Iris González
O dia estava cinza quando eu entrei no restaurante, a luz suave e tímida da manhã m*l iluminava o ambiente. Eu não sentia vontade de falar com ninguém, e parecia que as palavras estavam presas na minha garganta, como se não houvesse mais espaço para elas. Olheiras profundas me denunciavam o quanto a noite anterior havia sido difícil. A insônia, que me fazia virar e revirar na cama, pensando em Domenico, não me deu trégua. A chuva forte que caía lá fora parecia refletir exatamente o que se passava em minha mente: um turbilhão de pensamentos e sentimentos que não consegui organizar.
Eu tentei me concentrar no trabalho. As mesas estavam cheias, e eu precisava dar o meu melhor. Cada pedido, cada sorriso parecia uma fachada. Eu estava agindo no automático, mas por dentro era como se minha mente estivesse em outro lugar. As palavras que os clientes diziam, os pedidos que faziam, soavam como um murmúrio distante. Meus olhos percorriam o ambiente, e, por mais que tentasse, era impossível não lembrar dele.
Domenico estava em cada pensamento, em cada pausa que eu dava, e, mesmo quando tentava me forçar a pensar em outra coisa, ele voltava. Seus olhos escuros, sua voz grave, seu toque leve, quase como se ele soubesse exatamente como se aproximar de mim.
Eu respirei fundo, tentando me concentrar no que estava à minha frente, mas tudo parecia uma tela embaçada. Quando alguém me perguntava algo, eu respondia automaticamente, sem realmente processar o que estava dizendo. Meu coração estava pesado, e a saudade de Domenico parecia um peso físico. Eu não sabia exatamente o que ele significava para mim, mas havia algo nele que mexia comigo, algo que não podia ser ignorado.
O dia passou arrastado. Eu via o relógio, mas as horas pareciam se arrastar como um rio lento, sem pressa de chegar ao fim. Quando finalmente a hora de sair chegou, um alívio inesperado se espalhou por mim. Eu sabia que precisava sair dali, precisava de um momento sozinha, mas, ao mesmo tempo, uma sensação de vazio me tomou. Eu já estava acostumada a sair e ir para casa, mas, naquele momento, parecia que algo faltava. Algo que, por algum motivo, sempre foi parte de mim, mas que agora estava ausente.
Eu fui até o vestiário, arrumei minha mochila e saí pela porta do restaurante. O ar frio da tarde me atingiu em cheio, mas nem isso conseguiu me despertar do torpor que estava me consumindo. Sem pensar, olhei para os lados, quase como se esperasse encontrar Domenico ali, esperando por mim. Mas ele não estava. E aquela ausência, de repente, me apertou de forma quase insuportável. Ele não estava ali, e a certeza disso parecia me envolver como uma névoa densa.
Caminhei em direção ao ponto de ônibus, sozinha. Algo que, ao longo dos últimos meses, não acontecia mais. Quando cheguei à Itália, havia um medo em mim, uma vontade de não me perder naquele novo mundo, de não me deixar consumir pela solidão. Mas, de algum modo, Domenico foi entrando na minha vida, e não foi só ele. Tudo mudou de uma maneira que eu não imaginava, mas agora parecia que eu estava dando um passo para trás.
Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, mas a ausência dele me fazia sentir uma dor que eu não conseguia descrever. No começo, eu pensei que fosse uma simples atração, uma curiosidade sobre alguém tão diferente de tudo o que eu conhecia. Mas agora, tudo era mais complexo. Eu estava sentindo algo que não esperava, e isso me assustava. Caminhar sozinha até o ponto de ônibus, sem a presença de Domenico, me fazia perceber o quanto ele já tinha tomado conta dos meus pensamentos. Eu já não me via mais sem ele, mesmo que não soubesse o que isso significava.
O ônibus chegou, e eu entrei, ocupando um dos últimos assentos, como sempre fazia. A viagem até a quitinete parecia interminável, e eu fiquei observando a paisagem pela janela. O céu estava nublado, com nuvens pesadas que pareciam acompanhar o peso do meu coração. O que eu estava fazendo aqui? O que eu esperava dessa vida? Eu estava em busca de uma vida melhor para minha família, mas será que eu estava esquecendo de algo importante? Estava esquecendo de mim mesma?
Quando o ônibus finalmente parou, eu desci e caminhei até o lugar que podia chamar de casa. O som dos meus passos ecoava pelas ruas silenciosas, e, mesmo com a certeza de que estava em casa, a sensação de vazio não passava. Eu precisava de um tempo para processar tudo isso, mas ao mesmo tempo, a urgência de entender o que estava acontecendo comigo me consumia. Eu estava dividida entre o que queria para minha vida e o que parecia ser o certo a fazer.
Ao chegar, entrei rapidamente, como se o tempo fosse algo que eu não queria perder. Tirei os sapatos, deixei a bolsa sobre a mesa e fui direto para o banheiro. A água quente do chuveiro me envolveu e, por um breve momento, senti o corpo relaxando. Mas a mente estava agitada. Quando saí, me vesti com um pijama simples, aquele que eu sempre usava nos dias mais tranquilos. O dia lá fora estava nublado, e eu senti que o tempo parecia refletir meu estado de espírito. Nada estava claro, tudo estava em um tom cinza que não fazia sentido.
Eu me sentei na cama, olhando para o celular que estava em minhas mãos. A tela brilhava suavemente, e, sem pensar, abri a galeria de fotos. Passei os dedos pela tela, olhando as imagens que estavam ali. Cada uma delas trazia uma sensação diferente, um fragmento de mim mesma.
A saudade da minha família, que agora parecia estar mais distante do que nunca. Eu senti falta deles, de casa, de tudo o que conhecia. Mas, ao mesmo tempo, havia algo mais forte, algo que eu não sabia como explicar. A vontade de estar com Domenico. A sensação de estar em um lugar que não era totalmente meu, mas que ele estava me ajudando a entender.
Passei para a próxima foto. Era uma imagem de mim sozinha, sorrindo para a câmera. O sorriso parecia forçado, como se eu estivesse tentando me convencer de algo. Quando foi a última vez que eu realmente fiz algo por mim mesma? Quando foi a última vez que eu me permiti ser feliz? Olhei para aquela foto e não sabia a resposta. Eu tinha vivido tanto para os outros, tentando ajudar minha família, tentando melhorar nossa vida, que havia me esquecido de mim. Me esquecido de sentir, de viver.
Deslizei a tela novamente e, dessa vez, a foto era do jantar com Domenico. A lembrança daquele momento me invadiu como um sopro de ar fresco. Eu sorria, genuinamente, ao seu lado. Eu estava feliz. A felicidade era nítida em meu olhar, e a imagem parecia viva, como se, ao olhar para ela, eu pudesse sentir novamente o calor daquele momento. Mas, ao mesmo tempo, uma sensação de perda se misturava a essa felicidade. Por que, agora, eu me sentia tão distante de tudo aquilo?
A resposta me parecia clara, mas eu não queria admiti-la. Domenico era parte do que me fazia feliz. E, no entanto, havia tanto medo. Medo de me entregar, medo de me perder em algo que não sabia se seria duradouro. Mas, por mais que eu tentasse negar, eu sabia que algo tinha mudado dentro de mim.
Era estranho, mas naquele momento, senti que precisava dar um passo à frente. Eu merecia ser feliz. Não poderia continuar vivendo para os outros, ou deixando o medo dominar cada escolha que eu tomava. Olhei para a foto de Domenico e, pela primeira vez, não senti medo. Só senti uma vontade de ser sincera comigo mesma.
Peguei o celular e, com os dedos tremendo levemente, disquei o número dele. Cada toque na tela parecia mais pesado, mais ansioso. O telefone tocou algumas vezes, e minha respiração se acelerou. Quando a voz de Domenico finalmente soou do outro lado da linha, meu coração deu um salto. Eu senti um alívio instantâneo, como se finalmente tivesse encontrado o que buscava. A saudade e a dúvida se dissiparam, e algo dentro de mim se acalmou.
— Iris? — A voz dele parecia tão reconfortante que, por um momento, tudo o que eu precisava era ouvir aquilo.
Eu respirei fundo, sentindo a tensão se desfazer. Eu não sabia o que o futuro nos reservava, mas, naquele instante, eu estava disposta a viver o que fosse, ao lado dele.