Iris González
Levantei antes do sol, como de costume. Meu corpo parecia ter um relógio interno que não precisava de despertadores. Talvez fosse o hábito ou a necessidade de começar o dia antes que o calor tomasse conta de tudo. A casa estava mergulhada em silêncio, exceto pelo leve ranger da madeira sob os meus pés. Caminhei até a cozinha, onde a brisa da manhã entrava pela pequena janela, refrescando o ar abafado da noite.
Acendi o fogão e comecei a preparar o café da manhã. Peguei o pão amanhecido, passei um pouco de manteiga rala que tínhamos e coloquei a chaleira no fogo. O aroma do café começou a preencher o ambiente, me fazendo sorrir. Era um café preto, forte, quase amargo. Nada extraordinário, mas, para nós, era suficiente.
Com uma xícara em mãos, saí para o quintal. O céu ainda estava pintado de tons de laranja e rosa, como uma promessa de calor intenso. A terra sob os meus pés era úmida, e a brisa suave me fazia fechar os olhos por alguns segundos, absorvendo aquele momento de paz.
— Outro dia quente, hein? — murmurei para mim mesma, enquanto o sol começava a se erguer no horizonte.
Não demorou muito para que o som de passos arrastados quebrasse o silêncio. Primeiro, meus pais. Meu pai se espreguiçando ruidosamente enquanto minha mãe amarrava o cabelo com um lenço velho. Depois vieram Manuel e Juan, sempre competindo para ver quem chegava primeiro à mesa. Por último, Dolores e Leonor, ainda meio sonolentas, com os cabelos desgrenhados e a boneca de pano que Leonor não largava por nada.
— Buenos días! — Juan gritou, se jogando na cadeira.
— Se você tivesse acordado para me ajudar, seria melhor ainda! — rebati, mas minha voz tinha um tom de brincadeira.
As risadas ecoaram pela casa enquanto nos sentávamos à mesa. Era um café simples, mas as histórias e piadas de Manuel e Juan transformavam aquele momento em algo especial. Dolores revirava os olhos para cada comentário, mas era impossível não notar o sorriso tímido que ela tentava esconder.
O dia foi passando rápido. Depois do café, sentei-me na varanda para pentear os cabelos de Leonor e Dolores. A brisa já tinha se transformado em um vento quente, e o sol fazia nossas sombras se encolherem cada vez mais.
— Dói! — Leonor reclamou, mas não fugiu.
— Se você deixasse eu pentear mais vezes, não estaria assim — respondi, dividindo os cabelos dela em três partes para fazer uma trança.
Antes que pudesse terminar, Manuel e Juan apareceram com uma bola velha, insistindo para que eu fosse jogar com eles. Suspirei, mas não resisti ao olhar de Juan, que me implorava para ir.
No campo improvisado do quintal, corremos de um lado para o outro, rindo e tropeçando na terra seca. Eu já estava suada quando senti o choque de algo gelado contra minhas costas. Parei, estática, enquanto o vestido grudava no meu corpo.
Virei lentamente e vi Dolores segurando um balde vazio ao lado do poço, com um sorriso travesso.
— Dolores! — gritei, mas minha voz foi abafada pelo riso alto do meu pai, que assistia tudo da varanda, enquanto minha mãe balançava a cabeça com um sorriso no rosto.
Peguei o balde mais próximo, corri até o poço e o enchi antes de devolver o ataque. Dolores gritou e correu, mas não conseguiu escapar. Isso deu início a uma guerra de água. Manuel e Juan logo se juntaram, pegando baldes, enquanto Leonor, mesmo rindo, tentava se esconder atrás de mim.
Aquela tarde foi uma bagunça de risadas, gritos e roupas encharcadas. Quando o sol começou a se pôr, estávamos todos exaustos, caídos na sombra de uma árvore no quintal.
Assim que a noite caiu, nos deitamos do lado de fora, olhando para as estrelas. O céu estava limpo, e as constelações pareciam tão próximas que eu quase podia tocá-las.
— Vocês sabem a história de La Llorona? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Lá vem você com essas histórias de assustar crianças… — Juan reclamou, mas eu percebi o brilho curioso nos olhos dele.
Contei a lenda com a voz mais dramática que consegui, detalhando cada sussurro e cada lágrima da mulher perdida. Leonor apertou minha mão com força, e Juan tentou manter a expressão séria, mas seu desconforto era evidente.
— Isso não é verdade, né? — Leonor perguntou baixinho.
— Claro que não, mi amor. Só uma história boba. — Sorri, beijando o topo da cabeça dela.
Quando todos foram cedendo ao sono, fiquei ali por mais algum tempo, observando meus irmãos. Leonor dormia com a cabeça no meu colo, e Dolores estava enrolada em uma manta ao lado. Juan e Manuel ressonavam baixinho, como se o peso do dia tivesse finalmente os vencido.
Olhei para o céu novamente. As estrelas brilhavam intensamente, mas, para mim, pareciam inatingíveis.
Eu apenas me perguntava como poderia mudar tudo isso.
Era uma pergunta que eu não sabia responder, mas uma coisa era certa: faria qualquer coisa por eles. Eles mereciam mais, muito mais. E eu encontraria um jeito de dar isso a eles. Sempre.