Iris González
A luz do pôr do sol parecia mais fraca naquele dia. Talvez fosse apenas minha mente pesada, preenchida pelos pensamentos que não me davam trégua desde a conversa com Venâncio. Caminhava ao lado de Rosália, sentindo o corpo exausto depois de mais um dia na lavoura, mas a verdade é que nem mesmo o cansaço físico era suficiente para me distrair.
Rosália, como sempre, tagarelava sobre algo, provavelmente mais alguma fofoca da vila, mas eu não conseguia absorver nada do que ela dizia.
— Iris? — a voz dela cortou meus pensamentos, com um tom meio impaciente.
— O quê? — perguntei, piscando como se acordasse de um sonho.
— Tô falando com você há uns cinco minutos! O que tá acontecendo, hein? Esses dias você anda estranha.
— Não é nada, Ros. Só cansada — respondi rápido, mas a expressão dela deixou claro que não estava convencida.
— Você sempre está cansada, mas nunca fica assim, tão calada… É sério, está com algum problema?
Eu quis dizer a ela, mas algo me segurou. Talvez fosse medo de falar em voz alta, como se isso pudesse transformar tudo em algo mais real e difícil de ignorar.
— Não tem problema nenhum. Acho que tô só com a cabeça cheia — menti, forçando um sorriso.
— Está bem — disse ela, erguendo uma sobrancelha. — Mas se quiser falar, sabe onde me encontrar.
Quando chegamos no portão da minha casa, ela parou e me abraçou.
— Até amanhã, fica bem — ela disse se afastando. Balancei a cabeça, sem me comprometer, e entrei em casa.
Meus irmãos estavam na sala, como sempre, fazendo uma bagunça sem fim. Dolores tentava controlar Leonor e Manuel, mas eles simplesmente ignoravam os avisos dela enquanto corriam de um lado para o outro. Meu pai e Juan estavam no canto, ouvindo a rádio com uma expressão cansada, e minha mãe costurava uma das camisas de Manuel, com aquela paciência infinita que só ela tinha.
— Iris, você demorou – disse minha mãe, olhando para mim enquanto ajeitava a linha.
— Tinha muita coisa pra terminar hoje — expliquei, deixando minha bolsa em um canto.
Manuel correu até mim, sorrindo.
— Trouxe alguma coisa? — perguntou, esperançoso.
— Um chocolate para dividirem — respondi, bagunçando o cabelo dele.
Dolores me olhou de longe, séria.
— Ele não para de pedir doce o dia todo. Vai estragar os dentes, menino.
Manuel fez uma careta e correu de volta para Leonor, ignorando o sermão de Dolores.
Aquele caos era tão familiar que, por um instante, consegui esquecer o peso que carregava nos ombros. Mas durou pouco. O cheiro do jantar no fogão trouxe a realidade de volta.
Sentamos todos juntos para comer, como sempre fazíamos, e mesmo com a conversa ao redor da mesa, eu permaneci calada. Dolores comentou sobre o que fez na escola, meu pai falou sobre o trabalho no campo, e até Leonor teve alguma história para contar. Eu apenas sorria e assentia, como se estivesse lá, mas minha mente estava em outro lugar.
Depois do jantar, cada um foi para o seu canto. Todos foram dormir cedo e eu ainda tive que contar uma história para Leonor e Dolores. Meu pai voltou para sua cadeira perto do rádio, e minha mãe continuou costurando.
Voltei para a cozinha e comecei a lavar os pratos. Meus movimentos eram automáticos, quase mecânicos, enquanto minha cabeça ainda debatia sobre o que fazer. A proposta de Venâncio parecia crescer cada vez mais, ocupando todos os espaços da minha mente.
— Iris, o que você tem? — a voz da minha mãe me pegou de surpresa.
Virei-me para vê-la, ainda sentada com a costura no colo.
— Nada. Por quê?
— Porque eu te conheço — ela respondeu, com um tom suave, mas firme. — Faz dias que você parece preocupada.
Suspirei, sabendo que não tinha como escapar daquela conversa. Deixei o pano de prato de lado e me sentei à mesa.
— Eu recebi uma proposta de trabalho.
Ela franziu a testa, colocando a agulha de lado.
— Que tipo de proposta?
— Um trabalho fora daqui — comecei, sentindo o coração acelerar. — O senhor Venâncio me ofereceu um emprego na Itália.
Minha mãe ficou em silêncio por um momento, mas seus olhos estavam fixos em mim.
— Itália? — ela perguntou, com uma mistura de surpresa e preocupação.
Meu pai se aproximou, deixando a cadeira perto do rádio.
— Que tipo de trabalho é esse?
Expliquei o que Venâncio havia dito, usando as mesmas palavras vagas que ele usara comigo. Falei sobre os empreendimentos, sobre a chance de mudar de vida. Cada frase parecia mais difícil de formar, como se eu estivesse tentando convencer a mim mesma.
— E você confia nesse homem? — meu pai perguntou, com a voz grave.
— Não sei — confessei. — Mas pode ser uma oportunidade real. Uma chance de sair daqui e dar uma vida melhor pra vocês, para meus irmãos.
Minha mãe balançou a cabeça, claramente desconfortável.
— Parece bom demais para ser verdade.
— Eu sei, mãe. Mas e se não for? E se for a única chance que temos?
Meu pai suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Filha, eu entendo o que você quer, hija. Entendo mesmo. Mas o que ele prometeu exatamente?
— Que eu teria moradia, trabalho… estabilidade. Ele disse que eu seria perfeita para o cargo.
— Mas que cargo é esse? — minha mãe insistiu.
Eu não sabia como responder. Venâncio não havia sido claro, e isso agora parecia mais um problema do que uma vantagem.
— Ele não entrou em muitos detalhes — admiti, sentindo o desconforto crescer.
— Isso é perigoso, Iris. Não quero que você se meta em algo que não conhece — minha mãe disse, segurando minha mão.
Meu pai concordou, mas tentou ser mais neutro.
— Você é adulta, pode tomar suas próprias decisões. Só quero que pense muito bem antes de fazer qualquer coisa.
— É só isso que tenho feito — respondi, frustrada.
Minha mãe apertou minha mão, seus olhos cheios de preocupação.
— Só quero que você esteja segura.
Assenti, mas o peso da decisão ainda estava sobre mim. Levantei-me e fui para o quarto, deixando meus pais na cozinha.
Deitei-me na cama, encarando o teto. O cartão de Venâncio estava no bolso da minha camisa, como um lembrete constante do que estava em jogo. A ideia de sair dali era tentadora, mas algo dentro de mim dizia que havia mais do que eu podia ver.
Mesmo assim, será que eu poderia ignorar a possibilidade de mudar nossas vidas?
Adormeci sem chegar a uma resposta, minha mente ainda dividida entre o medo e a esperança.