
— Você está recebendo o tratamento que merece, Rebeca — Gael toma as dores de sua amada — Então, se a Isadora não a quer aqui, você deve ir embora agora.
— Eu sou sua irmã, Isadora — Ainda tentei, mas sem apelação — Você vai mesmo me escorraçar daqui?
— Eu estou cansada das suas armações e maldades, Rebeca — Isadora agora usou um tom mais ameno, mesmo que as palavras ainda fossem grosseiras — E eu quero que vá embora.
Eu nunca imaginei que a Isadora fosse capaz de me expulsar de qualquer lugar, quanto mais na situação presente, e a surpresa com a sua atitude não foi nada agradável.
— Tudo bem — concordei, mesmo que estivesse doendo a rejeição da minha irmã — Você sabe o que é melhor para si… Então se quer ficar ao lado desse homem, e me expulsar, eu vou. Mas saiba que eu não voltarei a tentar ver você, está entendendo?
Jamais iria ficar me humilhando para alguém, quando esse alguém não tem nada para me dar. E se a Isadora prefere assim, então que assim seja.
— Agora eu só tenho um lado, que é o meu lado, Rebeca — Isadora rebate as minhas palavras — E Gael me faz bem e ficou comigo quando mais precisei, exatamente o oposto do que você fez.
Respirei com dificuldade, a raiva junto com a frustração tomando conta do meu ser e me deixando com as emoções à flor da pele. É melhor ir logo embora mesmo.
— Tudo bem. Estou indo embora sim, mas com a certeza de que tentei fazer a minha parte.
Estava já dando as costas para o casalzinho, e ainda ouvi as palavras da minha irmã dizendo baixinho.
— Você veio tarde demais.
Acredito que foi mais para si mesma do que para mim aquela sua sentença, ainda assim, eu pensei em revidar, em dizer que eu vim o mais rápido que pude, que eu só soube agora de tudo o que aconteceu.
Mas se ela não quer ouvir a minha explicação, se ela não quer saber o que aconteceu para que eu não tivesse vindo antes, não seria eu a insistir para contar a verdade dos fatos.
Eles estavam me julgando, então que julgassem! Eu não iria rastejar por perdão.
Caminhei para a saída sem nem mesmo olhar para trás, e quando cheguei no hall de entrada, me deparei com a Almira, que estava entrando em casa sorridente, e logo me veio a lembrança da mulher perturbada e depressiva que encontrei alguns meses atrás naquela mesma casa.
Encontrar os filhos perdidos a deixou muito diferente da mulher de antes e deu um ar completamente distinto e de felicidade na sua vida.
No final das contas, eu precisei ficar feliz que a minha mãe não estava mais para presenciar a alegria daquela mulher e dos filhos que teve com o meu pai.
— Rebeca!? — ela falou alarmada, sem disfarçar nenhum pouco o espanto por me ver.
— Eu mesma — respondi com cinismo.
Não quero que ela perceba o quanto a atitude da Isadora me afetou e o quanto estou triste com isso.
— O que está fazendo aqui?
— Pretendia fazer uma visita social para a minha irmã — expliquei ainda no mesmo tom de antes — Mas parece que não sou bem vinda nesta casa.
— Porque diz isso? — Almira parece confusa com a informação — Aconteceu alguma coisa? Você estava com a minha nora?
— Ah, então ela é sua nora? — Estou sendo irônica.
— Porque você age dessa forma, Rebeca? — Almira muda o tom — Porque não pode simplesmente deixar o passado para trás e recomeçar ao lado dos seus irmãos?
— Eu só tenho uma irmã, ela se chama Isadora — Eu a corrigi de maneira rude — E pelo que ela acabou de me falar no jardim, talvez nem mesmo esse irmã eu tenho.
Não fiquei para prolongar a conversa ou dar maiores explicações. Estava de saco cheio de tudo isso. Esse blá blá blá infinito, de irmãos e família, já estava me dando nos nervos.
Caminhei até o carro que eu tinha alugado no aeroporto e quando já estava saindo da residência imponente de Gael Barros, me perguntei para onde eu iria agora.
Voltar para o meu apartamento estava fora de questão, afinal, eu o tinha alugado com contrato de seis meses e estes ainda não tinham chegado ao fim.
Ainda tinha algum dinheiro guardado, não era muito, mas o suficiente para conseguir me manter por no máximo mais duas semanas, então considerei procurar um hotel barato, afinal, todos em Seattle sabiam da minha condição financeira mesmo e não adiantava fingir que estava bem de vida, quando eu poderia ser facilmente desmascarada por qualquer pessoa mais bem informada.
Então para quê tentar ostentar uma vida de herdeira rica aqui? Não iria gastar minhas cartas de maneira tão i****a assim.
Voltar para Mônaco agora era uma boa saída, afinal, eu tentei mostrar para a Isadora que vim para apoiá-la, mas como não fui bem recebida, porque ficaria perdendo o meu tempo em Seattle? Pelo menos em Mônaco eu estava firmando alguns contatos importantes e tinha até mesmo dois pretendentes importantes.
Talvez se eu voltasse para lá e insistisse mais, conseguiria que algum deles me pedisse em casamento nos próximos dias.
Enquanto pensava sobre as minhas possibilidades para o futuro, procurei um hotel de valor mais acessível e depois de fazer check in, já no quarto modesto, mas limpo e organizado, eu deitei na cama e fiquei olhando para o teto, os pensamentos ainda girando de maneira confusa na minha mente.
Mas a todo momento, eu via a Isadora frágil nos braços do Gael, mas ao mesmo tempo demonstrando estar forte para falar por si mesma, mesmo que a sua cadeira de rodas estivesse bem ali, ao lado do banco.
E mesmo sem querer deixar-me dominar pelas emoções, novamente as lágrimas tomaram os meus olhos, e dessa vez, escaparam por meu rosto de maneira incessante e contínua.