Domenico Ricci
A casa dos meus pais sempre teve algo de mágico, algo que jamais poderia ser descrito com palavras. Cada cômodo, cada detalhe, parecia ressoar com a história que eles haviam construído ao longo dos anos. O luxo estava presente em cada superfície, mas de uma forma discreta e sóbria, como se eles quisessem garantir que ninguém olhasse para aquela casa e visse apenas os sinais da máfia. Era uma casa de presença, mas também de silêncio, um lugar que abraçava sua história, mas ao mesmo tempo se esforçava para afastar as sombras do que significávamos para o mundo. Era onde os portões fechados não eram apenas para segurança, mas para tentar deixar o passado lá fora.
Meus pais sempre tentaram separar o que havia fora dos muros dessa casa do que acontecia dentro dela. A máfia, com todas as suas mazelas e violências, ficava do lado de fora, atrás daqueles portões imponentes, enquanto ali dentro era um refúgio. Mas, no fundo, sabia que não era tão simples assim. A máfia, mesmo quando tentávamos deixá-la para trás, acabava se infiltrando, nos moldando de formas sutis e implacáveis.
Para meu irmão, a transição foi mais rápida. Como o mais velho, ele foi introduzido ao mundo da máfia muito cedo, forçado a crescer depressa, a aprender as regras do jogo desde criança. Treinava para ser o capo, recebendo responsabilidades que a maioria dos meninos de sua idade jamais sonharia, e mesmo assim, cumpria cada uma delas com uma precisão assustadora. Eu, por outro lado, vivi o treinamento de maneira diferente, já adolescente, mas ainda com os ecos da infância me chamando. Porém, o peso era o mesmo: ser um Ricci, ser parte da máfia, significava ter no sangue a responsabilidade de carregar a história da família.
Quando entrei na cozinha, o cheiro da comida sendo preparada me envolveu de forma imediata. Era um aroma familiar, reconfortante, algo que me trouxe de volta para os tempos de criança, quando meus irmãos e eu corríamos pelo corredor, rindo e brincando. O calor do forno, o som das panelas, o movimento das mãos habilidosas de minha mamma preparando os pratos: tudo isso era parte da nossa história.
A cozinha de meus pais era um lugar onde a vida acontecia com mais clareza. Lá, as conversas não giravam em torno de negócios ou ameaças. Era apenas um lar. E, por mais que tentássemos afastar o mundo exterior, ali, naquele ambiente simples, sentia-se a verdadeira essência do que éramos.
Donatella chegou pouco depois de mim, trazendo com ela sua energia contagiante. Não importava o que acontecesse, Donatella sempre era o raio de sol em nossa família. Sua animação era capaz de mudar o clima de qualquer ambiente, e naquele momento, parecia que todo o peso da vida, de tudo o que passávamos, sumia. Quando ela entrava, tudo se iluminava. Ela nunca percebeu, mas havia algo nela que me fazia esquecer por alguns instantes da dura realidade que vivíamos.
Donatella era nossa pequena, a mais jovem, e Damiano e eu tínhamos uma missão silenciosa de protegê-la. Eu sabia que a vida que levávamos não era fácil para ela, mas o que mais queríamos era garantir que ela fosse capaz de ter uma vida sem a sombra da máfia. Sabíamos, no fundo, que isso talvez fosse uma ilusão, mas era o que alimentava nossos corações. Ela merecia a chance de ter um futuro diferente.
Logo depois, Damiano e Serena chegaram. Vi meu irmão entrar com sua postura inabalável, o braço esquerdo entrelaçado ao de Serena. Ela, com sua barriga grande pela gravidez de Nicolas, caminhava ao seu lado, com aquele olhar tranquilo que sempre a acompanhava. Damiano, por outro lado, parecia não ter sofrido nada recentemente. Ele estava lá, ereto e tranquilo, como se tivesse acabado de sair de uma longa jornada, mas sem mostrar sinais de cansaço ou dor. Seu sorriso era fácil, tranquilo, como se aquele ataque ao qual ele havia sobrevivido nunca tivesse ocorrido. Era a força silenciosa que sempre o definia. Ele não mostrava fraqueza. Ele nunca mostrava.
Quando entraram, minha mãe imediatamente se aproximou de Damiano, com aquele olhar que só ela tinha, e lhe deu uma bronca inesperada. Ela puxou sua orelha com força, como se ele fosse ainda um menino travesso.
— Quarta vez, Damiano! Quarta! Esqueceu que agora tem um filho para cuidar? — ela disse, sua voz transbordando de uma preocupação sincera, mas também de um certo desgosto.
Damiano, no entanto, não parecia se importar com a bronca. Pelo contrário, ele se divertia com isso, seu sorriso ampliando ainda mais, como se estivesse se divertindo com a mãe a reprimi-lo mais uma vez. A maneira como ele a encarava, como se aquilo fosse uma espécie de brincadeira, fazia com que eu e Donatella nos contivéssemos para não rirmos abertamente.
Serena, de pé ao lado dele, olhou para minha mãe com uma leve ironia.
— Eu já avisei ele, sogra. Se isso acontecer de novo, vou fazer o trabalho completo.
Minha mãe, com um sorriso satisfeito, concordou.
— Eu te ajudo, Serena. Não se preocupe.
Era o tipo de conversa que só poderia acontecer em família, com risos e uma leveza que se contrastava com o peso da realidade que enfrentávamos. Às vezes, era nos momentos mais simples que a vida parecia mais suave.
Logo, meu papà apareceu na sala, como sempre, com sua calma habitual. Seu olhar era tranquilo e seu sorriso genuíno. Ele cumprimentou a todos e disse que o jantar estava pronto.
— Vamos, o jantar está servido. Não deixem a comida esfriar. — disse ele, com sua voz grave, mas acolhedora.
Nos dirigimos todos para a mesa. O ambiente estava mais leve agora, com todos reunidos, as conversas se tornando mais calorosas. Damiano foi repreendido mais algumas vezes pela nossa mãe, mas o assunto logo foi desviado para a chegada de Nicolas. O alívio por ter meu irmão ao nosso lado novamente, entre nós e bem, era palpável, e a expectativa pela chegada do pequeno Ricci parecia ser a coisa mais importante naquele momento.
Durante o jantar, Donatella, com seu jeito irreverente, perguntou o que eu andava fazendo da vida. O mundo ao redor pareceu parar. Todos os olhares se voltaram para mim, e eu senti um frio na barriga. Sabia o que eles queriam ouvir, e não queria mentir para eles. Mas também não queria contar a verdade. Eu sabia o que deveria dizer, e foi isso que fiz.
— Tenho me concentrado no trabalho. Isso tem sido minha prioridade.
Mas, por dentro, sabia que aquilo não era a verdade completa. O trabalho era, sim, uma prioridade, mas o que me consumia era a solidão. Eu estava vazio. Eu estava perdido, e o trabalho era apenas uma forma de preencher esse vazio, mesmo que momentaneamente. Mas todos sorriam, e a conversa seguiu para outro rumo.
O jantar prosseguiu de maneira tranquila, as risadas ecoando pela mesa. Damiano fez um brinde pela sua recuperação, e todos acompanhamos. O som dos copos se encontrando era reconfortante, como se tudo estivesse, de alguma forma, no lugar certo.
Por um momento, o vazio que sempre me acompanhava foi preenchido. Estar ali, com minha família, com todos juntos, parecia aliviar o peso que eu carregava. Mas, assim que o jantar terminou e as conversas se acalmaram, o vazio voltou. Sem aviso, sem explicações, ele retornou, e eu me perguntei: quando ele será preenchido de novo?