Capítulo 1

1178 Palavras
Iris González Acordei com o primeiro raiar do sol. O céu estava começando a ganhar tons de laranja e rosa, anunciando mais um dia quente e cheio de trabalho. Meus músculos estavam doloridos de tanto esforço na lavoura, mas eu sabia que não havia descanso até que o último grão de café fosse colhido. Como todos os dias, levantei cedo, arrumei rapidamente meus cabelos e vesti a roupa simples que já estava suja da semana inteira. O cheiro da terra úmida ainda pairava no ar, trazendo consigo uma sensação de frescor que logo se dissiparia com o calor que tomaria conta do dia. Saí de casa com o coração apertado, mas determinada a enfrentar mais uma jornada. Meus pais, como sempre, já estavam acordados e cuidando dos menores. Eles não pediram ajuda dessa vez, o que, de certa forma, foi um alívio. Mas eu sabia que logo teria que fazer algo, como sempre. Era assim todos os dias. O café não se colhia sozinho. Cheguei à lavoura antes que a maioria dos trabalhadores começasse a se espalhar pelos campos. O café ainda estava fresco, com as folhas úmidas pelo orvalho da madrugada. Cada grão que eu colhia parecia pesar mais do que o anterior. O calor começava a se tornar insuportável. Mesmo assim, segui com a rotina, com a cesta cada vez mais pesada, enquanto o sol se erguia com força sobre nós. Foi então que ouvi a voz animada de Rosália, sempre disposta a animar a todos. Ela estava mais uma vez de bom humor, como sempre, e isso me fez sorrir, mesmo com o cansaço. — Iris, você sabia que o Fabián vai casar com a Marisol? — perguntou Rosália, já se agachando para pegar mais grãos de café. Seu sorriso era grande e contagiante, como se aquela fofoca fosse a notícia mais importante do mundo. Continuei colhendo o café enquanto respondia, tentando mostrar interesse na empolgação dela, mesmo que meu cansaço fosse maior. — Não sabia não… Quando ele vai fazer isso? — tentei mostrar algum interesse, mesmo com a mente ocupada demais para pensar em algo que não fosse o trabalho. — Ele vai pedir a Marisol em casamento no próximo sábado, durante o festival de música. Fiquei sabendo que ele aprendeu até a tocar violão para cantar para ela. Imagina! — Rosália deu uma risadinha, como se fosse o segredo mais valioso. Sorri, mas logo o calor me tirou do momento de distração. O sol já estava no alto, e o suor escorria pela minha testa. Cada movimento parecia mais lento, mais difícil. Eu sabia que deveria continuar, mas o corpo pedia uma pausa. Olhei para o fundo da lavoura e vi Santiago se aproximando. Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso forçado. — Está mole demais hoje, Iris. Não vai dar conta não. — Sua voz tinha um tom zombeteiro, o que me irritou instantaneamente. Respirei fundo e ignorei, como sempre fazia. Não ia perder tempo com provocações. Minha missão era outra. Eu precisava de cada grão de café para garantir que minha família tivesse o que comer no final do mês. Não era hora para discussões bobas. A tarde passou arrastada, cada minuto parecia uma hora. Os músculos das minhas costas começaram a queimar, e eu estava exausta. Mas a visão da minha casa ao longe me deu forças para seguir até o fim. O som dos pássaros e o vento suave ajudavam a acalmar o espírito, mas o cansaço físico não dava trégua. Quando terminei de colher e olhei para trás, a lavoura parecia infinita, mas sabia que, de alguma forma, havia conseguido. Eu me arrastei de volta para casa depois de entregar a cesta cheia de grãos de café que, ao fim, significariam um pequeno alívio financeiro para a minha família. Chegando em casa, a cena de sempre me esperava: meus pais na cozinha e meus irmãos brincando. Juan logo apareceu, com aquele olhar de quem sempre pede alguma coisa. — Iris, joga bola comigo! — pediu, com a expressão de quem sabia que a irmã nunca negava uma brincadeira. — Agora não, Juan… — disse, com a voz cansada. — Eu preciso ajudar Dolores com a escola. Podemos jogar mais tarde, tá? Minutos depois, Dolores veio com o caderno nas mãos. — Iris, me ajuda com a lição de casa? Não consigo entender essa conta. — ela pediu, com uma carinha de quem realmente não conseguia, mas também sabia que eu nunca negaria. Eu suspirei, já imaginando que, no fundo, o que ela queria mesmo era a minha companhia. Mesmo assim, sentei com ela e Manuel à mesa e ajudei nas lições. O cansaço ainda estava ali, pesado nos meus ombros, mas eu não podia deixar meus irmãos sozinhos. Em seguida, Leonor apareceu na porta com os olhos brilhando. — Iris, vem brincar comigo! Eu tô sozinha! Eu olhei para ela e, apesar da dor nas costas, me levantei. Era importante fazer esses momentos valerem a pena para ela, principalmente para Leonor, que era tão pequena e precisava do carinho das irmãs. Após ajudar Dolores e Manuel, passei um tempo brincando com Leonor no quintal. Eu a empurrei no balanço velho, enquanto ela gargalhava, e aquela risada me fez esquecer, mesmo que por um momento, o peso da responsabilidade que carregava. Quando a noite chegou, todos se reuniram à mesa para o jantar. A comida simples, como sempre: arroz, feijão e carne de panela. Mas havia risos, conversas e um sentimento de gratidão por estarmos juntos, por termos ao menos isso. No fundo, porém, uma sensação de impotência tomou conta de mim. Eu queria mais para todos nós. Queria que meus pais não tivessem que trabalhar tanto, queria que Dolores, Leonor, Juan e Manuel tivessem mais chances na vida. Não sabia como fazer isso, mas sabia que precisava de algo mais. O trabalho duro não me assustava, mas eu sentia que havia algo em minha alma que clamava por mudança. Após o jantar, coloquei Dolores e Leonor para dormir. Elas estavam cansadas, mas ainda assim queriam ouvir uma história. Me sentei ao lado da cama, contei algumas histórias inventadas, e logo elas estavam dormindo, com os rostos serenos e tranquilos. Eu me levantei devagar, tentando não fazer barulho. Coloquei um cobertor sobre elas e saí, fechando a porta com cuidado. Fui para a varanda da casa, onde o céu estava coberto de estrelas. O vento era suave e trazia uma sensação de paz que, por algum motivo, me fazia sentir ainda mais sozinha. Sentei no chão da varanda, olhando as estrelas. Me perguntei, mais uma vez, se algum dia eu conseguiria mudar a vida de todos ali. Eu queria tanto fazer a diferença, mas não sabia por onde começar. A vida parecia tão limitada, tão presa a um ciclo sem fim de trabalho e cansaço. Mas, naquela noite silenciosa, sob o céu estrelado, prometi a mim mesma que encontraria uma maneira de mudar. A vida da minha família poderia ser diferente, e eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para que isso acontecesse.
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