Iris González
O calor do final da tarde pesava sobre meus ombros, e o suor escorria pela minha testa enquanto meus braços moviam-se mecanicamente, enchendo os cestos com os grãos de café. O dia parecia interminável, a lavoura parecia infinita. O cheiro do café recém-colhido preenchia o ar, mas eu m*l conseguia sentir prazer nisso. Só queria que tudo aquilo acabasse. Cada movimento meu era um reflexo de anos de trabalho árduo e repetitivo. A lavoura, minha única fonte de sustento, era também minha prisão.
Minhas mãos estavam cansadas, os dedos latejando. Eu olhava o céu e via o sol já começando a descer, tingindo o horizonte com um tom dourado, mas ainda assim o calor persistia. O som dos grãos caindo nos cestos se misturava ao murmúrio distante dos outros trabalhadores, e eu, em meio ao meu cansaço, caí em meus próprios pensamentos.
Eu me via longe dali, em outro lugar, outro tipo de vida. Uma vida sem tanto esforço físico, sem tanta dor, sem tanta responsabilidade. Eu imaginava, por um momento, o que seria viver sem estar sempre pensando nos outros, na minha família, naqueles que dependem de mim.
Foi então que uma voz fez meu corpo ficar tenso. O som me tirou de meus devaneios.
— Iris.
Eu me virei, assustando-me ao ver o homem à minha frente. Venâncio, o dono da lavoura. Eu não o via com frequência, e, quando o via, ele normalmente estava distante, sempre supervisionando os trabalhos com uma expressão austera, de quem estava no controle de tudo. Seu olhar estava voltado para mim de maneira direta, e sua presença, apesar de não ser ameaçadora, me fez sentir desconfortável.
— Você tem se saído muito bem nos últimos meses no trabalho, não é mesmo? — ele comentou com um sorriso leve, quase amigável.
Fiquei momentaneamente sem palavras. Eu nunca imaginaria que ele falaria comigo, muito menos para me elogiar. A única coisa que fazia era trabalhar incansavelmente, e mesmo assim, nunca parecia ser suficiente. Eu respirei fundo, tentando não parecer nervosa, e então agradeci com um sorriso tímido.
— Obrigada… eu… eu tento fazer o meu melhor. — respondi, gaguejando, mas ele não parecia se importar muito com a minha reação.
— Você tem se dedicado muito, Iris. Tenho observado os seus esforços. Não é fácil encontrar pessoas assim, que realmente se entregam ao trabalho.
O elogio me pegou de surpresa, e uma sensação de desconforto tomou conta de mim. Eu não sabia se aquilo era algo positivo ou se ele estava me colocando em uma situação incômoda. Como um reflexo, eu perguntei, um pouco ríspida, querendo logo entender o motivo da conversa.
— Se o senhor não se importa, poderia ir direto ao ponto? Eu ainda tenho muito trabalho para fazer… — Ele deu uma risada suave, como se não fosse nada demais. Seu sorriso não era de deboche, mas havia algo desconcertante sobre o que ele queria.
— Claro, claro. Eu compreendo. O que eu queria, na verdade, era conversar com você sobre uma oportunidade. Algo que pode ser muito bom para você.
Eu o olhei, agora completamente atenta. O que ele queria de mim? Como ele sabia que eu estava interessada em algo mais do que a lavoura? O que ele estava oferecendo?
— O que exatamente o senhor está propondo? — perguntei, a desconfiança começando a crescer em mim.
Ele não pareceu notar o tom cauteloso na minha voz. Em vez disso, continuou a falar com uma calma tranquilizadora.
— Tenho alguns novos empreendimentos na Europa, mais especificamente na Itália. Estou começando algo novo por lá, e tem sido difícil conseguir pessoas de confiança para a equipe. Nos últimos meses, eu tenho observado como você tem se saído aqui, e acredito que seria uma ótima adição à nossa equipe. — Eu fiquei sem palavras. A ideia de trabalhar fora, de sair de Peralta, de escapar daquela vida que parecia me engolir, era tentadora.
A Itália… Eu já havia ouvido tantas histórias sobre aquele lugar, sobre como as pessoas conseguiam uma vida melhor, mais estável, mais tranquila. Seria mesmo uma oportunidade? Ou ele estava apenas tentando me iludir?
— Você… está falando sério? — Eu me vi perguntando, a surpresa estampada no meu rosto. Ele confirmou com um gesto afirmativo.
— Sim, é claro. Eu acredito que você tem um grande potencial, Iris. E esse trabalho na Itália seria uma chance para você melhorar sua vida. Eu poderia ajudá-la com tudo, desde a documentação até a acomodação. Você não precisaria se preocupar com nada.
Aquelas palavras, tão fáceis de ouvir, me fizeram imaginar um futuro diferente. A dor nas minhas mãos, o peso nos meus ombros… tudo isso poderia desaparecer. Eu poderia dar uma vida melhor à minha família. Um futuro de oportunidades. Mas havia algo que me incomodava, algo que não parecia certo. Eu tentei puxar mais informações, mais detalhes, para entender melhor o que estava sendo oferecido.
— Mas o que exatamente eu faria na Itália? Quais seriam as minhas responsabilidades? E o que acontecerá com minha família? — Ele pareceu hesitar por um momento, mas logo sorriu, como se aquilo fosse uma questão sem importância.
— A sua função seria de grande importância, claro. Trabalhar na supervisão de algumas operações. As condições são boas, muito melhores do que aqui. E quanto à sua família, bem, futuramente você poderia providenciar uma acomodação para eles se decidirem acompanhá-la.
Eu ainda sentia algo estranho, algo me dizendo que havia algo mais. Mas o que exatamente? A ideia de mudar de vida me atraía profundamente. Eu poderia melhorar a vida dos meus irmãos, dos meus pais. Eles não precisariam mais passar pelo que passamos, sofrendo a cada dia em busca de algo melhor.
Enquanto meus pensamentos se embaralhavam, Venâncio percebeu a hesitação em meu rosto. Com um sorriso que parecia mais um truque, ele continuou.
— Sei que é uma grande decisão. Mas posso garantir que a Itália é um lugar maravilhoso, e o trabalho é simples. Não há nada complicado. Eu cuidarei de todos os detalhes. Só preciso de alguém de confiança para me ajudar lá. E você é a pessoa perfeita para isso.
Aquelas palavras me enganaram, me acalmaram, e ao mesmo tempo, um frio correu pela minha espinha. Eu ainda não sabia se deveria confiar. Mas, ao lembrar da minha família, para o futuro deles, eu não via outra opção. Eu precisava pensar em algo, encontrar uma saída para todos nós.
— Eu… eu preciso de um tempo para pensar — disse, tentando manter a compostura, mas meu coração batia forte. O que eu deveria fazer? — Venâncio, percebendo minha indecisão, assentiu.
— Entendo. Mas não demore muito. Esta é uma oportunidade que não estará disponível para sempre. — Ele retirou um cartão de sua jaqueta e o entregou a mim. — Este é meu número. Me ligue quando tomar sua decisão. Estarei esperando.
Eu peguei o cartão sem saber exatamente o que fazer com ele. Ainda perdida em meus pensamentos, olhei para o número impresso ali e o guardei no bolso. Aquelas palavras de Venâncio ainda ecoavam em minha cabeça, mas algo dentro de mim sentia um desconforto profundo.
— Obrigada, Venâncio. Eu… vou pensar sobre isso.
Ele acenou e se afastou, deixando-me sozinha com a minha confusão. A brisa suave do final de tarde não foi suficiente para acalmar a tempestade em minha mente. Eu tinha a sensação de que estava à beira de uma decisão que mudaria tudo. Mas o que seria essa mudança?
Era tarde, e minha vida estava prestes a tomar um rumo inesperado, e eu não tinha ideia do que o futuro me reservava.