Pré-visualização gratuita A Garota da Janela
A janela do quarto de Catarina era pequena, com vidros levemente trincados e cortinas brancas amareladas pelo tempo. Ainda assim, era dali que ela enxergava o mundo — ou pelo menos, o pedaço dele que mais a fazia sonhar.
Todas as tardes, quando o sol começava a cair, ela se sentava na velha poltrona encostada no canto e observava. Seus olhos corriam pelas árvores do quintal, pelo muro alto da casa ao lado e, principalmente, pela movimentação na varanda dos Montez — a mansão moderna e imponente que ocupava o centro do bairro como se fosse dona de tudo ao redor.
Era ali que ele aparecia. Brany Montez.
Alto, cabelos castanho-claros desordenados com perfeição, sorriso de canto e uma confiança que parecia natural demais para alguém com apenas 19 anos. Era o tipo de homem que fazia as mulheres rirem alto, colocarem as mãos no cabelo, usarem maquiagem para ir até a calçada. Um imã de olhares. Um perigo ambulante.
Catarina, com seus 18 recém-completados, não se achava especial. Cursava o primeiro semestre de Direito em uma faculdade pública, dividia a casa simples com a mãe costureira e vivia entre livros, roupas lavadas à mão e sonhos engolidos em silêncio.
Mas todas as noites, quando a varanda dos Montez se acendia e Brany surgia com o violão nas mãos, uma parte dela acreditava que poderia ser vista. Que, de alguma forma, ele saberia que havia uma garota ali, atrás da janela, com o coração nas mãos e o peito cheio de vontade.
E ele sabia.
O que Catarina não imaginava é que, há meses, Brany também olhava. Só que da varanda, em silêncio, quase como um jogo. Às vezes, seus olhos encontravam os dela por um segundo, e ele sorria como se soubesse de algo que ela não sabia. Depois, voltava à sua roda de amigos, ou às garotas que riam alto, disputando quem ganhava mais atenção.
Naquela noite de sexta-feira, tudo mudou.
— Mãe, vou sair com a Nanda — disse Catarina, ajeitando o cabelo solto e vestindo o vestido azul que escondia seus ombros magros.
— Vai pra onde? — a mãe perguntou, desconfiada. — Essa tal Nanda vive enfiada em festa.
— Só um encontro rápido. Juro que volto cedo — ela mentiu, nervosa por dentro.
Na verdade, Nanda havia conseguido o impossível: dois convites para uma das famosas festas dos Montez. Catarina hesitou, claro. Sabia que não pertencia àquele mundo. Mas também sabia que, se não fosse, nunca teria outra chance.
Às nove em ponto, atravessaram o portão lateral da mansão, onde uma música vibrante já preenchia o ar. Havia luzes coloridas no jardim, garçons circulando com taças, garotas com vestidos curtos e saltos altíssimos. Era outro planeta.
E ele estava ali. No topo da escada, rindo com um copo na mão.
Brany.
Quando os olhos dele encontraram os dela, Catarina congelou. Ele a viu. A reconheceu. E sorriu. Um sorriso demorado, interessado, calculado. Como se finalmente tivesse entendido o que fazer com aquela garota da janela.
— Você chamou atenção dele — sussurrou Nanda, quase eufórica.
— Não viaja.
— Ele está descendo. Meu Deus, Cat... ele vem pra cá!
E veio.
Brany atravessou a pista de dança sem pressa, como quem sabe que pode tudo. Parou diante dela e estendeu a mão.
— Quer dançar?
Catarina piscou, sem reação. Seu coração disparou, sua garganta travou.
— Eu... não sei dançar muito bem.
— Sorte a minha. Assim posso te conduzir.
Ela aceitou a mão dele. Sentiu a pele quente, firme. O cheiro amadeirado do perfume. E deixou-se levar.
Dançaram uma música lenta. Depois outra. E, sem perceber, estavam sozinhos na lateral do jardim, perto da piscina iluminada. A voz dele era suave, envolvente. Falava de coisas aleatórias: a faculdade, os livros que ela gostava, a janela pela qual ele a via todas as noites.
— Eu sempre soube que você me olhava, Catarina — disse ele, olhando em seus olhos.
Ela corou.
— E você não se importava?
— Pelo contrário. Achava... excitante.
E então ele a beijou.
Foi o primeiro beijo da vida dela. Inseguro no início, mas cheio de entrega. Quando ele encostou a mão em sua cintura e a puxou para mais perto, Catarina sentiu como se estivesse vivendo um conto de fadas. E quando ele sussurrou em seu ouvido: “Vamos sair daqui?”, ela nem pensou duas vezes.
Subiram até o segundo andar. O quarto dele era amplo, moderno, cheio de troféus e objetos de um garoto que sempre teve tudo. E foi ali, entre beijos apressados e mãos tremendo, que Catarina entregou o que tinha guardado por tanto tempo. A virgindade. O coração. A esperança.
Naquela madrugada, ela dormiu em seus braços. Acreditando que, enfim, o amor tinha acontecido. Que era real.
Mas pela manhã, tudo desmoronou.
Ela acordou sozinha na cama. O som de risadas masculinas ecoava do andar de baixo. Catarina vestiu o vestido azul às pressas e desceu, procurando Brany.
O encontrou na varanda com três amigos, todos rindo alto. Ele segurava uma garrafa de cerveja e contava algo, teatralmente, enquanto os outros gargalhavam.
— A garota? A da janela? Caiu feito patinho — ele dizia. — Acredita que ainda chorou depois? Fofo, né?
O mundo parou.
Catarina sentiu como se o chão se abrisse. Os olhos dele encontraram os dela por um instante. Ele congelou. Depois, desviou. Como se ela fosse invisível. Ou pior: incômoda.
Ela correu. Saiu pelos fundos. Chorou pelo bairro inteiro até chegar em casa. E quando a mãe perguntou o que havia acontecido, ela apenas disse:
— Cansei. Quero ir embora daqui.
E foi.
Deixou tudo. A faculdade, os vizinhos, a janela. Enterrou aquela garota que acreditava em olhares e promessas. E começou do zero.
Cinco anos se passaram.
E agora, aos 23, Catarina entrava de salto alto e blazer de alfaiataria nas portas espelhadas da Montez Corporation, carregando um currículo impecável e um novo sobrenome: Catarina Vasconcelos, gerente executiva sênior enviada pela holding de investimentos da qual agora fazia parte.
Ela não era mais a menina da janela.
E estava prestes a mostrar isso a Brany Montez.