Capítulo 2

864 Palavras
Domenico Ricci O cassino de Turim vibrava sob a luz intensa das lâmpadas e o som constante de moedas caindo nas máquinas e apostas sendo feitas nas mesas. O ambiente estava impregnado de um cheiro suave de tabaco e vinho, mas o verdadeiro perfume ali era o poder: o poder das grandes apostas, das figuras que circulavam entre as mesas de roleta e blackjack, e dos clientes que moviam as peças por trás das cortinas. Eu caminhava pelos salões, sempre com Luca ao meu lado. Ele era meu segurança, assistente e braço direito há anos, e não precisava de palavras para me acompanhar; seus olhos estavam sempre atentos a qualquer sinal de problema. Ele sabia que, apesar de minha postura calma, eu observava tudo e todos, buscando sinais de fraqueza ou desordem. — Como está indo, Luca? — perguntei, parando por um momento perto de uma mesa de poker, onde um grupo de apostadores discutia acaloradamente. — Sem problemas até agora, Domenico. Mas o número de devedores cresceu novamente. — Ele se inclinou ligeiramente, como se estivesse antecipando uma reação minha. — Quero um relatório. — Minha voz foi clara, mas não era um pedido; era uma ordem. Luca sabia disso, e, em um gesto rápido, ele me garantiu que a tarefa já estava sendo cumprida. Seguimos até o escritório, o local onde a verdadeira administração acontecia. Fechei a porta atrás de mim e sentei-me à mesa. Luca colocou o relatório diante de mim, e eu comecei a revisar os nomes, os números, os saldos. A pressão só aumentava sobre aqueles que haviam caído em dívidas. O cassino, como sempre, deveria ser imbatível. Mas, de repente, meu olhar parou em um nome familiar: Bianchi. O nome me fez parar por um momento. Eu me lembrava bem dos Bianchi. A dívida deles havia sido uma das mais complicadas que já enfrentamos. Eles haviam arriscado muito, e isso, claro, não saiu barato. A lembrança daquela época ainda me causava uma certa amargura. Os Bianchi, com suas promessas e jogos sujos, sempre me faziam lembrar o sacrifício de Damiano para salvar sua esposa. Como se ele já não tivesse o suficiente em suas costas, agora esse nome voltava, de uma maneira ou de outra, para nos atormentar. Meus dedos passaram pelas páginas do relatório enquanto eu pensava no melhor curso de ação. Não queria envolver Damiano com isso, não agora, especialmente depois do atentado. Ele estava lidando com a recuperação, com a chegada do filho, e eu sabia que mais uma questão envolvendo os Bianchi não faria bem para ele. Fechei o relatório e respirei fundo. Uma decisão tinha que ser tomada. — Luca, me ouça bem. Os Bianchi não terão mais acesso ao cassino. Bloqueie o acesso deles em todos os cassinos da Itália. — A ordem saiu de meus lábios com a precisão de quem sabe exatamente o que está fazendo. Luca não questionou, não hesitou. Ele apenas assentiu, compreendendo o peso das minhas palavras. — E sobre os outros devedores? — Ele perguntou, com a habitual objetividade. — A cobrança deve ser imediata. Sem exceções. Vamos deixar claro que não toleramos falhas. — Eu o olhei nos olhos, vendo a confiança e a lealdade em seu olhar. O resto da noite foi uma sequência de rotinas bem estabelecidas. Eu segui fazendo rondas pelos salões, observando os jogos, cumprimentando as figuras que se misturavam entre os apostadores e os criminosos disfarçados. Minha presença nunca era questionada, mas eu sabia que muitos me observavam, cientes de que qualquer movimento errado poderia resultar em um grande erro para suas vidas. Quando a noite começou a dar lugar à madrugada, decidi que era hora de me retirar. Não era o tipo de pessoa que ficava em um lugar só por ficar. O cassino funcionava sem minha presença constante, mas ainda assim, eu mantinha os olhos em tudo. Saí do salão e entrei no meu carro. O silêncio da cidade me envolveu enquanto dirigia em direção ao meu apartamento. A rua deserta dava um ar de tranquilidade, mas dentro de mim, eu sabia que isso era apenas um reflexo de uma vida mais complexa e tensa. Cheguei em minha cobertura rapidamente. O apartamento era grande, muito maior do que eu precisava, mas ainda assim vazio. O luxo nunca preencheu nenhuma parte dentro de mim. Abri uma garrafa de whisky, me servi com uma dose generosa e caminhei até a janela. Lá de cima, o cenário de Turim se estendia à minha frente, mas a sensação de estar sozinho, apesar de cercado por tanto, ainda permanecia. Eu estava longe de ser o homem feliz que imaginava ser quando comecei nessa vida. O poder, o dinheiro, as casas noturnas, os cassinos… tudo aquilo parecia apenas uma maneira de preencher um buraco que nunca seria completamente preenchido. A visão da cidade era linda, mas algo dentro de mim questionava: será que isso é tudo que terei? Quando seria verdadeiramente feliz, quando poderia sentir que algo dentro de mim, algo essencial, estava completo? E o que estava faltando? Suspirei, observando o copo já vazio em minhas mãos. Eu ainda não sabia do que precisava, apenas sabia que queria uma luz na minha vida.
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