Capítulo 5

1304 Palavras
Iris González Já devia ser por volta do meio-dia, o horário em que o sol estava mais quente. O calor queimava a minha pele, e o suor escorria pelo meu rosto e pescoço, se misturando à terra que cobria as minhas mãos. O aroma forte do café que estava sendo colhido enchia o ar, mas não conseguia distrair o cansaço que já tomava conta do meu corpo. As palmeiras ao redor balançavam levemente, mas nada parecia aliviar o calor insuportável daquele dia. De repente, uma voz ao meu lado me tirou dos meus pensamentos. Rosália estava cantando, como sempre, sem nenhum pudor. — Ay, ay, ay, ay — Sua voz desafinada invadia o silêncio da lavoura. — Ah, Rosália! Você precisa mesmo cantar? — eu disse, rindo da sua tentativa de ser cantora. Ela fez uma pausa, se virou para mim com um sorriso travesso no rosto e levantou uma sobrancelha. — Você que não sabe apreciar o meu talento! Vou virar uma estrela! — disse ela, soltando um riso alto. Eu soltei uma gargalhada, sacudindo a cabeça. — Uma estrela? Com essa voz? Sinto muito, amiga, mas não sei se essa é uma carreira para você. Rosália fez uma expressão indignada, colocando as mãos nos quadris. — Você está sendo injusta. Eu sou uma diva em formação! Eu ri mais ainda, apesar do cansaço, a energia de Rosália sempre foi contagiante. O trabalho seguiu seu curso, e ela continuou sua performance improvisada enquanto eu tentava ignorar o calor e focar no trabalho. O tempo parecia se arrastar até que Rosália, com aquele sorriso de sempre, olhou para mim com uma ideia brilhante nos olhos. — E se a gente fosse até a cachoeira depois do trabalho? — sugeriu ela, seus olhos brilhando. Eu hesitei. O cansaço estava me consumindo, meu corpo pedia descanso, e eu ainda tinha que ajudar em casa depois de terminar aqui. — Ah, Ros… eu não sei. Estou bem cansada, e tenho que ajudar em casa depois — respondi, tentando fazer com que ela desistisse da ideia. Mas Rosália não era de desistir facilmente. Ela se aproximou, com a expressão de quem já sabia o que dizer para me convencer. — Vai ser só um pouquinho, Iris. A água está geladinha, vai te refrescar. Você merece! — ela disse, dando uma piscadela. Eu olhei para ela, o calor me sufocando, e por um momento, a ideia de me permitir algo só para mim parecia atraente. — Tá bom, tá bom, mas só um pouquinho! Não vou ficar lá muito tempo, viu? — respondi, cedendo ao convite de Rosália. Ela sorriu com aquele brilho nos olhos, e nós entregamos os cestos de café a Santiago, como sempre fazíamos no fim do dia. Ele fez a conferência dos cestos, liberando-nos com um aceno para ir. Logo começamos a caminhada até a cachoeira, Rosália conversando animada, como sempre. As risadas e a conversa fluíam facilmente enquanto a gente caminhava pelo caminho de terra. Ros parecia não se cansar nunca, enquanto eu me esforçava para continuar, ainda sentindo o peso do trabalho. — Você já pensou em fazer algo diferente? — perguntou Rosália, dando um giro no caminho, como se a vida fosse uma dança. Eu me arrastei atrás dela, ouvindo a pergunta. Não sabia muito bem como responder, então, por instinto, hesitei a resposta. — Como assim, diferente? — perguntei, tentando parecer distraída. Ela não deixou passar. — Eu sei que você sonha com algo mais, Iris. Eu vejo os seus olhos quando você fica olhando para o horizonte. Sei que quer mais para você e para sua família. Mas você tem medo, não é? Eu dei um suspiro, olhando para o chão enquanto caminhávamos. — Não é medo… é só que… eu não sei como fazer isso. Como mudar a vida da gente. Sabe, tem dias que parece que estou presa nessa rotina, e… nem sei por onde começar. Rosália deu uma risada baixa, mas sua voz ficou mais suave. — Ah, sabe, Iris, não é sobre saber tudo. É só não deixar a vida te engolir. Um passo de cada vez. Olhei para ela, surpresa pela simplicidade com que ela falava. Era como se fosse óbvio para ela, mas eu não conseguia enxergar dessa forma. — Eu queria que fosse tão simples assim — murmurei, mais para mim mesma. Ela sorriu e deu uma piscadela. — Quem sabe um dia? Agora, vamos focar em nos refrescar, amiga. A cachoeira está nos chamando! Chegamos à cachoeira, e o barulho da água caindo sobre as pedras trouxe uma sensação imediata de alívio. O som da água, o frescor do ambiente… tudo ali parecia convidativo. Rosália não perdeu tempo e correu para a água com o entusiasmo de sempre. — Vamos, Iris! A água está uma delícia! — ela gritou, entrando na cachoeira com um pulo. Eu ainda fiquei à margem, hesitante. A água estava tão fria que parecia um choque para os meus sentidos. Mas logo eu me vi sendo atraída pela ideia de relaxar, de tirar o peso do dia de cima. — Você vai me deixar sozinha aqui? — ela chamou, rindo e se balançando na água. Suspirei e dei o passo final. A água fria me fez estremecer no começo, mas logo o frescor me envolveu, e o calor do dia foi embora. Eu fechei os olhos por um momento, deixando a água lavar a minha pele e, quem sabe, até meus pensamentos. Rosália me observava, sorrindo como se soubesse que eu precisava desse momento. Quando finalmente me aproximei dela, ela bateu as mãos na água, criando uma onda suave. — Agora sim! — ela disse, com uma energia que parecia inesgotável. — Isso é vida! Aproveitamos aquele momento para conversar mais sobre nossos sonhos. Ela falava com empolgação, como sempre, mas eu estava mais pensativa. Olhei para ela, procurando as palavras certas para expressar o que me afligia. — Às vezes, Ros, acho que vou enlouquecer com isso tudo. Não sei o que fazer, como dar uma vida melhor para eles — disse, a voz mais baixa, enquanto olhava para a água clara ao nosso redor. Ela parou por um instante e parecia realmente ouvir o que eu dizia. Sua expressão mudou um pouco, mais séria, mas ainda calma. — Eu entendo, amiga. Mas não se cobre tanto. Não precisa ser tudo agora. Cada dia é um passo. Você vai conseguir. A gente vai conseguir. Eu respirei fundo, as palavras dela tendo mais impacto do que eu esperava. A pressão que eu sentia começou a diminuir, como se, por um momento, eu tivesse encontrado um alívio para o peso do mundo que carregava nas costas. Quando começamos a perceber que a luz do dia já estava diminuindo, nos levantamos da água. A noite começava a cair sobre nós, e o frescor da cachoeira ainda estava presente, mas já sabíamos que era hora de ir. Voltamos para casa, o caminho tranquilo, mas o peso da realidade logo se fez presente quando chegamos no portão de casa e nos despedimos. Assim que entrei, encontrei meus pais na sala, como sempre. Meu pai e minha mãe estavam ouvindo a rádio, e Dolores fazia o dever de casa à mesa, com os olhos cansados. Leonor cochilava no sofá, com a boneca de pano em seu abraço, enquanto Juan e Manuel brincavam no canto, rindo com a velha bola. Suspirei ao ver todos ali e fiquei alguns segundos observando a cena. Era a minha responsabilidade cuidar de todos eles, e isso pesava mais do que eu gostaria. Eu queria dar mais, queria oferecer algo melhor, mas parecia que nada ia mudar. Passei pela porta, tentando esconder o medo que sentia. Mas, mesmo em meio ao cansaço, algo em meu coração estava um pouco mais leve. Só não sabia até quando essa leveza duraria.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR