Domenico Ricci
Cheguei à sede da máfia, sentindo um peso ainda maior nos ombros do que o de costume. Luca me aguardava na entrada, como sempre. Ele não precisava de palavras para me dizer o que já estava claro entre nós: o novo capo estava ali. Eu. Meu coração acelerou por um momento, mas não pude demonstrar a apreensão. Tinha que manter o controle, pelo menos até o fim daquele dia.
— Domenico, capo — disse Luca, fazendo um leve gesto com a cabeça. — Os outros já estão esperando por você.
Respirei fundo, tentando concentrar os pensamentos. Sabia que o que viria a seguir seria crucial. Era o momento de colocar em prática tudo o que Damiano me ensinou, mas também, tudo o que eu aprendi observando. Eu não estava pronto, mas quem está, não é? A responsabilidade é um peso que ninguém prepara a gente para carregar. Mas ele estava ali, à minha frente. O império Carbone. Ele era meu agora.
— Vamos — respondi a Luca, mantendo os passos firmes.
O corredor estava silencioso, só o som de nossos passos ecoando pelas paredes frias da sede. Quando entramos na sala de reuniões, todos os olhares se voltaram para mim. A tensão no ar era palpável, mas eu sabia o que devia fazer. Não era hora para insegurança. Eles precisavam ver que eu estava no controle.
A mesa estava cercada pelos membros da máfia, cada um com sua postura característica. Eles eram homens de poder, homens que não estavam ali para se submeter a qualquer um. Mas algo em mim dizia que, se fosse preciso, eles me respeitariam. Eu era Carbone, e aquele nome valia mais do que qualquer outra coisa.
— Imagino que todos já saibam o motivo de estarmos aqui — comecei, tentando falar com confiança, embora minha mente estivesse uma bagunça. — A partir de agora, eu sou o líder da máfia Carbone.
Houve um silêncio. O tipo de silêncio carregado de expectativa. Ninguém disse uma palavra, mas todos acenaram com a cabeça, em um gesto que era ao mesmo tempo respeitoso e observador. Eles estavam me avaliando. Eu sabia disso. Não era mais Damiano. Era eu.
Sentei-me na cabeceira da mesa. Não me importava se o lugar estava ocupado por um nome maior antes. Eu tinha que me manter firme. Estava no centro de um império, e agora tinha que dar o tom. Não havia espaço para fraqueza.
— Quero saber onde meu irmão parou? O que há pendente? — perguntei, olhando para cada um dos membros. Queria entender como eu poderia dar continuidade aos negócios. Como líder, minha tarefa era manter tudo funcionando.
Enrico foi o primeiro a se pronunciar, sua voz grave se destacando na sala silenciosa.
— Damiano estava cuidando dos acordos com os fornecedores de armas. Eles estavam em um ponto crítico, esperando confirmação de Marselha. Mas os números não fecharam como esperado, então ele estava aguardando um retorno.
Eu já imaginava que essa área teria problemas. A negociação de armas nunca é fácil, sempre há um risco envolvido. Mas eu sabia que teria que enfrentar isso, dar a resposta certa.
— E as drogas? — perguntei, mudando de assunto. A venda de drogas era a espinha dorsal do nosso império, e se isso falhasse, o resto viria abaixo.
Salvatore, o mais nervoso dos membros, foi o próximo a se pronunciar.
— O fornecimento de cocaína está estável, mas há uma nova rota sendo planejada para evitar a fiscalização nas fronteiras. Estamos no caminho certo, mas ainda estamos aguardando mais detalhes.
Eu sabia que a segurança era crucial aqui. As fronteiras eram um campo minado para nós, e a vigilância tinha que ser constante. Qualquer erro ali poderia custar caro.
— E a segurança, o que há de novo? — perguntei, sem querer perder tempo.
Sandro, que sempre foi cauteloso e estratégico, levantou-se e se posicionou ao lado da mesa, observando-me atentamente.
— Estamos em um ponto de estabilidade, mas a pressão está aumentando. Precisamos reforçar nossa presença em pontos de distribuição. A fiscalização tem aumentado, e há rumores sobre uma nova força-tarefa da polícia.
A vigilância nunca é demais, especialmente quando os riscos são altos. Eu sabia que precisava de um plano claro, algo que fosse à prova de falhas. Cada movimento tinha que ser calculado.
— E os fornecedores, alguém tem mais novidades? — perguntei, a mente já voltada para o que mais poderia afetar nosso império.
Paolo, que sempre tinha uma visão mais ampla, deu a resposta.
— Os fornecedores não deram sinal de problemas, Domenico. A rotina segue como sempre. Mas estamos alertas a qualquer movimento que possa desestabilizar a situação.
Eu assenti, processando as informações. Não era novidade, mas a sensação de estar ali, no centro de tudo, era algo que eu ainda estava tentando digerir.
Por fim, um dos membros mais silenciosos, Ricardo, levantou-se para falar.
— Damiano também havia começado a estudar o aumento da população imigrante em Turim. Ele acreditava que isso poderia representar uma possível ameaça, ainda que não tivesse muitas informações.
Isso era um fato. Damiano sempre foi perspicaz, sempre viu as coisas sob uma ótica diferente. Ele estava à frente de todos, buscando entender o que vinha pela frente. Eu precisava continuar esse trabalho, sem dúvida.
— Eu me lembro disso — falei, olhando para Ricardo. — E o que há de novo sobre a investigação?
Ricardo hesitou um pouco, mas respondeu.
— Nada que represente uma ameaça até agora, Domenico. A população imigrante está aumentando, mas não há nenhum sinal claro de que estejam se organizando de maneira que nos prejudique. O que temos agora é apenas especulação.
Eu concordei com a resposta dele. A vigilância era importante, mas também era preciso agir com cautela. Não podíamos nos deixar enganar por suposições.
— Continuem monitorando. Mas, por agora, vamos tentar manter as coisas como estão. Calmas. Não podemos perder tempo com algo que ainda não é uma ameaça real.
A reunião se arrastou até o final do dia, e a responsabilidade começava a pesar. À medida que os membros foram saindo, eu permaneci por um momento, absorvendo tudo o que tinha aprendido. Era muito. Demais até. Não sabia se estava pronto, mas não havia escolha. Eu precisava estar e não podia falhar.
Ao sair da sede, uma sensação de exaustão tomou conta de mim. Cada passo era como um peso a mais. A vida de capo não era fácil. Eu sabia disso agora, de forma visceral. E sabia que, mesmo que fosse o que sempre quis, não teria mais volta. O caminho à frente seria árduo.
Cheguei em casa no fim do dia, sentindo o vazio do apartamento me engolir. A solidão era uma velha amiga, mas naquele momento, parecia mais fria. Era como se a responsabilidade que eu tinha não pudesse ser aliviada por nada. Não por dinheiro, não por poder. Nada. Só o peso da liderança.
E eu estava sozinho com isso. O império Carbone era meu, mas a solidão me consumia. Eu sabia que, de alguma forma, eu teria que lidar com isso. Não havia escolha.