Domenico Ricci
A chuva caía lá fora, mais forte agora, batendo contra as janelas com o ritmo de algo que, de alguma forma, parecia mais pesado do que uma simples tempestade.
Eu estava sozinho, sentado em um dos sofás do meu apartamento com uma garrafa de uísque em minhas mãos e a mente em um turbilhão. A bebida já ia pela metade, mas não fazia diferença, porque, por mais que eu tentasse me distrair, meus pensamentos voltavam sempre ao mesmo lugar. Àqueles olhos claros, ao sorriso tímido, ao toque suave de Iris. Eu não conseguia parar de pensar nela.
A sensação de que estava perdendo algo, ou alguém, de uma forma irreversível, me consumia. Eu sabia que, no fundo, ela tinha ficado assustada com tudo o que eu disse. Eu tinha sido brutalmente honesto com ela, contando quem eu realmente era. Talvez até demais, mas não podia omitir. Não mais. O pior é que, enquanto ela reagia, eu percebia a luta interna dela. O olhar de confusão e o medo que ela tentava esconder, mas que estavam ali, bem à vista. O que eu faria agora?
A ideia de perdê-la estava me sufocando. Eu queria correr até ela, pedir desculpas, tentar explicar melhor tudo, mas tinha medo de afastá-la ainda mais. Eu não sabia o que fazer. Então, num impulso, peguei o telefone e discquei o número de Damiano. Ele sempre soubera me dar conselhos, mesmo que de forma áspera e direta. E naquele momento, era exatamente o que eu precisava. Alguém que me puxasse para a realidade e me fizesse ver com clareza.
O telefone tocou algumas vezes até que, finalmente, Damiano atendeu, com aquele tom de voz que só ele sabia ter, misturando autoridade e uma certa suavidade que apenas ele, como irmão mais velho, conseguia transmitir.
— Domenico, o que houve? Está tudo bem? — Ele perguntou, a preocupação ainda assim aparente em sua voz.
Respirei fundo antes de responder. Não sabia nem por onde começar, mas era preciso.
— Eu… Eu preciso de ajuda, Dam. Não sei o que fazer. Eu… Falei tudo para Iris, e agora estou com medo de tê-la perdido. O que eu faço?
Houve um silêncio do outro lado da linha. Eu podia ouvir o som de algo ao fundo, como se Damiano estivesse ocupado com alguma coisa. Não me importei, porque estava desesperado por respostas.
Ele demorou um pouco, como se estivesse ponderando o que dizer. Quando falou novamente, sua voz estava mais calma, mas firme.
— Nico, calma. Não faça nada impulsivo. Iris… Ela está assustada. Você se abriu demais com ela de uma vez só. Ela precisa de tempo para processar tudo isso. A reação dela não é nada pessoal. Você só precisa dar espaço a ela. Não a pressione.
Eu sabia que Damiano estava certo, mas, ainda assim, não conseguia afastar o medo de perder Iris. Eu não conseguia deixar de imaginar o que ela estava sentindo.
O som de um choro de bebê preencheu o silêncio por um momento. Eu não sabia se Damiano tinha notado, mas ele ficou quieto, ouvindo aquilo.
— Isso é… isso é o Nicolas? — Perguntei, tentando mudar de assunto, já que o choro estava começando a me distrair.
Damiano deu uma risada baixa. Ele parecia irritado, mas também divertido.
— É, é o Nicolas. E ele não está exatamente feliz no momento. — Ele pausou. — Me desculpa, é que ele quer morder minha orelha. — Solta Nicolas — disse baixo.
Escutei um leve resmungo que se transformou em um choro irritado. Não pude deixar de sorrir. Mesmo com a responsabilidade de ser o capo, Damiano ainda era o pai carinhoso de Nicolas. Ele era tão diferente agora.
Logo depois, ele voltou a falar, já com uma voz mais tranquila, mas sem perder o tom de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
— O que eu estava dizendo? — perguntou para si mesmo — Mamma mia, estou ficando velho… — segurei o riso — Ah, lembrei. Iris provavelmente vai precisar de um tempo, Domenico. Não é algo fácil de aceitar. Você a puxou para um mundo que ela não conhecia. Lembre-se, ela foi até aí para mudar a vida dela, e agora está diante de algo que ela nunca imaginou. Não se sinta culpado, mas também não force nada. Tudo o que você pode fazer é dar tempo. Ela vai entender, mas precisa de espaço.
Eu sabia que Damiano tinha razão. Eu não poderia forçar Iris a aceitar tudo de uma vez. Mas isso não tirava a dor no peito, a incerteza que me consumia. A ideia de vê-la se afastar, ainda que fosse uma reação natural, parecia me partir de dentro para fora.
— Eu só não sei se consigo ficar longe dela. — Disse, a voz baixa. — Eu me sinto perdido, Damiano. O que eu… o que eu vou fazer se ela nunca mais quiser me ver?
Damiano suspirou profundamente, agora com um tom de voz mais grave, como se estivesse me orientando.
— Domenico, você não pode prever o futuro, mas você precisa acreditar nela. Se você realmente a ama, dê o tempo que ela precisa. E não se esqueça, você jamais faria m*l a ela, certo?
Eu me vi ali, olhando pela janela, a chuva agora mais forte, quase como se ela estivesse lavando todos os meus medos. E então, com as palavras de Damiano ecoando na minha cabeça, algo dentro de mim se acalmou, nem que fosse por um segundo. Eu sabia que precisava esperar, mas ao mesmo tempo, tinha a sensação de que isso não poderia ser mais difícil.
— É, você está certo. Eu preciso esperar. — Eu disse, me permitindo relaxar um pouco. — Obrigado, Damiano. Você sempre sabe o que dizer.
Damiano riu baixinho.
— Eu sou seu irmão, Domenico. Isso é o que eu faço. Agora, vou ter que ir antes que a próxima vítima dessas mãozinhas seja meu nariz. Relaxa, irmão, tudo vai se ajeitar.
— Eu vou tentar. — Respondi, minha voz agora mais calma, mas ainda com um fundo de preocupação.
— Faça isso. E lembra, não se culpe. Isso vai passar. — Ele disse antes de desligar.
Fiquei ali, parado por alguns segundos, ouvindo o silêncio da noite. A chuva ainda caía, mas, de alguma forma, eu me sentia mais leve. Damiano tinha razão, claro, mas o medo ainda estava ali. Eu tinha medo do que o futuro traria para mim e Iris, medo de perder tudo, mesmo que fosse algo que eu quisesse tanto.
Eu sabia que a luta não tinha acabado. E eu também sabia que esse medo, essa dor no peito, faria parte de mim até o momento em que eu tivesse a coragem de fazer o que fosse necessário para não perder Iris. O que fosse necessário para conquistar o que meu coração desejava.