Sem pista do remetente

2120 Palavras
Termino de ler a carta e fico olhando pra ela, como se a qualquer momento ela fosse falar o nome do remetente. Olho novamente o envelope, procurando alguma coisa que denuncie a pessoa que me escreveu, mas não há nada. Uma curiosidade me domina. Quero saber quem me conhece tão bem e fala comigo como se soubesse todos os meus problemas. Várias perguntas passam por minha cabeça. Como ele descobriu onde estou? E por que só agora resolveu me procurar? Volto a ler a carta, agora me apegando a cada detalhe. Procuro em minhas memórias todos os garotos com quem saí e não vem nada ha minha mente. As poucas festas que eu me lembro, eu estava na companhia de Diogo... Ai meu Deus, será que é algum de seus amigos? Largo a carta em cima da cama e vou até a sala de André falar com ele. Bato na porta e espero alguém autorizar a entrada. A porta se abre e uma senhora loura baixinha e rechonchuda me oferece um sorriso. - Pois não Ivy? - Eu queria falar com André, será que ele pode me atender? - Estamos em reunião. É algo urgente ou pode esperar um pouco? - Não, eu só queria lhe fazer uma pergunta, mas posso esperar até ele ter tempo. Obrigada Rosa, vou voltar para o meu quarto. – Agradeço e faço o caminho de volta para meu quarto. Pego a carta, devolvo para o envelope e coloco dentro da gaveta do criado mudo que está colado à minha cama. Não quero saber da carta, pelo menos até falar com André. O medo que algum dos amigos de Diogo tenha me escrevido me apavora. Estou a quase dois meses sem grandes crises de abstinência. Quando sinto que vou pirar com a vontade de ter algum tipo de d***a, procuro André e juntos bolamos alguma coisa que mantenha minha mente ocupada. Há dias que a vontade é tão louca, que chego a pensar que não vou conseguir. Fico em uma ansiedade louca e começo a caminhar de um lado para o outro no meu quarto. Minhas lembranças me torturam e tenho uma vontade louca de sair correndo e me esconder no primeiro lugar escuro que encontrar. Nas reuniões conversamos sobre essas vontades que ainda temos e as dificuldades para nos controlar. Sinto-me aliviada quando percebo que não sou a única a passar por isso. Balanço a cabeça, tentando espantar os pensamentos negativos que tentam me assombrar. Fecho a porta do criado e volto a me sentar na cama. As palavras do misterioso remetente ficam martelando na minha cabeça... Sei que não deve estar tão fácil assim para você depois de tudo o que passou nas mãos do Diogo. Como ele sabe do meu sofrimento? E até onde ele me conhece para ter a liberdade de me escrever? E por que me mandar uma carta? Algo tão ultrapassado? Minhas mãos coçam para pegar a carta novamente, mas estou decidida a falar com André antes. Levanto-me e vou para o banheiro tomar banho. O jantar vai ser servido às vinte horas. Pontualmente. Uma das regras que demorei a me acostumar. Depois do jantar, ficamos mais meia hora conversando e depois voltamos para nossos quartos. Nas outras noites, eu demoro a dormir, mas hoje é sexta. Amanhã é dia de visita, e seguindo a agenda que Belinda fez, é sua vez de vir me visitar. Fizemos uma lista de revezamento, já que não posso receber minha família e meus amigos ao mesmo tempo. Temos apenas duas horas semanalmente para receber visitas, e eu aproveito até o último minuto. Depois do banho, coloco um vestido confortável, desses que mais parecem um pijama. Não preciso me preocupar em chamar atenção dos garotos. Aqui estou tentando aprender que mais é menos. Roberta passa no meu quarto e seguimos juntas para o refeitório. Ela confessa que também está ansiosa pela visita de amanhã. É a vez do seu namorado vir visitá-la. Acho bonito da parte dele ficar ao lado dela nessa fase de reencontro. - Oi meninas, e aí, ansiosas pela visita? – Gustavo senta do meu lado e apoia sua cabeça sobre sua mão para ter uma visão de nós duas. - Sempre fico tensa quando é a vez de Paulo vir me visitar... - Tensa? Por qual motivo? – Pergunto. - Sempre tenho a impressão que ele vai se dar conta que ficar comigo é tempo perdido. – Fala com uma voz um pouco carregada de tristeza. - Você não deveria nem perder tempo se preocupando com isso. Paulo sempre vai vir enquanto estiver aqui. Só alguém que ama de verdade enfrentaria sua própria família para ficar com você. Roberta uma vez me confessou que Paulo estava tendo problemas com a família por estar apoiando ela em sua recuperação. - Sou mesmo uma garota de sorte, não sou? – Disse rindo e mudando de assunto. – Quem vai vir te visitar amanhã Ivy? - Minha amiga Belinda. Semana que vem é a vez da Nanda. - Você bem que poderia pedir para cantar um pouco com a gente. Você fala tanto que ela arrasa cantando. - Seria maravilhoso. Poderíamos juntar todo mundo e ficar somente a ouvindo cantar. – Gustavo sugeriu. - Não garanto que ela vai querer, Nanda está sentindo muito a falta do Nick... - O namorado? Aquele que se jogou na frente dela e levou o tiro? – Perguntou Gustavo. - Ele mesmo. O pai de Nick achou que levando ela para o exterior, ele teria os melhores tratamentos... Nanda está arrasada, mesmo colocando uma máscara de ferro quando vem me visitar consigo perceber sua tristeza. Sinto-me tão culpada por ela estar passando por isso, afinal, tudo aconteceu por que Nanda tentou me ajudar. - Você não pode se culpar... Não foi você quem atirou... Você foi tão vítima quanto eles. - Roberta tem razão Ivy... Aqui todos somos vítimas. Trocamos um olhar de conforto. - Agora vamos esquecer essas histórias depressivas e vamos comer. Estou com a fome de dez leões. Quando Gustavo começa a falar que está faminto, sempre caímos nas gargalhadas. Ele come como um monstro, e juro que não sei onde toda a comida vai parar. Ele tem porte atlético e parece com Nick, pelo menos fisicamente. Eu e Roberta apenas beliscamos nosso jantar. Nem me incomodo em comer, por que sei que André irá traficar um doce na cozinha e levar para o meu quarto. Mais tarde, depois de já está no meu quarto, fico parada olhando para a minha gaveta. As palavrinhas ficam martelando na minha cabeça... “... Quero ser pra você exatamente o que precisar..." Como posso querer um amigo, ou um confidente sem nem ao menos conhecê-lo? Fico com as dúvidas martelando em minha cabeça, e só sou despertada quando ouço a porta abrir. É André. - Rosa disse que você queria falar comigo. Está tendo uma nova crise? - Não. Queria falar sobre a carta... - O que tem ela? Ainda não leu? – Perguntou erguendo uma sobrancelha. - Eu a li... - É de alguém que conhece? - Não faço a mínima ideia quem me escreveu. Mas ele me conhece, e acho que me conhece bem até demais... Ele sabe sobre o Diogo... - E isso está te deixando apavorada? – Questiona. - Apavorada não é bem a palavras... Assustada cairia melhor. É estranho explicar, saber que alguém, que pode ser do círculo de amizade de Diogo resolveu de repente me escrever... E se esse cara misterioso estiver... Sei lá André... Estou meio confusa... - O que está escrito na carta? É algo que possa compartilhar comigo? - Ele meio que se declarou... – Falo abrindo a gaveta e pegando a carta. – Pode ler, eu preciso de uma luz... André segura o envelope e depois de ter certeza que eu estava certa que ele poderia ler, tira a carta e começa a ler. Fico olhando seu olhar passear pelas linhas impaciente com seu silêncio. Ao terminar, ele guarda a carta e me entrega o envelope. - E então? - Quer realmente ouvir minha opinião? - Claro. Por isso deixei você ler. – Falei um pouco apreensiva. André aproxima-se e segura minha mão. - Ivy, você é uma garota decidida e que não tem medo de nada... - Foi por não ter medo que acabei aqui... Fui uma fraca... - Isso não é verdade... Você apenas quis pegar um desvio... A garota que entrou aqui não é a mesma que estou vendo agora. Está aprendendo a viver, ouvir e aos poucos vai saber escolher o caminho certo... Esse cara conhece a Ivy antiga, agora ele precisa conhecer a fênix que ela virou... Por que não dar uma chance? - Mas e se... - Essa palavra "se" pode significar tantas coisas... Arrisque um pouco... O que pode acontecer de tão r**m? André faz um carinho na minha mão e depois a solta. - Trouxe um pedaço de pudim para adoçar sua noite. – Disse voltando até uma pequena mesa colocada na entrada da porta e pega uma pequena embalagem coberta com guardanapo. André desembrulha e eu quase corro para pegar o prato descartável. Eu adquiri um gosto enorme por pudim desde que cheguei aqui... A cozinheira que cuida da nossa alimentação tem mãos abençoadas, e tudo que ela faz fica divino. - Cuidado para não te pegarem... E se isso acontecer... - Eu já sei... Eu entrei sorrateiramente na cozinha e roubei uma fatia. – Falo repetindo a frase que já falei mil vezes. Nós rimos e André me dá um beijo na testa. - Boa noite minha linda. E pense no que eu te falei. Quando ele sai do quarto, eu sento cama e em segundos devoro a fatia de pudim. Escondo o prato descartável debaixo da cama. Só tenho que me lembrar de jogar fora na primeira oportunidade que tiver na manhã seguinte. Pego o envelope e olho por mais algum tempo, ainda me decidindo o que fazer. De um lado a curiosidade por saber quem é esse garoto que declara seu amor de um jeito tão meigo e sincero. Do outro, o medo que ao responder, eu esteja voltando a caminhar para trás. Ao fim, acabo desistindo e r***o a envelope ao meio e vou até a lixeira para jogar fora. Não quero ter nada que me lembre meu passado, nem mesmo por carta. Tomo um banho rápido, visto meu pijama e vou para a cama. Passo pelo interruptor e apago a luz antes de me deitar. Cubro-me até metade da cintura e tento dormir. O sono nesse momento se torna meu inimigo e resolve passear. Fico olhando para o teto, pensando que em algum momento uma imagem de carneirinhos irá aparecer pulando a cerca. É muita falta do que fazer mesmo para estar pensando essas besteiras. Uma leve claridade entra pela a******a da cortina do meu quarto. E por incrível que pareça, ela vai direto para cesta de lixo. Fico olhando para ela, e parece que a cesta quer falar alguma coisa. Bufo e jogo o edredom para o lado e me levanto da cama. Minha curiosidade fala mais alto e vou até a lixeira e pego as duas metades do envelope. Ligo a luz novamente e volto para minha cama. Retiro as duas metades e coloco em cima do criado mudo. Abro a segunda gaveta e pego meu caderno e minha caneta. Aponto a caneta para a linha e fico pensando no que escrever. - Estranho.... – Falo enquanto escrevo a palavra. E paro nessa palavra. Não sei o que escrever, por que não sei como tratar uma pessoa que não conheço. Apenas tem o endereço de envio, sem o nome. A carta vem de longe, Manaus. E logo vem outra pergunta, por que ele está tão longe? Leio mais uma vez a carta para tentar pela última vez encontrar uma dica. Em vão. Não há nada. Mas admito que suas palavras me tocaram. De alguma forma, ele viu uma Ivy que até eu mesma desconhecia. Sempre pensei que só Diogo me conhecia de verdade, mas de longe, alguém estava me observando e se manteve em segredo por um longo tempo. Minha curiosidade por saber a identidade deste estranho que prefere se esconder através de um papel faz com que eu esqueça por um momento meus medos e comece a escrever. Não quero alimentar ilusão, nem para ele e nem para mim. Estou em um momento de descoberta, e essa garota que ele descreveu, infelizmente não sou eu. Ainda confusa sobre o que vou falar e como vou começar a escrever, volto a pegar meu caderno e fico olhando para a folha em branco. Respiro fundo e começo a escrever.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR