Domenico Ricci
Chegar à casa de Damiano sempre teve um efeito estranho em mim. Não que eu não gostasse do lugar, ao contrário, era até impressionante. A casa ficava em um condomínio fechado, cercada por uma natureza exuberante que parecia abraçar a propriedade. O estilo era rústico, mas com toques modernos que davam a sensação de sofisticação. Damiano sempre foi um homem de gosto refinado, então não era surpresa que ele e Serena tivessem escolhido um local como aquele. O contraste entre o que a casa representava e o mundo que ele tinha que comandar era gritante.
Estacionei o carro e, enquanto saía, observei por um momento a fachada da casa. As paredes de madeira, as grandes janelas que permitiam ver o jardim e a vista do campo. Era difícil imaginar que dentro daquela casa havia um império prestes a ser desafiado. Caminhei até a porta e toquei a campainha, esperando que ele me recebesse.
Logo, Serena apareceu na porta, sorrindo, mas com um olhar que denunciava o cansaço de uma gestação avançada. Ela sempre foi forte, mas os últimos meses estavam sendo mais difíceis do que ela admitia. Mesmo assim, ela me cumprimentou com um sorriso gentil, fazendo-me sentir bem-vindo naquele espaço.
— Domenico! — ela disse, dando um passo para o lado. — Damiano está te esperando no escritório.
— Obrigado, cunhada. — Sorri e entrei.
Serena me acompanhou até o corredor e, logo, fui seguindo até o escritório de Damiano. Eu já sabia o caminho de cor, mas algo naquele momento me fez sentir um peso a mais. A casa estava silenciosa, com apenas o som suave dos passos ecoando nos corredores.
Ao entrar no escritório, vi Damiano sentado atrás de sua mesa, os papéis espalhados como sempre. Mas seu olhar estava diferente, mais distante, como se o peso dos últimos dias estivesse finalmente pesando.
— Domenico, finalmente chegou! — Damiano disse, levantando-se e me cumprimentando com um toque de mão. — Sente-se.
Fiz o que ele pediu, sentando-me na cadeira oposta à dele. Não era a primeira vez que discutíamos assuntos importantes, mas algo no ar me dizia que hoje as coisas seriam diferentes. Damiano não parecia como sempre, calmo e controlado. Havia uma leve tensão em seus gestos.
— Como andam as coisas? — ele perguntou, sua voz firme, mas com um tom de preocupação que não passava despercebido.
Respirei fundo antes de responder. Havia muito acontecendo, mas eu sabia que o que Damiano queria saber não era um simples relatório.
— Está tudo sob controle, como sempre. Mas, com tudo o que aconteceu nos últimos tempos, é difícil garantir que algo não vá sair dos trilhos — respondi, tentando medir as palavras.
Damiano ficou quieto por um momento, olhando para os papéis na mesa, como se estivesse ponderando algo. Então, finalmente, ele olhou para mim com um olhar mais sério, mais pesado.
— Domenico, preciso que você assuma a máfia por um tempo. — Olhei para ele, surpreso. — Eu… Eu preciso me concentrar em Serena. O final da gestação dela está sendo mais delicado, e as coisas se tornaram mais imprevisíveis. Você entende o que isso significa, não é?
Eu não hesitei. Sempre soube que minha lealdade à família vinha antes de qualquer outra coisa, e isso era mais uma prova disso.
— Claro que sim, Damiano. Você não precisa se preocupar com isso. Eu assumo.
Damiano parecia aliviado, mas ainda havia um brilho de preocupação em seus olhos. Ele se levantou, foi até a gaveta de sua mesa e retirou alguns documentos. Colocou-os diante de mim e começou a me explicar tudo com calma.
— Você vai ter que lidar com os contatos, resolver alguns problemas que estão em andamento e, acima de tudo, garantir que ninguém se atreva a mexer com a nossa família. Eu confio em você, Domenico, e sei que você fará o que for necessário — disse ele, olhando-me nos olhos.
Eu examinei os papéis rapidamente e confirmei com um aceno. Sabia que o que estava prestes a acontecer não seria fácil, mas, como sempre, faria o que fosse preciso. Era o meu papel, e Damiano sabia que podia contar comigo.
— Então, é isso. Se precisar de alguma coisa, me avise — continuou ele, dando um suspiro, como se sentisse que o peso que carregava havia diminuído um pouco. — Agradeço, de verdade, Domenico. Você sabe como isso é importante para mim.
Eu ri, tentando aliviar a tensão.
— Eu sempre estarei aqui, fratello. Mas tem uma condição para isso.
Damiano me olhou com uma expressão curiosa, talvez até um pouco desconfiada.
— Uma condição? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. — O que você quer?
Eu sorri de canto, já sabendo que ele iria reagir assim. Sabia que ele não ia gostar, mas o que eu havia conquistado era meu por direito.
— Eu quero as chaves do Pagani. Eu ganhei a aposta, e, como prometido, você vai me entregar as chaves — falei, quase desafiando-o com o olhar.
Damiano ficou quieto por um momento, uma risada contida escapando de seus lábios. Ele sabia que, depois da aposta, ele não teria como escapar.
— Você é impossível, Domenico — ele murmurou, pegando a chave da gaveta. — Cuida dele, não bata, não arranhe e não deixe a gasolina zerar.
Peguei as chaves, sentindo uma pequena vitória, mesmo que boba. Mas o que realmente me importava não eram as chaves, mas o que elas representavam: um símbolo de que eu tinha a confiança de Damiano, que ele acreditava que eu poderia liderar, mesmo que fosse por um tempo.
— Obrigado, Dam — falei, sentindo um peso sair dos meus ombros. Olhei para ele, tentando encontrar as palavras certas. — Isso significa muito para mim também.
Ele sorriu, com um brilho nos olhos que eu nunca esquecerei.
— Você sempre foi mais do que meu irmão, Domenico. Você é a minha confiança. E eu sei que, acima de tudo, você vai fazer o que for certo.
Eu sorri sem graça e me aproximei dele, puxando-o para um abraço apertado. Não precisava de palavras para expressar o que eu sentia. Ele me entendia.
— Eu te devo uma, irmão — falei baixinho, me afastando de Damiano.
Saí da casa de Damiano, me despedindo de Serena, que estava em um canto da sala descansando, e entrei no Pagani, o carro que agora era meu, mas que eu sabia que tinha muito mais significado do que simplesmente um objeto de desejo. Depois eu voltaria para buscar o outro carro.
Quando liguei o motor, o som do carro foi como uma música nos meus ouvidos. Eu acelerei, sentindo a adrenalina e a emoção que vinha com aquele momento. Mas no fundo, o que estava me ocupando a mente era o que aconteceria a seguir. Seria um desafio comandar a Carbone, mas estava preparado para isso.
O carro deslizou pela estrada, a cidade passando rapidamente pela janela. Eu estava sozinho com meus pensamentos. O que aconteceria com a minha família enquanto eu estivesse no comando? Seria capaz de proteger todos e manter o império em pé? Não sabia, mas estava pronto para fazer o que fosse necessário.
E, enquanto o som do motor preenchia o silêncio da noite, uma única coisa me vinha à mente: eu não podia falhar.